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Em Drama

Crítica: Fala Comigo (Brasil, 2017)

  • 11 de julho de 2017
  • Por Gabriella Tomasi
  • 1 Comentários
Crítica: Fala Comigo (Brasil, 2017)
Rating: 3.5. From 1 vote.
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Direção e roteiro por Felipe Sholl. Elenco: Denise Fraga, Karine Teles, Tom Karabachian, Emílio de Mello e, apresentando, Anita Ferraz, Daniel Rangel.

Após percorrer inúmeros festivais, Fala Comigo marca a estréia do diretor Felipe Scholl já como o grande vencedor da 18ª edição do Festival do Rio e, no ano de 2017, chega às telas do cinema brasileiro. Com uma forte trama envolvida em uma narrativa leve, acompanhamos a história de amor entre o adolescente de 17 anos Diogo (Karabachian) e Ângela (Teles), uma paciente da mãe psicóloga já nos seus quarenta anos de idade.

Os primeiros minutos deste longa dizem muito sobre sua narrativa e sobre a sua premissa de “O que você faz quando ninguém está olhando?”e, assim, coloca o espectador em uma posição voyeurista. Ângela ao telefone implora para seu marido, que a havia abandonado, retornar para casa acreditando ser ele na outra linha, apenas para descobrirmos que na realidade é Diogo, o qual sem dizer nada, se masturba ao som da voz da amada em segredo. Na sequencia, somos apresentados ao ambiente de Diogo, um típico adolescente em uma família de classe média alta, constituída por pai, mãe e a irmã caçula Mariana. Isto porque Scholl nos apresenta à algumas cenas como esta que demonstram alguns dos tabus enraizados em nossa sociedade, apenas para desmitificá-los aos poucos.

É curioso, portanto, observar as inseguranças de todos os personagens envolvidos em tela. Diogo está inserido em uma fase de sua vida em que está amadurecendo aos poucos, tentando controlar seus impulsos e desejos sexuais e ao mesmo tempo tentando encontrar uma identidade própria em um exemplo magnífico de “coming of age” quando ele inclusive chega a questionar se ele seria gay. Seu pai, Marcos (de Mello), gradualmente não suporta mais o silêncio da família e a passividade de sua figura naquele ambiente, enquanto a mãe, Clarice (Fraga), demonstra ser mais controladora com o resto dos membros, sempre em função dos filhos e do marido, ao passo que Mari (Ferraz) já indica uma personalidade hipocondríaca.  Por fim, temos Guilherme (Rangel), melhor amigo de Diogo que tem sua homosexualidade reprimida, sem saber lidar exatamente com suas relações afetivas em relação à namorada e à sua amizade com o protagonista, a qual muitas vezes beira ao ciúmes.

Fala Comigo (Créditos: Vitrine Filmes)

 

Desta forma é que o silêncio se insere na narrativa. Ninguém ousa efetivamente a enfrentar os problemas e as neuroses em voz alta, fazendo com que essa ausência de comunicação entre todos os personagens culmine na ruína das relações, sejam elas afetivas ou familiares, como por exemplo, os problemas entre os pais de Diogo que posteriormente sugerem o divórcio. É por isso que poucos diálogos são inseridos neste roteiro, preferindo revelar situações que são colocadas muitas vezes por debaixo dos panos, apenas pela convenção ou pressão da sociedade “tradicional”, conferindo, por sinal, um sentido mais complexo ainda para o título do longa. Assim, com a utilização de uma câmera fixa, em que poucos movimentos são executados pelo aparato em mãos, a fim de desenvolver uma abordagem mais naturalista, planos fechados e close-ups também foram uma opção para adentrarmos cada vez mais no íntimo dos personagens e nos aproximarmos de suas histórias, do seu psíquico, ou seja, de seus traumas, o que Scholl consegue capturar com maestria.

No entanto, além de deixar algumas pontas soltas que não deveriam ter sido tão inconclusivas como o próprio personagem Guilherme, o filme perde força em seus minutos finais e em seu clímax também, quando não realmente estabelece uma conseqüência mais impactante para essa máscara que cobre a verdadeira face das pessoas que Scholl opta por deixar escondida e não como algo efetivamente libertador para seus personagens. Aqui a leveza, a qual inicialmente era um ponto extremamente positivo, acaba prejudicando o terceiro ato. Dessa maneira, o desfecho é mais conservador do aquilo que se propôs no início.

Fala Comigo é, em suma, apesar de seus defeitos um ótimo e lindo estudo sobre as convenções da nossa sociedade que segue esse caminho tradicionalista que se recusa a avançar e, como consequencia, aprisiona muitas pessoas.  

Sejamos felizes, sejamos nós mesmos.

Por Gabriella Tomasi, 11 de julho de 2017 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.
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Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

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