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Em Comédia, Festivais

Crítica: A Convenção de Genebra (La Convention de Genève, França, 2016) | My French Film Festival

  • 18 de janeiro de 2017
  • Por Gabriella Tomasi
  • 1 Comentários
Crítica: A Convenção de Genebra (La Convention de Genève, França, 2016) | My French Film Festival
Rating: 4.0. From 1 vote.
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Dirigido e roteirizado por Benoît Martin. Elenco: Azzedine Bouabba, Soumaye Bocoum, Alison Valence, Adil Dehbi.

Todos sabem que, historicamente, a Convenção de Genebra consiste em vários tratados e protocolos internacionais firmados entre os países acerca de leis universais de direito humanitário que obrigatoriamente devem ser respeitadas. Sobretudo serve de regulamento para tempos de guerra.

Ao contrário do que se pode presumir pela leitura do seu título, este curta-metragem não trata, em um sentido mais literal, sobre guerras mundiais, fome, destruição ou uma busca pela paz da humanidade. Não. Aqui, a trama se trata de alunos do ensino médio brigando por 40 euros. O mais interessante deste filme, portanto, é justamente a forma de comparar uma banalidade (aos olhos do espectador) com problemas mundiais muito mais complexos.

Um grupo de amigos espera um garoto, Francis, sair da escola e dar-lhe uma surra, sob o pretexto de que ele estaria devendo o dinheiro emprestado para um de seus colegas, Firat. Tal como mencionado, são 40 euros. Mas apenas 40? Sim, mas de acordo com eles, a questão é muito maior: é sobre princípios, valores, honrar com as dívidas, cumprir com o prometido, qual seja, devolver o dinheiro. E o mais brilhante desta trama é que ela é uma metáfora para todos os problemas políticos que o mundo já vivenciou: fugir do país é simbolizado pelo fato de que em um momento, em meio à uma confusão, o devedor é flagrado escapando da cena; amigos que compram a briga na defesa de sua amizade, acreditando que a violência pode resolver a situação, representando os casos em que países com interesses em comum se aliam para iniciar uma guerra contra seus inimigos em comum; uma pequena desavença torna a situação muito mais do que ela realmente é quando simplesmente divergem de opiniões; o momento de averiguar com o inimigo a possibilidade de uma trégua antes da batalha; a morte de um inocente comparada a um empurrão em Hakim que o faz cair no chão, entre outros.

No mesmo sentido, a fim de por fim ao conflito, presenciamos a diplomacia tão inteligentemente representada na figura feminina, com o nítido intuito de contrastar a figura masculina que, neste caso, só consegue responder à violência. Assim, o roteirista Benoît Martin empodera a mulher como fonte da razão, alguém com senso crítico apurado. Mas o preconceito ainda está lá, pois não é mera coincidência que Francis conta que foi roubado por uma gangue, apenas para o caso ser desmentido e ser revelado que, na realidade, ele foi roubado por uma garota. Os meninos dão risada. “Mas e por que não poderia ser uma mulher?” diz uma delas. Dessa forma, não é à toa inclusive que as duas únicas personagens (afinal, mulher é sempre minoria, certo?) rejeitam toda aquela briga, uma delas dizendo: “vocês são um bando de babacas”. Tampouco é à toa que é a figura que realmente consegue achar uma solução amigável e cooperativa, quando os homens não conseguem.

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A Convenção de Genebra (Fotos por UniFrance.org)

A direção – também assinada por Martin – é maravilhosa ao isolar aquelas pessoas naquele pequeno canto de terra nesta situação pífia que, em comparação, ocupam um espaço minúsculo diante todo o espaço global, o qual enfrenta problemas muito maiores. As paletas frias também foram bem empregadas para representar um ambiente pouco acolhedor e o verde do militarismo. E é exatamente esta sensação que se tenta passar ao espectador. No entanto, a profundidade de campo reduzida pela ausência de foco no fundo foi desnecessária em alguns planos, gerando, deste modo, certo desconforto ao observar algumas cenas.

Apesar deste ponto, Martin ainda é criativo e inovador ao explorar este tema na fase adolescente. Afinal, não seria esta a época em que normalmente cometemos atos imaturos, besteiras, muitas vezes movidos pelos nossos impulsos? Não seria esta época em que defendemos nossos amigos com unhas e dentes e assumimos as brigas deles? A ausência, portanto, da figura adulta durante a trama e esse comportamento temerário que a juventude precocemente assume é exatamente a característica (e também a crítica feita) que se quer passar da atitude política adotada por algumas nações.

Em resumo, seja 40 euros, seja bilhões de euros ou dólares, o fato é que a avareza das pessoas leva à guerras. O dinheiro leva à guerras. Aquela busca de poder apenas para se reafirmar perante os outros e que muitas vezes não tem sentido de existir.

É uma história que comporta tantos temas complexos e tantas questões a serem refletidas que um simples curta-metragem de apenas 15 minutos que é A Convenção de Genebra o tornam uma pequena grande obra.

Texto originalmente publicado pela autora como parte de sua cobertura ao festival de cinema online francês My French Films.

Por Gabriella Tomasi, 18 de janeiro de 2017 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.
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Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

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