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My French Film Festival | 2019 – Longa-Metragens (Parte 1)

  • 8 de fevereiro de 2019
  • Por Gabriella Tomasi
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My French Film Festival | 2019 – Longa-Metragens (Parte 1)
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Embora os curta metragens se apresentassem com bastante diversidade e competência técnica, o mesmo infelizmente não se pode dizer o mesmo dos longa-metragens assistidos nessa primeira parte da cobertura. Como Meninos traz uma premissa maravilhosa baseada em fatos reais, em que se conta a história da primeira equipe feminina de futebol francesa a nível nacional.

Isso porque o roteiro traz uma narrativa completamente bizarra, que começa na redação de um jornal. Um jornalista que assume a organização de uma quermesse em conjunto com a secretária e decide simplesmente transformar aquele evento em turnês, recrutando meninas cujo interesse no esporte parece ser secundário para algumas, reforçando um estereótipo ridículo de que não há mulheres que tenham gosto pelo referido esporte.

O que é interessante, de fato, é que o preconceito e o machismo são bastante evidentes pela falta de esperança de todos ao redor em relação ao projeto.  Inclusive, pelo motivo de que as mulheres casadas precisariam de autorização por escrita de seus cônjuges para participar do grupo. O que acontece, lamentavelmente, é que para desenvolver estas questões delicadas optou-se por inúmeros clichês e fórmulas prontas que toda a comédia romântica utiliza, prejudicando a obra como um todo ao desenvolver saídas fáceis para um tema bem complexo. A título de exemplo, o suborno que precisaram fazer para autorizar uma das mulheres a jogar ou então as incontáveis pessoas que mudam sua opinião no último minuto para salvar o dia.

O próprio final remete a um tom de “felizes para sempre”, com sensação de dever cumprido como se o problema da questão de gênero fosse resolvido.

Mas o pior de tudo é pretender que uma história ressalte um movimento feminista que nem suas integrantes crêem nele, precisando, dessa forma, de personagens masculinos para fazer as coisas funcionarem. Por um lado, é muito bom ver que homens abraçam a causa e se tornam tão feministas quanto, utilizando de seu status para acabar com tabus. Mas por outro lado ofusca a voz das jogadoras. Mais ainda quando um envolvimento pífio amoroso resulta em atos de vingança, de perdão e conflito tirando todo o propósito do argumento do filme: contar a história de meninas que queriam jogar futebol. É quase ofensiva essa dependência desnecessária.

Infelizmente, a técnica do filme não chega a compensar uma narrativa sem graça. Os planos e os movimentos da câmera são todos previsíveis, como o momento em que a protagonista “revela” seu corpo e chama atenção para si e para um novo romance, quando ela se recusa a sair do vestiário com o uniforme da equipe. Além disso, a fotografia típica de comédias americanas torna tudo muito convencional.

É uma pena que uma história tão boa seja tão mal conduzida por seus realizadores. O longa, no entanto, não chega a ser tão ruim e desnecessário quanto O Poder de Diane, um filme que mesmo após refletir sobre ele não consigo achar um bom motivo para ele existir. A trama se passa quando a personagem Diane conhece e se apaixona por Fabrizio, porém, ela já estava grávida – barriga de aluguel para um casal de amigos gay.

O problema que tenho com esse filme é que todo o processo de gravidez, de aceitação do bebê entre outros fatores que afetam a todas que vão dar à luz a quem não é seu filho é completamente deixada de lado para trabalhar um romance que não faz sentido. Fabrizio some e desaparece da vida de Diane sem explicações e por algum motivo a protagonista insiste em tê-lo por perto. Isso porque as relações sugerem talvez um abuso por parte dos personagens masculinos, mesmo que involuntariamente, e que limita a liberdade de Diane em vários sentidos.  

Na realidade, o pior é testemunhar todo o sofrimento e transformações por quais passa a personagem-título, mas ninguém à sua volta parece ter sido afetado por isso. Em outras palavras, trata-se de uma jornada em que ninguém evolui ou toma consciência de suas ações. Um desastre.

Esperamos que os demais longas tragam melhores histórias!

Por Gabriella Tomasi, 8 de fevereiro de 2019 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

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