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My French Film Festival | 2019 – Curta-Metragens (Parte 2)

  • 31 de janeiro de 2019
  • Por Gabriella Tomasi
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My French Film Festival | 2019 – Curta-Metragens (Parte 2)
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Nesta segunda parte de minha cobertura para curta-metragens, o Festival não deixou a desejar.

Ao Amanhecer entrou na minha lista como um dos projetos mais impactantes que já vi. Trata-se de três jovens que comemoram a formatura do ensino médio em uma praia de lugar remoto da França. Após avistar um barco, eles assumem a aventura, mas acabam parando no meio do nada, sem abrigo, comida, roupas apropriadas e sem nenhuma direção de onde estavam.  

Aos poucos, os adolescentes começam a ficar inquietos, o desespero bate até o ponto de alguns ficarem mais lúcidos do que outros. O senso de monotonia é muito bem empregado pela direção, já que com a câmera estática é possível fazer grandiosos planos para ressaltar o isolamento dos personagens do mar, assim como a própria falta do que fazer. A maquiagem desempenha um papel importante também, já que o frio faz com que ninguém consiga dormir e, dessa forma, o tempo cronológico é perceptível pelas olheiras que cada um passa a ter.  

É um excelente filme de suspense psicológico que trabalha muito bem os efeitos que nós temos frente ao desamparo e, depois, as consequencias que isso traz quando voltamos ao estado normal.

Além dos personagens adolescentes, semelhante temática tem-se também com atores mirins em outro curta, e cuja química e atuação foram essenciais para que fosse bem sucedido e, felizmente, o é! Fera, uma produção da região de Quebec, conta a história de duas crianças que, aparentemente, possuem suas próprias regras, já que passam o dia desafiando um ao outro em brincadeiras perigosas e, sem sinal nenhum de adultos por perto, acabam se encontrando em uma situação que muda as suas vidas.

O que é interessante nessa produção é que, normalmente, quando temos crianças no roteiro de um filme, presenciamos narrativas sutis e que trabalham com a inocência ou as dores do crescimento. Já aqui, as crianças são vistas em seu estado mais cruel e perverso. Obviamente não por uma questão de índole em si, mas sim por desconhecerem limites e consequencias de suas ações. De que toda ação tem uma reação.

A direção de Jérémy Comte é maravilhosa. Deixando a trilha sonora por conta da diegese, a narrativa se torna mais visceral ainda com câmeras que acompanham e seguem os passos dos personagens, assim como utiliza de planos abertos para ressaltar também o desamparo e o desespero, tal como funcionou muito bem em Ao Amanhecer.

Mãos pequeninas, por sua vez, é um filme belga que possui uma temática semelhante e ao mesmo tempo diferente quando trabalha a infância. O pequeno Leo, de um ano e meio, filho do diretor de uma fábrica de produtos químicos é seqüestrado por um dos funcionários durante um protesto para impedir o fechamento da empresa, já que consequentemente significaria a perda do emprego por todos.

A maneira como o conflito do curta começa é um tanto duvidoso e bastante irresponsável: com toda aquela comoção de pessoas com raiva desde o início, a mãe deixa seu filho no carro enquanto retorna para a fábrica, sem que haja um motivo plausível para deixá-lo completamente sozinho e mais assustado ainda. Bastante esquemático, mas felizmente a narrativa se recompõe e nos dá uma linda e importante mensagem.

O segundo ato é o ponto alto do curta. Em um meio natural, sem qualquer interferência ou contaminação do mundo exterior, Leo e o seqüestrador Bruno (Jan Hammenecker) passam a simpatizar um com o outro: Leo passa a entender as marcas e cicatrizes de Bruno, e Bruno, por sua vez, se sensibiliza com a inocência do pequeno. Em meio a um grande caos, é interessante como a câmera se estabiliza naquele local e passa a filmar de perto em ângulos fechados a relação que se cria entre eles. Como se na paz, na tranqüilidade, podemos nos conhecer melhor.

Com pouquíssimos diálogos, a história nos comove e humaniza as pessoas que estão na tela. Uma lição sobre como refletir em relação à magnitude e às consequencias de nossas ações impulsivas em meio a situações de desesperadoras, assim como reconciliar e aceitar posteriormente elas. Afinal, somos todos seres humanos que agem instintivamente, e isso não nos torna necessariamente 100% antagonistas ou 100% heróis de nossa história.   

A família é uma temática bastante forte em Flores, em que trata especificadamente da relação conturbada entre uma mãe e seu filho. Essencialmente, é sobre o processo de luto e como lidar com a ausência de ente querido, neste caso, o pai e marido. Por meio de uma abordagem realista, com uma câmera que segue uma jornada do ponto de vista da mãe, o conflito da narrativa se estabelece de maneira simples: apenas pela procura de uma flor específica que é colocada sempre no tumulo do falecido, mas que não é encontrada naquela dia – causando frustrações.

 

É evidente que as transformações pelas quais a mãe passa são relacionáveis ao síndrome do ninho vazio. Seu filho adolescente passa a dar passos independentes e, por vezes, rebelde, enquanto a protagonista luta para que a família se mantenha intacta, ainda que de uma forma bem egoísta. Não é à toa, pois, que ela repita várias vezes o apelido de infância do filho quando descobre a existência de uma namorada, como uma forma de negar o fato de que ele está crescendo. Da mesma forma, é comovente a força com que ela segura uma rosa ao final: contra o peito e de uma maneira tão intensa como se sua vida dependesse disso.

Simples, mas tocante, testemunhamos inúmeros sentimentos “a flor da pele” dos personagens.

Por fim, O sétimo continente também explora a natureza a partir de uma visão mais ambientalista quando nos deparamos com Émile (Thomas Blumenthal), um homem que é contratado para investigar o desaparecimento de uma mulher, mas acaba descobrindo outras informações que mudam sua perspectiva de mundo.

O curta possui uma abordagem bem surrealista, perceptível pela sua fotografia com cores vivas e primárias, como o azul e o vermelho, e também pela sua narrativa que vai recaindo em tons mais sombrios.  

Mais uma excelente seleção!

Por Gabriella Tomasi, 31 de janeiro de 2019 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

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