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My French Film Festival | 2019 – Curta-Metragens (Parte 1)

  • 25 de janeiro de 2019
  • Por Gabriella Tomasi
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My French Film Festival | 2019 – Curta-Metragens (Parte 1)
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A seleção de filmes do My French Film Festival de 2019 mostra ao que veio, trazendo produções ricas em diversidade com temas relevantes e histórias comoventes. A primeira parte de minha cobertura de curta-metragens em competição foi exatamente assim: abordando realidades bastantes distintas, mas com discursos igualmente poderosos.

Em Cão Azul, por exemplo, os diretores Fanny Liatard e Jérémy Trouilh contam a realidade da periferia francesa onde vive a família monoparental de um pai e filho. O pai tem um grande medo do mundo exterior e por isso decide pintar toda a casa, inclusive o cachorro, com tinta azul. Até que seu filho conhece uma garota que assume a tarefa de ajudar o pai a superar seus receios.

Neste contexto, a fotografia e o design de produção cumprem um importante papel em transparecer o tom melancólico da solidão e do isolamento, não sendo coincidência, portanto que o trabalho abuse das tonalidades da cor azul. Porém, com a introdução da personagem de Soraya (Mariam Makalou) percebemos uma grande mudança: o azul de início é vivo e conforme a narrativa progride outras cores são aos poucos inseridas, seja pelo figurino, seja pela fotografia.

O relacionamento entre pai e filho também é visto em Um Homem, Meu Filho, um curta de Florent Gouëlou que conta uma história conturbada, tendo em vista a difícil aceitação do pai em relação à identidade trans de seu filho. O curta molda bem os impasses e os conflitos entre eles, e sentimos também a necessidade de uma reconciliação que é recíproca em ambos. Contudo, é uma pena que o trabalho subaproveite o arco dramático da irmã Cassandre (Calypso Baguey), deixando muitas perguntas sem respostas.

Apesar disso, é um curta extremamente tocante e relevante que merece ser transformado em longa-metragem, não decepcionando no impacto de sua história para seus espectadores. 

E se neste curta a relação entre pai e filha não é bem delineada, a adaptação cinematográfica do conto de Stefan Zweig, A Coleção não decepciona trazendo uma realidade dura, simples e cheia de significado. Na trama, colecionadores de arte penhoram coleções raras por preços irrisórios de propriedade de judeus durante a ocupação nazista na França. Durante uma de suas inspeções, um dos negociantes fica sabendo de um apartamento vizinho pertencente a um idoso já frágil e decide aproveitar a oportunidade. 

 A pobreza e as circunstancias terríveis que trouxeram a Segunda Guerra Mundial é o tema central aqui. Mediante uma fotografia envelhecida, de tonalidades em marrom, percebemos um mundo decadente e que exige sobrevivência. A Coleção me lembrou muito a narrativa de A Vida é Bela, em que o protagonista protege o filho mentindo para mascarar o perigo do nazismo. Aqui ocorre o mesmo, ainda que ao contrário, já que a filha que cuida de seu pai tenta protegê-lo escondendo muito do sofrimento e dificuldades financeiras pelos quais a família passa. Assim sendo, o final nos comove e nos surpreende, ao nos depararmos com um ato de bondade raro em meio a tantas adversidades – como uma flor que nasce mesmo na podridão de seu solo. 

A natureza também é uma temática bastante forte no curta Wild Love, desenho animado que aborda como nossos simples gestos no meio ambiente causam os maiores desastres. A trama inicia quando um casal acidentalmente mata um esquilo, apenas para que eles sintam as consequencias da fúria dos demais diante dessa fatalidade em um ato de vingança. O curta traz uma mensagem clara, objetiva e relevante: por mais que se tenham atitudes que abracem a natureza, não percebemos a noção dos pequenos descuidos e como isso afeta o nosso redor. Nós agimos, mas o meio reage e inevitavelmente sofremos diretamente as consequencias disso.   

É um curta divertido, que, no entanto, posssui uma classificação bem baixa para ser tão sangrento, o que não agradaria e nem seria apropriado ao público infantil, mas que trabalha bem o humor negro para os adultos.

Por fim, Judith Hotel marca a estréia da diretora Charlotte Le Bom e tem sua trama concentrada na história de Rémi (Jean-Baptiste Sagory) um hóspede que procura um lugar para resolver seu problema de insônia. Porém, descobrimos ao longo da narrativa que aquele hotel não é um lugar comum, já que quem passa por lá está preparado para viver seus últimos dias com vida. Dessa forma, pessoas peculiares o freqüentam com o mesmo propósito.

O filme possui uma fotografia maravilhosa que concede um ar de mistério e estranheza ao ambiente e que ao final nos deixa com uma mensagem impactante para refletir: o fato de que não só todos nós buscamos cada vez mais uma solução instantânea para nossos problemas, mas também de como muitas vezes encaramos as pessoas diferentes ou incomuns, ou seja, um fardo para a sociedade. Afinal, os hóspedes não estariam lá se não somente eles estivem desistidos de si mesmos, mas também todos ao redor deles. Não é à toa, pois, que quando Rémi acredita ter sido curado ele tenta desistir do destino que escolheu.

Concluindo o primeiro dia de cobertura me senti extremamente empolgada para assistir às demais produções. Fica evidente o fato de que o festival preza pela boa qualidade de suas seleções.

 

 

Por Gabriella Tomasi, 25 de janeiro de 2019 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

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