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Ícone Cult | Dr. Fantástico (Dr. Strangelove Or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, EUA, 1964)

  • 6 de abril de 2017
  • Por admin
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Ícone Cult | Dr. Fantástico (Dr. Strangelove Or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, EUA, 1964)
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Direção por Stanley Kubrick. Roteiro por Stanley Kubrick, Terry Southern, Peter George. Baseado na obra Red Alert por Peter George. Elenco: Peter Sellers, George C. Scott, Sterling Hayden, Slim Pickens, James Earl Jones.

Em plena época da Guerra Fria duas superpotências econômicas e políticas mundiais de então, quais sejam, Estados Unidos e Rússia alavancavam uma batalha bélica e tecnológica indireta com o intuito de se firmarem como o país dominante. O comunismo do país europeu e o capitalismo norte-americano enfrentavam então uma corrida armamentista que, como sabemos historicamente, jamais aconteceu de fato tendo em vista a inviabilidade de uma disputa a nível nuclear, motivo pelo qual originou a palavra “fria”. Mas o que aconteceria se por um descuido humano esta guerra tivesse realmente acontecido? Será que os impactos e os perigos da tecnologia nuclear teriam dizimado a população global? Estaríamos vivos agora?

Stanley Kubrick aproveitou para responder essas perguntas e com esse contexto histórico se inspirou nesta sátira política – Dr. Fantástico – uma adaptação do livro de Peter George chamado Red Alert, o qual também colaborou no roteiro.

A trama foi muitíssimo bem elaborada e se tornou um cult pela forma divertida e carismática de seus atores com a tripla atuação de Peter Sellers e a genialidade de George C. Scott aliada à uma direção e roteiro impecáveis. Nela, o General Ripper (Hayden) acredita veemente que a água fora contaminada pelos russos, afinal, “eles nunca bebem água, só vodka” e estava afetando nossos “fluídos naturais”. Assim, ordena o plano de lançar uma bomba nuclear no país para os aviões militares que se encontram próximos do território russo e somente ele detém o código para interromper a operação.    

Neste contexto, Kubrick utiliza praticamente planos fixos e longos, raramente movimentando a câmera em travelling, por exemplo, criando por meio dela oposição dos personagens ou enfrentamento de uma situação. O diretor então prioriza ângulos e enquadramentos para zombar de seus personagens, principalmente da superioridade e do egocentrismo das figuras militares, veja:

 

General Ripper é visto em ângulo contra-plongée para demonstrar sua superioridade

Nesta cena, em planos mais centralizados, o General Buck Turgidson se vangloria de seus soldados

Da mesma forma, em uma conferência na Sala de Guerra,  ao conversar com o presidente dos Estados Unidos Merkin Muffley (Sellers) e demais políticos e militares reunidos, demonstra uma extrema insatisfação ao receber as notícias das atitudes tomadas por Ripper. Porém, o General Buck Turgidson (Scott) a todo momento demonstra certo ar de orgulho em relação à “impecabilidade” do “Plano Ataque R”:

A posição do Presidente Merkin Muffley no quadro evoca a centralização de sua autoridade política

No contra-plano o General Turgidson é posicionado no canto, em um leve contra-plongée que indica um ego inferiorizado no momento em que é diminuído pelo Presidente.

Kubrick também ironiza e zomba das figuras militares ao tratá-los como símbolos “pacificadores” da sociedade e a importância de sua atuação para “garantir” a paz. Vejamos como isto traduz na sua direção:

O cartaz publicitário no canto com os dizeres “Paz é nossa profissão” é vista diversas vezes no campo militar

“Defensa Civil” também é outro cartaz publicitário “promovedor” da paz.

A briga tola por poder e a rivalidade entre os Estados Unidos e a União Soviética é constantemente objeto de ridicularização por Kubrick, o qual não deixa de brincar com o tema. Neste contexto, George C. Scott faz o papel de “criança” que rechaça a presença do Embaixador da Rússia na Sala de Guerra, enquanto o Presidente dos Estados Unidos e o da Rússia discutem e competem até para ver quem se sente mais culpado pela maneira como os eventos se desenrolaram. (“Dimitri, temos um pequeno problema…” ou “Não Dimitri, é a minha culpa, eu peço desculpa. Não, então nós dois nos sentimos culpados igual”.)

 

Briga física entre o General Turgidson e o Embaixador da Rússia. O Presidente interrompe falando: “Senhores, vocês não podem brigar aqui, esta é a Sala da Guerra”

Dois símbolos políticos se confrontam no enquadramento e a figura militar no centro da discussão

Os espaços físicos são icônicos em Dr. Fantástico. Com o intuito de maquiar a artificialidade dos objetos dos cenários, e facilitando o trabalho da direção de arte, já que economizou bastante para o filme, Kubrick utiliza de uma iluminação escura, com muitos contrates e poucos feixes de luz, o que não somente resultaram em maravilhosas imagens, mas também conferiu uma simbologia dos espaços. É como se as mesas representassem a própria autoridade e ressaltassem o ego das pessoas que a ocupam, vejam:

General Ripper é enquadrado de longe e sua mesa é o único ponto de luz no plano

A clássica mesa redonda da Sala de Guerra mantém na escuridão seus personagens

Por fim, no final da trama, a tão almejada conquista do mundo e o seu monopólio pelos Estados Unidos é completamente satirizada. Já que o alvo da bomba prestes a ser lançada cairá sobre a máquina doomsday na Rússia e destruirá toda a humanidade, Kubrick retrata em imagens o espírito dominador da guerra que leva à destruição do mundo:

O major T. J. “King” Kong (Slim Pickens) coloca seu chapéu de cowboy, representando a conquista territorial dos westerns.

O major T. J. “King” Kong anda em seu “cavalo” – a bomba – em mais uma referência aos westerns

Dr. Fantástico (Peter Sellers) representa a figura alemã: sua mão involuntária faz saudações nazistas e se refere ao Presidente dos Estados Unidos como “Mein Führer” como Hitler era chamado na época.

Dr. Fantástico consegue ser uma obra ainda atual e pode ser interpretada a forma como várias guerras modernas inclusive tomam atitudes para reforçarem suas atuações militares e se firmarem como potências no mundo. Qualquer semelhança, não é mera coincidência.

Por admin, 6 de abril de 2017
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Sobre mim
Gabriella Tomasi
Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. Tradutora e revisora freelance de textos.
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