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Em Séries

Girlboss e a Geração Y

  • 28 de abril de 2017
  • Por admin
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Girlboss e a Geração Y
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Girlboss é uma série original da Netflix inspirada em um livro homônimo que conta a história da jovem de 23 anos que mora em São Francisco, Sophia Amoruso, e sua ascensão no mundo da moda com a loja de marca de roupas vintage virtual Nasty Gal, criada por ela sozinha e do zero, inicialmente na plataforma eBay. Essa é uma história interessante e com vários elementos bastante importantes para explorar: aqui temos a geração Y, ou do milênio, daqueles que nasceram na década de 80; o empreendedorismo virtual no ano de 2006, uma época em que o e-commerce e a internet está ainda começando a se consolidar, mas muito rudimentar em comparação ao que temos atualmente e; ainda, o empoderamento feminino anunciado apenas em seu título. Apesar da série ter vários aspectos favoráveis, essa comédia não entrega nenhuma de suas premissas com eficiência.

A começar pelo primeiro ponto, Sophia, interpretada por Britt Robertson, de fato é a representação de uma geração que cresceu no começo ou durante a revolução tecnológica no mundo, onde a internet conquistava um espaço importante. É uma geração superexposta ao crescente consumo e informação, que desenvolveu valores diferentes e únicos, que busca mais independência, fazer o que gosta, ter uma identidade própria e não se submeter às tradições rigorosas da geração antecedente. Essa maior facilidade de alcançarem o que querem que, em contrapartida, seus pais nunca experimentaram, é o que faz os jovens dessa época almejarem sonhos maiores, sucesso e dinheiro rápido. Essa descrição parece familiar, não é mesmo? Pois não é à toa que todas essas características foram praticamente incorporadas à nossa protagonista e nós vemos a presença de todas elas.

Infelizmente, essa abordagem foi executada de maneira distorcida e infantilizada apenas ao analisarmos os primeiros minutos de projeção do primeiro episódio, no qual a protagonista afirma não querer se tornar uma “adulta chata”, rechaçando o destino tradicional que todas as gerações anteriores normalmente assumem. Mas aos vinte e três anos de idade, ninguém reparou que ela já é uma adulta? E das mais chatas por sinal. Esclareço que o fato de ela ter uma personalidade difícil não é escusável o suficiente para desenvolvê-la de maneira surreal e incrivelmente indulgente em relação aos seus erros, como romantizar os furtos que ela faz (o vendedor de tapete simplesmente perdoa o crime), e ainda que ela tenha alguma evolução durante a narrativa conforme a progressão dos episódios, fato é que idealizaram uma geração que simplesmente não corresponde à realidade e nem à idade que a Sophia possui.  Tudo é o do mais forçado, assertivo e exagerado possível.

Girlboss (Créditos: IMDb)

Em relação ao empreendedorismo, uma coisa é certa: Sophia é uma personagem extremamente motivada, e determinada a ser rica e bem-sucedida, visível quando a protagonista idealiza e sonha em habitar uma mansão.  Essa personalidade inescrupulosa, no entanto, destoa de toda e qualquer verosimilhança pela maneira delicada e inocente com que é tratada. Aliás, não esquecendo tampouco do questionamento maior de é como é possível realizar uma adaptação, ou em outras palavras, contar a história de alguém para minimizar os seus erros e a sua personalidade agressiva quando a real Sophia Amoruso possui uma caráter extremamente questionável respaldada por falência e processos judiciais com alegações de assédio moral por parte dos seus empregados? Convém esclarecer que, mesmo que a série resolva explorar todos os seus lados sombrios e os erros superados, nada justifica transformá-los e maquiá-los em uma sitcom como se fossem problemas banais ou pontuais. Desenvolver esses temas em forma de comédia adolescente é completamente irresponsável.

Esta última situação é o que me leva a questionar o derradeiro elemento que pontuei no início do texto: como defender a história de uma pessoa como modelo de feminismo e empoderamento diante destes problemas? A Sophia da ficção também prova que ela tem pouco a nos ensinar neste aspecto. Não somente ao negligenciar todos em sua volta, especialmente sua melhor amiga, mas também ter pouca ou nenhuma empatia em relação à outras mulheres como, por exemplo, quando enfia um burrito na boca de uma estranha, falando que sua chefe tem TPM como reação a um problema que ela mesmo causou, entre outros momentos. Tratar outras mulheres até mesmo outros homens com desdém vai contra ao feminismo que a série afirma tanto defender. É tratar pessoas com ideais – mesmo que contrários aos seus – como loucas, e o fato de ela passar por cima de todos sem um mínimo de sensibilidade ou consequencia não corresponde nem como uma mensagem significativa a qualquer ser humano.

Girlboss é um retrato pouco sério de uma geração por meio de uma comédia leve e descontraída que trata de maneira supérflua elementos relevantes e complexos, apenas para nos importarmos com a sua personagem. É passar uma mensagem extremamente equivocada de que as pessoas mais jovens são mimadas e imaturas, e por conseguinte reforçar o preconceito dos mais velhos. É difícil e completamente contraditório, portanto, defender uma série, cuja protagonista revela tantas críticas em relação ao mundo em que vive, mas não que não possui ou desenvolve nenhum princípio próprio.

Por admin, 28 de abril de 2017
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