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Em Drama

Crítica: Divinas (Divines, França/Qatar, 2016)

  • 7 de janeiro de 2017
  • Por admin
  • 3 Comentários
Crítica: Divinas (Divines, França/Qatar, 2016)
Rating: 5.0. From 1 vote.
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Dirigido por Houda Benyamina. Roteiro por Houda Benyamina, Malik Rumeau e Romain Compingt. Elenco: Oulaya Amamra, Déborah Lukumuena, Kevin Mischel, Jisca Kalvanda, Yasin Houicha, Majdouline Idrissi, Farid Larbi, Bass Dhem, Maryama Soumare.

Neste longa, conhecemos duas amigas adolescentes que moram em Paris: Dounia (Amamra) e Maimouna (Lukumuena). Mas não é porque elas se encontram em uma cidade considerada glamourosa é que a situação financeira de ambas se encontra no mesmo patamar.  Vivendo em um subúrbio da periferia da cidade habitado por imigrantes, percebemos um retrato mais realístico do que a cidade “esconde”: enquanto Dounia vivencia uma ausência da família “estável”, com uma figura materna mais preocupada em seus romances, do que na própria relação com a filha, o contrário se vê na superproteção dada à Maimouna pelos seus pais, a qual não quer decepcioná-los.

Apesar de estarem sempre desfrutando dos pequenos prazeres da vida juntas, as garotas vivem nas mais condições precárias, tendo até que recorrer a pequenos furtos em um supermercado. Mesmo tentando por diversas vezes se encaixar no padrão comportamental que a sociedade espera delas – o que não coincidentemente se revela durante um curso para formação de secretária, onde a professora exige compostura e cordialidade – as jovens falham em tentarem se inserir no sistema capitalista e xenofóbico da Europa, quando não conseguem se manter em empregos, cursos, etc.

Sem perspectiva nenhuma de crescer na vida por meio dos métodos convencionais e lícitos, elas buscam, portanto, serem bem sucedidas ao serem contratadas por uma traficante local chamada Rebecca (Kalvanda), a qual possui uma vida bastante invejável aos seus olhos. Porém, elas não são retratadas aqui como rebeldes ou arruaceiras, e muito menos como heroínas hollywoodianas. Elas são acima de tudo humanas, mulheres fortes, donas do próprio destino e que não sucumbem às dificuldades da vida. Aliás, o que o roteiro soube muito explorar é o empoderamento feminino pela própria representação secundária do homem: ele é fraco tanto fisicamente – no que se demonstra pela incrível resistência de Dounia ao ser espancada – quanto mentalmente, na medida em que é simbolizado como um ser praticamente ausente de raciocínio, mas instintivo acima de tudo e objeto de luxúria. Este último que também é bastante visível no parceiro sexual de Rebecca, e também no dançarino Djigui (Mischel).

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Oulaya Amamra e Déborah Lukumuena em Divinas

Muito mais do que apenas denunciar suas condições de vida, Divinas faz um reflexo também de como o Estado se comporta perante essas pessoas, as quais se veem excluídas no que tange à proteção estatal, como não as são a elite. Quando cometem vandalismo, os agentes estatais demonstram uma grande eficiência em repreendê-los, incriminá-los, mantendo-os sempre à margem da sociedade, mas quando se demanda de uma atitude para prestar um serviço a eles, bombeiros os ignoram, policiais respondem seus pleitos com cassetetes, bombas de gás sendo, portanto, incapazes de atendê-los nas mínimas exigências para um tratamento igualitário, o que causa inclusive uma terrível tragédia. Uma perda que reflete a mesma consequência de sempre quando o uso de violência por parte do próprio serviço público é empregado.

Da mesma maneira, é incrível como a projeção de tudo isto é realizado a partir da sensibilidade da diretora Benyamina e ao mesmo tempo a genialidade de seu controle de câmera que resultaram na conquista da Câmera de Ouro no Festival de Cannes. Momentos memoráveis foram criados ao comparar, por exemplo, um cena brutal de violência física à uma dança contemporânea expressiva e harmoniosa, mas que sugere a mesma violência (em uma igual competente montagem), combinando, dessa forma, golpes físicos com movimentos rítmicos, ou então quando recria um passeio em uma ferrari imaginária que se contrasta com o ambiente humilde e pobre do bairro, como se aquela brincadeira fosse uma válvula de escape para manter vivo o pensamento otimista de um futuro melhor.

Ainda, a escolha é perfeita ao inserir câmeras subjetivas, como vídeos estilo snapchat, assim como travellings, a fim de registrar momentos de carinho entre Danouia e Maimouna, aproximando o espectador da relação que elas possuem. Isto se revelou essencial para demonstrar o tamanho da fidelidade de uma para com a outra, e igualmente para que possamos nos identificar rir e nos deliciar com os momentos alegres e sofrer junto com elas nos difíceis.

Em suma, Divinas é uma crítica dura às instituições e a um sistema político que, mesmo levantando a bandeira da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, viram as costas para seres humanos, negligenciando, por conseguinte, os próprios valores que prega.

Não é de se surpreender, portanto, quando percebemos os mesmos elementos explorados serem não somente se tratam de um objeto de ficção, mas algo que é terrivelmente atual e real.

Por admin, 7 de janeiro de 2017
  • 3
3 Comments
  • Thiago Cardoso
    7 de janeiro de 2017

    Esboçando um post sobre os melhores de 2016 lá no Plano Extra, me peguei pensando que as redes de streaming estavam devendo um filme digno de premiações, excetuando o superestimado Beasts Of No Nation e os formulaicos The Fundamentals Of Caring e Tallulah, ambos exibidos em Cannes.
    Encontrei em Divinas um baita filme, muito embora com cenas e núcleos inflados querendo ser integralmente assertivos, mas ali tem técnica, tem carisma, tem um reflexo de uma geração jovem marginalizada e que não se deixa abater, apesar de tudo como você bem pontuou. Enfim, uma ilustre presença de uma direção pensante e que toca além de expor as feridas daquela sociedade tão escondida pelo típico (e almejado) glamour parisiense.

    Anna Muylaert deveria aprender como se faz vendo esse filme.

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