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Em Ficção Científica

Crítica: Valerian e a Cidade dos Mil Planetas (Valerian And The City Of A Thousand Planets, França, 2017)

  • 9 de agosto de 2017
  • Por admin
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Crítica: Valerian e a Cidade dos Mil Planetas (Valerian And The City Of A Thousand Planets, França, 2017)
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Dirigido e roteirizado por Luc Besson. Baseado em “Valerian e Laureline” por Pierre Christin. Elenco: Dane DeHaan, Cara Delevingne, Clive Owen, Rihanna, Ethan Hawke, Herbie Hancock, Kris Wu, Rutger Hauer.

Baseado na adaptação da série de desenhos em quadrinhos “Valerian e Laureline” pelo escritor francês Pierre Christin, conta-se a história do Major Valerian (DeHaan) e a Sargento Laureline (Delevingne), que são ambos agentes federais que trabalham para o governo, e são encarregados de manter a ordem e paz dos territórios sob a jurisdição humana. Estamos aqui em um momento da história, na qual as missões espaciais se expandiram cada vez mais até alcançarem novas populações e planetas alienígenas, permitindo, por conseguinte a cohabitação entre humanos e outras espécies diferentes. Certo dia, o Ministro da Defesa informa sua equipe a presença de uma força que a ameaça a existência de Alpha – o ecossistema considerado “a cidade dos mil planetas”, e, sua missão, é protegê-lo. 

Antes de iniciar minha crítica, devo confessar que não conheço as histórias dos quadrinhos que inspiraram a adaptação deste longa. Porém, antes que isso seja um problema para alguns, esclareço de antemão que o objetivo não é comparar a obra cinematográfica com o material original. Como sabemos, um filme deve se sustentar por si só e como tal deve ser analisado, afinal, cinema nunca é feito para um determinado público em específico, ainda que beba da fonte de outras artes, como a literatura, teatro, e, sim, quadrinhos também.

Pois bem. Com uma premissa interessante e efeitos visuais maravilhosos, as diferentes populações, tanto alienígena quanto humana, são impressionantes e, portanto, no quesito “ação” ele muitas vezes consegue trazer o necessário para manter o espectador entretido. O design de produção é executado com um capricho imenso, e nos transporta a uma realidade completamente ficcional, mas ao mesmo tempo, crível. No entanto, nem só de espetáculos visuais vive a sétima arte. É necessário conteúdo; é necessário um roteiro bem definido com personagens interessantes e envolventes; é necessário algum tipo de reflexão; é necessário tratar seu tema com seriedade e, infelizmente, Valerian e a Cidade dos Mil Planetas não possui nada disso. Pelo contrário, por trás de tanta habilidade técnica, esconde um roteiro extremamente problemático.

A começar pelo romance pífio que existe entre os personagens principais. Nada contra a existência de um par romântico, porém, DeHaan tenta trazer um charme de garanhão com coração mole à la Harrison Ford que simplesmente não convence, assim como o fato de sua personalidade não ser nada aprofundada para que possamos acreditar que Laureline seria diferente de “tantas outras parceiras” que ele já teve. O que aconteceu com elas? Como ele acabou sendo designado para trabalhar com Laureline? Quem é Valerian? Nada disso sabemos satisfatoriamente, uma vez que nos deparamos com uma pessoa por vezes imatura, com certo tipo de complexo megalomaníaco (que não cola) e de repente, sem qualquer justificativa, ele afirma ser o militar mais rigoroso e disciplinado de todos (?), em meio à narrativa. Laureline tampouco é uma personagem que merece elogios, apesar dos esforços da atriz, já que mesmo com seu temperamento forte e constante postura militar, ela é muito limitada durante a trama, sendo o alvo preferido de bullying de seu colega em relação aos estereótipos femininos mais absurdos (Valerian sempre a deixa de escanteio nos momentos mais delicados das missões, como se fosse tarefa de “homem”, além de reclamar o tempo todo da forma como ela pilota uma nave). Claro, ela possui momentos em que se impõe perante o colega e ela o resgata outras vezes, mas ainda se espera o mínimo de coesão no texto, sendo muito conveniente e patético quando a heroína consegue escapar da guarda de dois militares com um esforço nulo, mas lutar com outras criaturas ela precisa se fazer de “a donzela em perigos” e a gritar pelo nome do amado em desespero quando, para ela, ele nem está por perto (juro!).

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas (Créditos: IMDb)

Essa concepção batida de relacionamentos amorosos já é ultrapassada e a forma como fora representada  torna a relação entre o casal muito esquemática, além de clichê e previsível, porquanto Valerian faz do tipo “o conquistador que encontra a mulher que muda sua vida” e, Laureline, por sua vez, é aquela que “não resiste aos charmes do bad boy, mesmo parecendo ser durona por dentro”. E nada disso implica em qualquer esforço para extrair efetivamente uma atração gradual que trabalhe as duas personalidades, a fim de gerar empatia com o público. Aliás, convém mencionar que essa distância entre os personagens e a sua audiência não se restringe ao principal. Fica difícil também nos importar ou nos aproximarmos de qualquer um deles, pois tudo muito é tratado de maneira genérica e superficial, como por exemplo, a irrelevante cameo de Rihanna que nos distrai por alguns bons minutos sem qualquer propósito narrativo, além de meras conveniências para justificar a participação da cantora.

Além disso, a decupagem de Besson revela-se também um problema, pois desenvolvendo a trama mediante um ritmo irregular e frenético, os eventos são muito episódicos e expositivos, ou seja, sem qualquer dinâmica entre os vários temas que aborda, como: xenofobia ou novos seres vivendo em harmonia com humanos, os quais são ofuscados por tanta informação que se quer passar para esse “novo universo” que estamos adentrando. Assim, ao invés de trabalhar as imagens para um estudo profundo da mensagem principal que se quer passar, o longa trabalha com diálogos vagos e/ou vazios de sentido o tempo todo (como a risível e clichê lição de moral sobre amor de Laureline para Valerian), tornando a experiência cansativa demais para acompanhar em mais de duas horas de projeção.

Mesmo após tudo o que já foi mencionado, ainda há um problema maior ainda, qual seja, a forma como o roteiro de Besson fora estruturado. Ele também conta com muitas conveniências como facilitar a fuga dos protagonistas em diversos momentos, assim como conceder informações que são reveladas – pela primeira vez ao espectador – somente em instantes oportunos como uma “presença espiritual” dentro de Valerian, ou então o repentino descobrimento da operação ilegal de um dos militares dentro da própria base deles (que eu ainda não entendo como fora descoberto tão facilmente se era um segredo tão grande). Outra escolha completamente equivocada é quando introduz elementos do primeiro ato que são repetidos pela segunda vez em outro momento, já ao final da trama, reiterando muitas informações das quais já sabíamos préviamente, e neste caso, refiro-me à história de uma raça quase extinta.

A partir dessa análise, portanto, este longa torna-se absolutamente indefensável, devido a equívocos tão básicos e tão essenciais que, como resultado, subestimam a inteligência de sua audiência.

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas é, por fim, esteticamente um maravilhoso filme, mas um desastre em termos de substância.  

Por admin, 9 de agosto de 2017
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