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Em Suspense

Crítica: Um Lugar Silencioso (A Quiet Place, EUA, 2018)

  • 4 de abril de 2018
  • Por Gabriella Tomasi
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Crítica: Um Lugar Silencioso (A Quiet Place, EUA, 2018)
Rating: 4.0. From 1 vote.
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Dirigido por John Krasinski. Roteirizado por Bryan Woods, Scott Beck, John Krasinski. Elenco: Emily Blunt, John Krasinski, Millicent Simmonds, Noah Jupe.

É muito comum e é bem típico que produções cinematográficas utilizem do som para provocar em seu espectador sustos, jump scares, medo, comoção e aflição em filmes de terror e/ou suspense. O ator John Krasinski, em sua estréia na direção, consegue nos trazer um olhar criativo para este recurso, utilizando deste mesmo elemento em uma abordagem metalinguística no seu primeiro longa-metragem Um Lugar Silencioso.

Na trama, nos deparamos à uma realidade pós-apocalíptica, na qual o ser humano já é uma raça praticamente extinta devido à presença de criaturas misteriosas que se alimentam de todo e qualquer ser vivo, se locomovendo e sendo atraídas até as suas presas por meio de sua audição (e portanto, são cegas). Neste sentido, como o próprio título do filme já sugere, conhecemos uma família que tenta levar uma vida em silêncio absoluto, fazendo trilhas de areia, se comunicando em linguagem de sinais, entre outros métodos para poder sobreviver dia a dia.

Assim sendo, o som é escasso, mas não completamente ausente no filme, de tal modo que qualquer possibilidade de os personagens criarem barulhos – por mais cuidadosos que sejam –  já mantém a tensão no espectador, o qual desde os minutos iniciais aprende como a criatura opera e o que ela é capaz de fazer. Krasinski então se apropria deste recurso para conduzir a narrativa e fazer com que seu público permaneça inquieto na cadeira do cinema sem, felizmente, subestimar a sua inteligência e sem muitos sustos gratuitos (salvo algumas exceções devo confessar, como por exemplo, a mão suja de sangue no banheiro). Na realidade, muitos deles são o que fazem mover a história e levá-la ao seu desfecho. Da mesma forma, é nos pequenos rituais e detalhes – e não somente no tempo cronológico – que demonstram o quanto aquela família já passou e o quanto está acostumada a procurar refúgios para se proteger, como a própria água ou então um pedaço de metal. 

(…) se o tom vermelho indica a vinda de alguém muito desejado e amado, ao mesmo tempo serve para enaltecer e alertar do perigo e violência a que estão submetidos(…) (Créditos: IMDb)

 

A direção do novato demonstra uma maturidade e um talento que poucos alcançam com sucesso dentro do gênero. Cada plano e cada movimento é pensado de maneira que o realismo se intensifica e se torna relacionável ao seu espectador, muito embora estarmos lidando com monstros diegéticos. Aliás, é possível afirmar que o cineasta deseja que façamos parte da história e não ser somente meros observadores do que acontece em tela, efeito este que foi desenvolvido de forma bastante semelhante em Ao Cair da Noite (2017). Junto com uma fotografia que utiliza em sua maioria de tons pastéis e escuros, a claustrofobia dos lugares é ressaltada igualmente pelos planos fechados que seguem os personagens pelos cenários, a fim de inclusive analisar atentamente a forma como eles contornam obstáculos. E se o tom vermelho indica a vinda de alguém muito desejado e amado, ao mesmo tempo serve para enaltecer e alertar do perigo e violência a que estão submetidos. Por outro lado, Krasinski tropeça algumas vezes ao repetir os mesmos recursos para criar picos de alívio e de tensão muito acentuados e, por conseguinte, não mantém o ritmo da narrativa equilibrado e diversificado entre som/silêncio. Outro erro crasso é dar atenção a elementos que possuem papéis previsíveis na narrativa como um prego na escada que faz questão de ser mostrado em plano-detalhe.

Pode-se afirmar que o desfecho deste longa se dá por meio de uma pista plantada desde o início da trama. Porém, o interessante é que ele é incorporado ao arco dramático vivenciado pela personagem da filha surda interpretada pela adorável Millicent Simmonds, que envolve o problema da inclusão e os impasses de sua deficiência auditiva que alimenta seu sentimento de culpa por eventos passados.  Neste aspecto, Krasinski também foi eficiente ao transmitir as frustrações pelas quais ela passa e a sua visão de mundo por meio da edição de som que ensurdece o público.

A despeito das ressalvas mencionadas, Um Lugar Silencioso é uma experiência cinematográfica maravilhosa.

Texto originalmente publicado pela autora em coluna para o site Cabine Cultural

Por Gabriella Tomasi, 4 de abril de 2018 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

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Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS.
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