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Em Drama

Crítica: Um Limite Entre Nós (Fences, EUA, 2017)

  • 26 de fevereiro de 2017
  • Por admin
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Crítica: Um Limite Entre Nós (Fences, EUA, 2017)
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Dirigido por Denzel Washington. Roteirizado por August Wilson, mesmo autor da obra teatral homônima. Elenco: Denzel Washington, Viola Davis, Stephen Henderson, Jovan Adepo, Russell Hornsby, Mykelti Williamson, Saniyya Sidney.

Adaptado da peça de teatro homônima pelo seu próprio autor August Wilson, essa é uma história que realmente merecia ser mostrada no cinema. Ela conta a vida do lixeiro Troy Maxson (Washington) e sua esposa Rose (Davis) na década de 50. Desde os primeiros minutos do filme percebemos as frustrações de Troy: um homem negro cansado de ver brancos dirigindo caminhões, ao mesmo tempo em que lamenta jamais poder conseguido uma oportunidade em jogar baseball devido à cor da sua pele.  Por esse motivo, entra em conflito com seu filho mais novo Cory (Adepo), quem acaba de aceitar uma bolsa na universidade para praticar profissionalmente o esporte. “Seu pai quer que você seja tudo o que ele não foi, e tudo o que ele é” diz Rose em um momento para Cory. Diante dessas frustrações, ele proíbe seu filho a seguir seus passos quando mais novo, assim como reprova a profissão de “músico” de seu filho mais velho Lyons (Hornsby). Troy ainda cuida do irmão Gabriel (Williamson), o qual possui problemas psiquiátricos após sua participação na Segunda Guerra Mundial.

Como muitos já devem saber, a história contada no cinema normalmente origina ou de um roteiro original, ou de uma versão adaptada. Essa adaptação às vezes vem, por exemplo, ou de uma obra literária, ou de um vídeo game ou então de uma história em quadrinhos. Ocorre que, o cinema possui uma linguagem própria e específica, tendo em vista que advém de um conceito de contar uma história “através de imagens”. É por essa mesma característica, que a difere dos outros tipos de produção artística, que muitas adaptações falham em seus filmes. Por mais que eles tenham uma história emocionante ou importante para contar (o que também é apreciado), o problema é “saber a forma de contar” eficazmente por meio dos instrumentos e recursos visuais disponíveis à equipe técnica que executa o filme. Infelizmente, esse é exatamente o problema que compromete a qualidade de “Um Limite Entre Nós”.

Por ser originária de uma peça de teatro é que o filme possui alguns problemas em sua narrativa, principalmente na construção e decupagem de seu roteiro. Apesar de se manter fiel ao seu material original, os primeiros minutos de projeção, executados em planos fixos e longos (contando com alguns close-ups sem sentido), são carregadíssimos de diálogos e, principalmente, monólogos teatrais, deixando qualquer recurso visual para tornar as cenas mais dinâmicas de lado. Apostando ainda em uma ausente trilha sonora que só aparece em mais de uma hora de projeção, a forma naturalista como é filmada apenas uma conversa entre Troy, Rose e seu amigo de longa data, Bono (Handerson), em mais uma sexta após o trabalho, então, cansa pela intensidade e quantidade de informações jogadas ao espectador de forma frenética. A linguagem teatral, portanto, é o que predomina aqui nesta primeira parte, dando a sensação de estarmos vendo um teatro filmado, ao invés de um filme.

Jovan Adepo e Denzel Washington em Um Limite Entre Nós (Fotos por IMDb)

Na medida em que a narrativa progride, no entanto, encontramos uma salvação quando presenciamos um refinamento na fotografia, ao empregar uso mais expressivo da paleta fria e sombras que tomam conta dos planos e dos personagens também. O figurino, por sua vez, é bastante expressivo igualmente ao usar cores em tons de amarelo, marrom e azul, indicando um lar feliz, mas problemático. Para completar, temos as metáforas maravilhosas do que construir uma “cerca”, como o título original, significa: se para uns serve como proteção contra “intrusos”, para outros pode ser uma barreira que os impede de se aproximarem.

Na realidade, o filme possui a força que tem e se sustenta basicamente pelas impecáveis atuações de seus personagens principais e das incríveis nuanças que cada um tem a oportunidade de desenvolver. Denzel Washington tem a responsabilidade de carregar o filme inteiro e transmitir, no começo, um cara carismático, apaixonado e falastrão, mas que gradualmente desconstitui essas características pela frieza e dureza com que trata seus filhos e sua esposa devido aos ressentimentos já mencionados no início deste texto. E se Viola Davis inicialmente demonstra conforto e felicidade em ser esposa e do lar, ela também demonstra uma insatisfação imensa, após uma notícia devastadora, de como ela investiu sua vida inteira em apenas um homem. “Você acha que eu não tinha sonhos?” Ela diz a Troy. Atuações, portanto, tão fortes e tão impactantes que são merecedoras de cada nomeação ao Óscar de 2017.

No decorrer na narrativa, o longa explora questões importantes sobre racismo e a sociedade americana daquela época, mas ainda que ele consiga abordar todos esses temas com eficiência o ritmo que tinha se recuperado, contudo, volta a se perder no terceiro ato ao apostar em metáforas exageradas e artificiais (como a luz vinda do céu) que não funcionam cinematograficamente. É como se a obra transitasse entre as duas linguagens (teatral e cinema) sem saber lidar com nenhuma delas. O resultado é completamente confuso.

Um Limite Entre Nós, portanto, é um filme que traz emoção pelos seus personagens, mas que não impressiona por sua estética.

Por admin, 26 de fevereiro de 2017
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