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Em Drama, Festivais

Crítica: Um Grande Silêncio (Un Grand Silence, França, 2016) | My French Film Festival

  • 3 de fevereiro de 2017
  • Por admin
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Crítica: Um Grande Silêncio (Un Grand Silence, França, 2016) | My French Film Festival
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Dirigido e roteirizado por Julie Gourdain. Elenco: Nina Mazodier, Sonia Amori, Clarisse Normand.

Ser mulher não foi fácil. A longa jornada histórica por busca de igualdades, direitos de voto, protestos contra o assédio, abuso sexual, atentado ao pudor. É esse o grito de guerra que meninas escondidas em um quarto escutam na rádio, desejando estar presente para enfrentar uma causa que, devido à sua situação, não é possível. Na categoria “Vida de Mulher” do My French Film Festival, este lindo curta-metragem de 30 minutos conta a história de Marianne, uma menina de 19 anos, de família rica e estruturada em 1968.

Nos primeiros minutos de projeção, percebemos a protagonista sozinha, isolada em um quarto de costas para a câmera, justamente para que aos poucos possamos descobrir o ambiente no qual ela está inserida: uma casa para garotas jovens grávidas, que assim como ela, são colocadas naquele lugar para que possam ter seus filhos escondidos e longe dos olhos preconceituosos da sociedade. Afinal, estamos lidando com uma época, na qual a reputação era importante e a sexualidade livre da mulher era um tabu duramente reprimido, a gravidez fora do casamento era um pecado. Dessa forma, pouco importa se ela foi vítima do estupro ou foi por mero prazer ou por uma ilusão de um amor perfeito: o repúdio é o mesmo.

Neste contexto, longe de ser uma “casa de férias”, na qual as meninas possam ter uma gravidez tranqüila, elas são submetidas, ao invés disto, a um regime que se assemelha à uma prisão, reforçando o caráter pecaminoso, quando não admite contato com os bebês contrariando a vontade da mãe, ou quando fazem trabalhos as vezes cansativo pelo peso da barriga, ou quando submetem-se à caminhadas vigiadas. Este último, devo salientar, é captado em um lindo e competente mise-en-scène, ao equilibrar as cores do figurino com o resto do cenário, onde predomina as cores azul, branca e vermelha, justamente a fim de subverter todos aqueles valores democráticos: igualdade, liberdade e fraternidade e ressaltar a ausência de todos eles naquele ambiente pouco acolhedor.

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Um Grande Silêncio

Neste contexto, tampouco é à toa quando presenciamos uma paleta dominantemente em cores frias, com forte presença do branco e azul e como a sua pálida melancolia é contrastada com a delicadeza dos tons de rosas no pijama da protagonista.

Confinadas e observadas constantemente, Marianne encontra refúgio ao tornar-se amiga de algumas delas, e nos trazem momentos de alegria, dançando, rindo, e sendo joviais às escondidas, além de confiarem seus segredos. Dessa forma, uma das mais importantes cenas deste curta se revela quando a protagonista hesita em verbalizar a história de como engravidou.

Essa, portanto, é a metáfora do grande silêncio.  É o fato de ter que se calar, de não poder se expressar quando sente atraída por um homem, quando sente prazer no sexo (e não somente um meio para procriação), quando quer repudiar um assédio ou estupro, quando quer ter o direito de negar o sexo, de quando se quer criar a criança, quando quer amamentá-la e amá-la, mesmo em meio à uma gravidez indesejada. E esse aspecto é a beleza cruel de Um Grande Silêncio. É o fato de ter que aceitar, ou melhor engolir, as convenções machistas estabelecidas. Dessa maneira, a direção e roteiro de Julie Goudain são impecáveis no sentido de, pelos olhos e sensibilidade da talentosa atriz Nina Mazodier, humanizar a situação e focar no único ser humano que importa levar em conta e nunca o é (em um clímax de tirar o fôlego): o próprio bebê.

Porém, não é porque estamos tratando dos anos 60, que a situação deixa de ser aplicável aos dias atuais. A crítica é bastante eficaz, quando ainda muitas jovens são severamente castigadas e repudiadas devido à uma gravidez, isolando-as, deserdando-as ou até forçando-as ao aborto. Assim como Marianne, seja em uma família rica, seja ela mais humilde, acontece com todas.

Emocionante, triste e terrivelmente atual, Um Grande Silêncio é mais uma das obras-primas do festival de cinema francês.

Texto originalmente publicado pela autora como parte de sua cobertura ao festival de cinema online francês My French Films.

Por admin, 3 de fevereiro de 2017
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