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Em Drama

Crítica: Tudo Vai Ficar Bem (Every Thing Will Be Fine, Canadá/Alemanha/França/Suécia/Noruega, 2015)

  • 14 de novembro de 2016
  • Por Gabriella Tomasi
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Crítica: Tudo Vai Ficar Bem (Every Thing Will Be Fine, Canadá/Alemanha/França/Suécia/Noruega, 2015)
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Nota: 2,5/5,0*   

Dirigido por Wim Wenders e roteiro de Bjørn Olaf Johannessen. Elenco com:  James Franco, Charlotte Gainsbourg, Marie-Josée Croze, Robert Naylor, Patrick Bauchau, Peter Stormare, Rachel McAdams

Tudo dá início quando o escritor Tomas (Franco) dirige sem rumo pelos arredores da cidade, após uma briga com sua então esposa Sara (McAdams). Apesar das cautelas tomadas durante o trajeto em meio a um intenso e rigoroso inverno, ele inevitavelmente acidenta Nicholas que morre no local. Filho mais novo de Kate (Charlotte Gainsbourg), uma ilustradora profissional, Tomas apenas consegue salvar o irmão mais velho da criança, Christopher.

A superação de um evento traumático, neste ponto, é uma via de mão dupla. Kate tem de agora lidar com a dor da perda de um filho, na mesma proporção em que Christopher tenta lidar com tudo como parte de seu amadurecimento. Tomas, por sua vez, tem de conviver com o fato de que, mesmo sem intenção, ele tirou a vida de outra pessoa e que isso não somente lhe afetou, mas transformou a vida de todos à sua volta. Como superar tudo isso? Como (se) perdoar?

O grande Wim Wenders, diretor do famoso “Paris, Texas” e do recente “Pina”, tenta explorar todas essas respostas em um lapso temporal de 10 anos, apostando grande em uma narrativa imagética. A cinematografia se torna bastante expressiva, como, por exemplo, a utilização de muitos tons diferentes de azul para retratar o frio do inverno. E ainda que seja primavera ou verão, os ambientes exteriores são filmados em planos abertos, a fim de enaltecer a beleza da natureza, e estão sempre em contraste com o apartamento de Tomas, o qual permanece sempre espelhado nessas cores mais frias, para traduzir o seu estado emocional.

Junto com uma maravilhosa trilha sonora de Alexandre Desplat, há momentos visualmente maravilhosos como a barreira que separa a sua nova família e ele, simbolizada pela viga da parede ou então a montagem do momento em que Tomas e Kate conversam no telefone lado a lado em um mesmo plano é lindíssima. A reprodução de um desenho de uma flor morta realizado por Kate ao olhar uma flor viva, as duas balanças vazias, os dois bonecos de neve no inverno para representar uma irmandade que já não existe mais, os reflexos dos vidros, a imensidão do mar, etc.

Contudo, essa preferência por uma abordagem mais artística de contar a história prejudicou muito um roteiro que ficou sem conteúdo, sem desenvolvimento apropriado. A atuação dos atores em seus papéis é afetada por essa ausência de material sólido, ficando restritos a diálogos vagos, clichês e vazios de sentido. Consequentemente, os personagens – unidimensionais e sem sinais de envelhecimento com o tempo – possuem uma história superficial demais, de modo que o espectador não consegue se relacionar com nenhum deles ou até dar suporte a certas atitudes que eles tomam ou tomaram ao longo dos anos.

Nota-se que Tomas, consumido por uma culpa imensa, tenta o suicídio, mas justamente esta parte que deveria ter sido amplamente explorada, ela é transmitida, ao invés disto, em um ritmo acelerado e curto, com a utilização de fade-in e fade-out para cortes abruptos no final das cenas. Por conseguinte, não há tempo hábil para que o espectador processe tudo aquilo que está em tela. Isto se torna um pecado enorme, quando exatamente a intenção do filme é explorar e dramatizar a sua amargura, o processo de cura, de perdão. Essa falta de empatia acaba com qualquer tentativa de cativar a audiência, ou de mantê-los interessados até o final da trama.

Um grande acerto do filme neste contexto, no entanto, é inserir e desenvolver as seqüelas psicológicas de Christopher, a sua obsessão com Tomas e o seu conflito interior especialmente quando tenta justificar o sucesso crescente profissional do escritor com a falta de progresso por parte de sua mãe.

 

Mas infelizmente, no final, o filme não entrega de maneira efetiva o que ele se propôs a fazer, resultando em um mero espetáculo visual, que não sustentou um roteiro raso.

Por Gabriella Tomasi, 14 de novembro de 2016 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

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