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Em Drama

Crítica: Três Anúncios para um Crime (Three Billboars Outside Ebbing, Missouri, EUA/Reino Unido, 2018)

  • 15 de fevereiro de 2018
  • Por Gabriella Tomasi
  • 1 Comentários
Crítica: Três Anúncios para um Crime (Three Billboars Outside Ebbing, Missouri, EUA/Reino Unido, 2018)
Rating: 3.5. From 1 vote.
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Dirigido e roteirizado por Martin McDonagh. Elenco: Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell, John Hawkes, Peter Dinklage, Lucas Hedges, Abbie Cornish, Kathryn Newton.

Três Anúncios para um Crime tinha tudo para dar certo, já que possui nomes fortes em seu elenco, um roteiro original, social e politicamente relevante, principalmente sob a ótica da cultura norte-americana sulista e, por fim, uma boa equipe na sua produção. Martin McDonagh já era um nome promissor no ramo cinematográfico, já que em 2006 ganhou o Oscar de Melhor Curta Metragem em Live Action com Six Shooter. Neste longa, por sua vez, o filme funciona incrivelmente bem, justamente por contar com um excelente time que traz uma vivacidade fora do comum à história, mesmo apesar de sua abordagem deveras inocente.

Se antes afirmei que a história é essencial à cultura dos Estados Unidos, é porque temos no coração do seu roteiro a realidade das cidades interioranas do país, e os conflitos ideológicos dentro dela, momento oportuno devido à situação social e política estadunidense atual. O enredo se torna cada vez mais universal quando explora os sentimentos mais corrosivos do ser humano, como a raiva, o egoísmo. Na sua história, observamos nos primeiros minutos Mildred Hayes (McDormand), uma mulher divorciada que é dona de uma loja de souvenirs na cidade de Ebbing, Estado de Missouri, mas que ainda sofre com o luto pelo estupro e morte de sua filha mais nova, Angela (Newton). Sem qualquer ação efetiva por parte da polícia, mesmo depois de 7 meses desde a tragédia, cuja investigação é comandada então pelo Chefe Willoughby (Harrelson), a protagonista decide alugar três outdoors na fronteira da cidade para despertar a atenção das autoridades e clamar por justiça. No entanto, essa conduta causará grande comoção na pequena cidade.

Se Três Anúncios para um Crime não tivesse o elenco que possui, o longa certamente não teria tanto o brilho e o hype que possui para ser indicado a 7 categorias no Oscar. É lamentável, portanto, que mesmo com uma temática importantíssima o roteiro de McDonagh não se sustente sozinho nas suas subtramas como deveria. Isso porque o filme conta com muitas pontas soltas juntas dentro de sua narrativa principal e, querendo abordar diferentes temáticas ao mesmo tempo, não consegue ter uma opinião própria, e se aprofundar naquilo que quer transmitir como mensagem, demonstrando ser extremamente ingênuo nas questões mais complexas.

O embate familiar é transparecido pela posição equidistantes dos personagens em tela em Três Anúncios para um Crime (Créditos: IMDb)

A título de exemplo, podemos mencionar três temas relevantes que não foram desenvolvidos plenamente: o preconceito, a vida na cidade do interior e o estupro. O primeiro e mais grave, o preconceito, se revela no roteiro sob diversas formas como o racismo, xenofobia e a homossexualidade que permeiam a sociedade branca, hetera e misógina. Neste contexto, temos alguns personagens que sofrem desse mal, e observamos até um dos policiais Dixon (Rockell) cometer bullying, se gabar de torturar negros etc, mas não vemos a  ideia ser desenvolvida, a não ser por uma das personagens negra que é levada à prisão e simplesmente esquecida até que reaparece nos últimos minutos da trama como se tudo tivesse sido resolvido num passe de mágica. O roteiro de McDonagh falha, por conseguinte, em retratar essa realidade e essa luta. Há, ainda, a menção breve de que um dos personagens seria gay, mas jamais isso é desenvolvido para que sequer termos certeza desta informação jogada em tela.

A vida no interior tampouco é retratada de forma eficiente. Claramente, o diretor visou criar uma sensação de claustrofobia, de adversidade, já que a protagonista é sempre diminuída diante das autoridades masculinas e muitos constantemente avisam Mildred que a cidade está dividida em relação às mensagens dos outdoors por ela alugados. Isso se presta evidentemente para tecer uma crítica em relação ao cotidiano interiorano, do machismo, da ausência de privacidade em uma cidade pequena, e o pensamento retrógrado de seus habitantes, o que é ressaltado ainda mais quando acompanhado de uma desequilibrada estrutura familiar da protagonista. Mas além de confrontos pontuais durante a narrativa, nada disso é trabalhado. Os comentários dos diálogos parecem suprir o trabalho imagético ao invés de sentirmos um aprisionamento de Mildred em seus próprios atos, ou mesmo ao invés de manter uma posição sobre aquilo que Mildred quer falar com suas ações.  

Por fim, o estupro da caçula Angela. Além de sequer o roteiro se preocupar com o que efetivamente aconteceu e por que aconteceu, McDonagh traça alguns estereótipos em relação ao crime: é a menina bonita que saiu arrumada desacompanhada da mãe, a relação de “menina revoltada” com uma mãe rígida, além de um sentimento de culpa que parece ser o único elo entre mãe e filha. Não vemos nada além desse relacionamento conturbado entre as duas, e nem a relação com o irmão mais velho Robbie (Hedges) é completamente explorada. McDonagh quis sim fazer um filme que levante a bandeira feminina, mas não tem a sensibilidade e nem a noção do que isso realmente significa.

Quem, na realidade, consegue extrair complexidade de um roteiro raso (vulgo “tirar leite de pedra”) certamente são as atuações poderosas de Frances McDormand e Sam Rockell que, não surpreendentemente, lhe renderam as indicações de Melhor Atriz e Melhor Ator Coadjuvante, respectivamente, no Oscar de 2018. Ambos conseguem transparecer frustrações, medos e raiva autênticos das situações pelas quais seus personagens passam, mesmo quando muitas vezes não lhe são entregues pelo material do roteiro. Não bastasse essa fragilidade, a aproximação dos dois personagens se torna cada vez mais artificial, tornando o pretexto de um suicídio um episódio até mesmo ofensivo para justificar uma redenção e empatia.

Martin McDonagh tenta se provar com seu pretensioso Três Anúncios para um Crime, mas ao final, não se esforça para entregar um posicionamento para seu espectador.

Por Gabriella Tomasi, 15 de fevereiro de 2018 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.
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Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

1 Comment
  • Gabriel
    16 de fevereiro de 2018

    Não acho que o filme precise se posicionar sobre todas essas questões. O problema é ter o pensamento de que o papel social de um filme seja sempre desconstruir ideias e paradigmas, como o racismo, o preconceito, o machismo e o estupro. O filme não precisa ter uma função política ou levantar alguma bandeira para que funcione. Imagina o quão perdido e extenso o filme seria se tivesse que debater acerca de todos esses assuntos, sendo eles tão complicados? O filme perderia totalmente o foco, que na minha opinião, não foi nenhum desses assuntos. Eles funcionam como um pano de fundo e não seguem o estereótipo de filme que tenta resolver todos os problemas do mundo e de mostrar que o bem sempre vence.

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