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Em Drama

Crítica: The Square – A Arte da Discórdia (The Square, Suécia, 2018)

  • 1 de março de 2018
  • Por Gabriella Tomasi
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Crítica: The Square – A Arte da Discórdia (The Square, Suécia, 2018)
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Dirigido e roteirizado por Ruben Östlund. Elenco: Claes Bang, Elisabeth Moss, Dominic West, Terry Notary, Christopher Læssø.

The Square fora recentemente agraciado com uma indicação a Melhor Filme Estrangeiro no Oscar de 2018 e é um dos favoritos dos críticos. Em resumo, trata-se de uma sátira para fazer um retrato muito específico da sociedade moderna evocando um desconforto em seu espectador para atingir tal efeito. Na sua trama, Christian (Bang) se torna o novo curador do Museu de Arte Contemporânea de Estocolmo, e, ao organizar a sua primeira exibição, ele divulga uma obra de arte que dá nome ao título de longa, ou seja, um quadrado iluminado fixado na entrada do local, onde, dentro dele, as pessoas devem se tratar de forma igualitária.

Essencialmente, o longa traça o contraste das bandeiras idealistas da arte e a realidade das relações humanas, assim como o seu espírito (ou falta dele) de comunidade, abordando, para tanto, o individualismo e egocentrismo sob forma de comédia. Sendo assim, Östlund desenvolve as mais diversas situações desconfortáveis pelas quais o protagonista passa, mas que cada um possui um significado narrativo bastante importante. Reparem como em todo lugar o protagonista é abordado e incomodado pelas pessoas, como um bebê chorando, a cobrança de um relacionamento após uma noite casual, ou um macaco na sala, problemas com uma das artes em exibição, entre outros.

O quadrado luminoso em The Square (Créditos: IMDb)

Em relação a esse ego humano exacerbado, podemos mencionar a cena dos minutos iniciais do filme, quando são roubados a carteira e o celular de Christian. Há um sentimento muito grande de desconfiança por parte da população em geral, o tempo todo, principalmente quando pedintes e mendigos são esquecidos e/ou ignorados na rua enquanto pessoas caminham ao lado deles com seus olhos penetrados em seus smartphones e sempre com muita pressa. Da mesma maneira, Christian é ignorado quando pede ajuda e é completamente menosprezado pelas pessoas em sua volta em um shopping procurando alguém para cuidar de suas compras para que possa encontrar suas filhas. Neste caso, não foi à toa e nem menos irônico, pois, que a solução foi pedir ajuda de um mendigo que ali por perto se encontrava. Igualmente é interessante observar alguns dos obstáculos enfrentados pelo protagonista em seu ambiente profissional, como por exemplo, o fato de que um dos faxineiros acidentalmente sugou parte de um objeto de arte que se constituía em pequenos montes de areia, ou quando uma apresentação do cardápio pelo chefe de cozinha é pouco dado importância pelos convidados da exibição, já ansiosos para saírem do local.

De outro lado temos também uma dura crítica no que tange ao sensacionalismo da arte e da mídia, tirando o espectador e os próprios personagens de sua zona de conforto. Muitas vezes nos deparamos com uma performance de uma imitação de um gorila por um ator, e que toda vez que está presente costuma dominar o quadro da tela para atrair a atenção para si; ou então a propaganda que publicitários decidem fazer da exibição, atraindo da mesma forma o público nas redes sociais com o intuito de chocar, provocar empatia, por meio de uma abordagem bastante maniqueísta colocando uma criança mal vestida para interpretar uma mendiga dentro do quadrado iluminado. E é claro, usando uma peruca loira para reforçar a imagem do “típico sueco”. 

Porque ao final nossa sociedade é assim: em meio à tantas discussões bem intencionadas sobre igualdade, de bandeiras levantadas para defender a gentileza, generosidade, a bondade, a compaixão perante a vulnerabilidade e da necessidade do outro, é muito difícil em uma época tão individualista nos desvencilhar de tudo isso. Nossas atitudes muitas vezes beiram à hipocrisia. É o motivo pelo qual Christian muitas vezes desconfia do que irão fazer com o esperma dele, ou a hesitação em entrar em um prédio com medo de ser reconhecido e, portanto, afetar sua reputação. Em outro momento, chega a ser hilário quando, ironicamente, Christian e mais um estranho comemoram com tanto vigor apenas por ter (supostamente) ajudado uma mulher em desespero.

The Square é, portanto, aquela triste realidade dos nossos dias atuais, mas que nós precisamos enfrentar.

Por Gabriella Tomasi, 1 de março de 2018 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

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