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Em Cinebiografia

Crítica: Snowden – Herói ou Traidor? (Snowden, EUA, 2016)

  • 17 de novembro de 2016
  • Por admin
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Crítica: Snowden – Herói ou Traidor? (Snowden, EUA, 2016)
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Dirigido por Oliver Stone. Roteiro por Kieran Fitzgerald e Oliver Stone. Elenco com: Joseph Gordon-Levitt, Shailene Woodley, Melissa Leo, Zachary Quinto, Tom Wilkinson, Scott Eastwood, Logan Marshall-Green, Timothy Olyphant, Ben Schnetzer, LaKeith Lee Stanfield, Rhys Ifans, Nicolas Cage.

Uma história baseada em fatos reais, o ex-funcionário da Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos (CIA), Edward Snowden (Gordon-Levitt) se reúne com o jornalista do The Guardian, Gleen Greenwald (Quinto) e a diretora Laura Poitras (Leo), que posteriormente divulga o documentário Citizenfour para tornar público vários documentos sigilosos que comprovam atos ilegais de espionagem praticados pelo governo norte-americano contra seus cidadãos e políticos internacionais.

É possível perceber que Snowden, neste longa,  infelizmente foi colocado como o herói nacional típico hollywoodiano – um altruísta que luta pelos valores de seu país como tantos outros da história do país. Ainda, há a imagem feminina ao seu lado, a namorada Lindsay Mills interpretada por Shailene Woodley, cujos esforços não atenuaram o fato de que ela fica em plano secundário, muito embora ela tivesse potencial para uma presença mais forte.

Joseph Gordon-Levitt traz uma excelente atuação, no entanto, esta representação deixou seu personagem raso. Acompanhamos a sua trajetória e passamos a conhecê-lo, no entanto, ele é uma pessoa que a princípio é retratada como sempre envolvida em treinamento militar, – com grandes referências, no início, ao filme Nascido para Matar de Stanley Kubrick – que tinha fortes convicções acerca de servir seu país e confiava, às vezes, cegamente nas decisões dos políticos. Ocorre que, ele não tem uma identidade definida para dar lógica à forma de como esses valores se subverteram nele. Ao contrário, o diretor Oliver Stone aposta de antemão na própria repulsa pelo espectador de todos os atos dos órgãos governamentais dos Estados Unidos, denunciando o período altamente questionável sob comando de Bush, e também criticando duramente o seu sucessor Obama por defender a continuidade dos programas de espionagem.

As autoridades maiores, por sua vez, são retratados neste filme como vilões inescrupulosos, os quais passam por cima dos seus subordinados e atuam sob o pretexto do próprio bem do país e da segurança nacional. Deste modo, a direção de arte não economizou nos figurinos patriotas de cores predominantemente azul, branca e vermelha (as cores da bandeira dos Estados Unidos), assim como bandeiras de adorno por todos os lados.

Na medida em que a história avança, somos introduzidos a um programa que permite o governo vasculhar completamente a vida de alguém, por meio das mídias sociais, e-mails particulares, mensagens, câmaras em computadores e celulares. E mesmo que o indivíduo não tenha feito nada de ilegal, a bruta invasão de privacidade de qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo é legitimada apenas com uma palavra de interesse – posicionada ainda que de maneira aleatória – para poder passar pelos detectores dos programas.

O protagonista então descobre, por conseguinte, que o episódio fatal de 11 de setembro de 2002 e a situação política em que o país americano se encontrava naquela época foram aproveitados para justificar a maximização do controle econômico e social, a fim de garantir-se como soberano global. Os poucos funcionários que tomaram conhecimento das proporções que tomavam as espionagens realizadas e que, portanto, tiveram realmente coragem para tomar atitudes contra as ilegalidades foram duramente reprimidos e julgados por cortes secretas e parciais. Esta situação foi encarnada pelo personagem de Nicolas Cage, Hank Forrester, o qual permanece isolado em uma sala com equipamentos antiquados, refletindo perfeitamente o estado em que foi reduzido.

Assim, a paranóia e a ansiedade crescem em Snowden e, neste aspecto, a fotografia é muito eficaz ao focar em reflexos de espelhos, lentes de câmara e o próprio olho do protagonista para criar um ambiente de constante vigia. A sensação é intensificada por uma das cenas mais memoráveis do filme quando Snowden conversa com seu chefe Corbin O’Brian (Ifans) por meio de uma tela gigante, em videoconferência, intencionada para diminuir o personagem face à sua autoridade, em uma grande referência também ao contexto político e à pressão psicológica que são retratadas na obra literária de George Orwell, 1984.

Neste contexto, o roteiro faz outras grandes menções por meio de diálogos, com o intuito de criticar a política estabelecida, comparando-a, por exemplo, ao episódio do julgamento de Nuremberg, no qual membros do alto escalão da época de Hitler foram julgados e condenados por simplesmente executarem ordens dele. Fato é que tiveram muitos alemães que adotaram a sua doutrina, mas o que se coloca é que ninguém leva em consideração de que os seus subordinados poderiam não ter outra escolha, devido à mesma pressão que o protagonista então vivenciava.

Podemos traçar o mesmo paralelo, quando analisamos o caso em que o referido ditador deu, certa vez, ordem para executar e torturar todos os suspeitos de tentarem o matar, em um evento que foi amplamente abordado e conhecido, especialmente no cinema, como Operação Valquíria. E mesmo muito tempo depois da queda de Hitler, a sua influência era tão intensa sobre a população, que se persistia durante anos ainda um sentimento hostil dos alemães em relação aos homens que hoje são considerados heróis e patriotas.

Em Snowden, a questão se o protagonista é herói ou não, já é enfrentada pela trama, mas o que permanece é como o governo lidou com os seus atos e como a população americana ainda o vê atualmente: um traidor da nação ou patriota? Apesar de algumas superficialidades, o filme é extremamente eficiente para refletirmos sobre o fato de que a história se repete revestida de diferentes formas.

Por admin, 17 de novembro de 2016
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