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Em Drama

Crítica: Silêncio (Silence, EUA/Japão/Itália/México/Reino Unido/Taiwan, 2017)

  • 13 de março de 2017
  • Por admin
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Crítica: Silêncio (Silence, EUA/Japão/Itália/México/Reino Unido/Taiwan, 2017)
Avaliação: 4.0. De 1 voto.
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Dirigido por Martin Scorsese. Roteirizado por Martin Scorsese e Jay Cocks. Baseado em na obra literária Chinmoku de Shusaku Endō. Elenco: Andrew Garfield, Adam Driver, Liam Neeson, Tadanobu Asano, Ciarán Hinds, Shinya Tsukamoto, Issey Ogata.

Martin Scorsese certa vez revelou que em determinado momento de sua vida pensou seriamente em se tornar padre e, assim como Hitchcock, impossível não presenciar alguns elementos religiosos em suas produções. Naturalmente, pois, que mais cedo ou mais tarde nos depararíamos com um filme como Silêncio, ou seja, sobre fé religiosa.

No século XVII uma igreja católica de Portugal recebe a notícia – sete anos depois da última carta enviada – de que o padre jesuíta Cristóvão Ferreira (Neeson) possivelmente praticou apostasia durante a sua missão no Japão. Não acreditando no destino e na fraqueza da fé de seu antigo mentor, os padres Sebastião Rodrigues (Garfield) e Francisco Garupe (Driver) decidem partir para o país, a fim de encontrá-lo onde foi visto pela última vez. Ocorre que, em território japonês, o cristianismo é proibido e a ditadura budista é comandada pelo Inquisidor Inoue-Sama (Ogata). Assim, camponeses japoneses cristãos são perseguidos e tentam fugir das torturas das autoridades se escondendo nos pântanos. Lá, os padres devem ficar presos durante o dia para não serem descobertos e os cultos devem ser feitos todos à noite. Ao mesmo tempo em que tentam encontrar Ferreira, Rodrigues e Garupe lutam para manter o cristianismo vivo na comunidade.

Devido à perseguição religiosa é que a missão jesuíta torna-se cada vez mais difícil e sufocante para os espectadores que presenciam toda a narrativa executada por meio de um olhar completamente subjetivo da câmera. Os planos mais abertos e distantes são agonizantes, pois retratam a impotência dos personagens e de nós mesmos de fazer algo em relação às torturas físicas e psicológicas à qual a população é submetida para testar a sua fé católica e descobrir os “traidores”, como são observados por Rodrigues ou escondido na mata ou confinado dentro de uma jaula. Ao invés, portanto, dos raros close-ups e primeiríssimos planos, Scorsese aproveita sua experiência em retratar a violência e a agressividade dessas situações, não somente por meio de instrumentos que castigam os corpos, mas também tornar “formalidades” (como os japoneses afirmam) como cuspir em uma cruz ou pisar em uma imagem cristã – vista em plano-detalhe para encarar os seus personagens – em gestos recheados de um significado moral.

Assim como em Aguirre – A Cólera dos Deuses, pelo diretor Werner Herzog, recria-se a mesma sensação de que o ambiente em que os personagens são inseridos ali parece despertar a fome, o desespero, as incertezas, o que muitas vezes pode beirar à insanidade principalmente em relação a Rodrigues. A fotografia, então, contribui para implementar a atmosfera de terror com as fumaças e paleta cinzenta dos cenários, que de vez em quando, encontram algum alívio pela luz natural que ilumina o espaço. Da mesma forma, os tons quentes em contrastes fortes com o preto fazem rimas visuais com a pintura barroca de Jesus Cristo, justamente nos momentos de tortura, assim como a dos rituais religiosos.

Silêncio (Créditos: IMDb)

Mas Scorsese não possui objetivo de julgar ambos os lados, ou condenar uma cultura em detrimento de outra. A sua direção é conduzida para que possamos interpretar e absorver os significados daquilo que ele nos mostra. Embora seja extremamente desconfortante observar as crueldades e as opressões do direito à liberdade religiosa pelos japoneses, testemunhamos igualmente o lado do agressor, o qual condena o movimento europeu imperialista que impõe forçadamente sua religião no território, eis que acarretaria em dizimar e desaparecer toda uma cultura e tradição forte já estabelecida. Por conseguinte, o roteiro desenvolve diálogos interessantíssimos que no faz pensar sobre o assunto, quando, por exemplo, Rodrigues conversa com o Inquisidor ou um de seus oficiais: é o choque entre duas culturas que, enquanto a ocidental prega uma verdade universal e transcendente, os orientais pautam suas crenças em elementos físicos e da natureza.

Não é à toa, pois, que se aposta em uma trilha sonora quase sua totalidade no silêncio, optando enaltecer os ruídos naturais como o som do mar, do fogo, dos animais ao redor, inclusive de um mosquito que parece rodear o Inquisidor. E é no silêncio também que faz com que Rodrigues faça seus próprios questionamentos enquanto se mantém vivo durante toda uma experiência devastadora: por que ele não houve Deus? Será que Ele ouve o seu sofrimento? Será que esse é o caminho que Ele traçou para Rodrigues? Deverá ele sucumbir às dores físicas e renunciar a sua religião? Caso positivo, estará ele negando a Sua existência ou traindo o compromisso com Ele? Essas e outras tantas perguntas carecem de respostas concretas ao espectador. Na verdade, como já dito, Scorsese prefere que cada um reflita sobre o que ele está mostrando em tela.

Com atuações magníficas, Andrew Garfield desempenha o papel de sua vida com tamanho realismo, muito mais merecedora de indicação ao Óscar do que daquele de Até o Último Homem. E embora se peque em razão de o personagem de Driver não ser tão bem desenvolvido e a introdução de outro personagem ao final tampouco trabalhado de forma adequada, com algumas elipses mal resolvidas, aqui até os inimigos possuem complexidade de caráter: tanto o Inquisidor e seus soldados, como também os campesinos, com um destaque especial ao personagem Mokichi (Tsukamoto) que incorpora a versão de Judas.

Silêncio, em suma, é um estudo sobre devoção, obsessão e martírio. É uma das obras mais intimistas de Scorsese que infelizmente ficou ofuscada no ano de 2016, mas que merece imensamente nossa atenção.

Por admin, 13 de março de 2017
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