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Em Drama

Crítica: Projeto Flórida (The Florida Project, EUA, 2018)

  • 27 de fevereiro de 2018
  • Por Gabriella Tomasi
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Crítica: Projeto Flórida (The Florida Project, EUA, 2018)
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Dirigido por Sean Baker. Roteirizado por Sean Baker e Chris Bergoch. Elenco: Brooklynn Prince, Christopher Rivera, Valeria Cotto, Aiden Malik, Bria Vinaite, Willem Dafoe, Sandy Kane, Caleb Landry Jones, Macon Blair.

Sean Baker, diretor mais conhecido pelo seu último longa metragem Tangerine (2015) prova, a partir de uma tendência na indústria cinematográfica, de que é possível sim fazer grandes filmes através das lentes da câmera do celular. Assim fora filmado Projeto Flórida, o filme que injustamente recebeu um número ínfimo de indicações ao Oscar de 2018, mas que merece muita mais nossa atenção do que alguns concorrentes sensacionalistas como The Post: A Guerra Secreta (2018) ou Três Anúncios para um Crime (2018).

Com uma grande influência do realismo italiano, um ritmo monótono (no bom sentido, claro) e calmo dos bairros próximos aos parques da Disney na Flórida, nós somos inseridos em dois universos distintos que se colidem: o infantil e o adulto. O local onde se passa a trama não é mera coincidência. Na realidade, é uma clara metáfora sobre pessoas que vivem à margem da sociedade, à margem do conforto dos hotéis de luxo, dos turistas, da fantasia perfeita do universo de Mickey Mouse, e enquanto os mais velhos lutam para sobreviver, as crianças brincam e matam seu tempo aprontando pelos arredores. Neste contexto, o ambiente é um motel barato batizado de Magic Castle (castelo mágico em tradução literal) com suas cores roxas, ressaltando o sonho e a ilusão que ali é representado, administrado pelo gerente Bobby (Dafoe). Baker aqui traça uma representação da vida pobre norte-americana moderna e extrai ao mesmo tempo uma grande empatia de seus personagens, ainda que às vezes possuam condutas morais questionáveis: Halley (Vinaite) é uma mãe solteira que faz de tudo para conseguir pagar o aluguel do final da semana, ao mesmo tempo em que passa tempo com sua filha Moonee (Prince), sempre dependendo, contudo, de ajuda de amigos e vizinhos para se manterem.

O universo infantil de sonhos e desejos no colorido e vivo Projeto Flórida (Créditos: IMDb)

Não demora muito tempo para descobrirmos por que Moonee tem um gênio forte, ou seja, uma criança que responde e testa a paciência dos moradores do local, principalmente a de Bobby. Halley é uma mãe jovem, imatura e inconsequente que não dá freios em sua filha única, além de acobertar e suavizar muitas de suas travessuras. Mas nem por isso deixamos de contemplar e de se emocionar com a devoção e dedicação que tem pela garotinha, pois mesmo sofrendo dia após dia para sobreviver e sem muitas perspectivas, a sua luta é visível, em especial, para proteger Moonee dos males da sociedade corrupta, tentando manter o espírito da sua ingenuidade nata de criança viva, emanando um otimismo ímpar. O amor é latente entre mãe e filha, o que é maravilhoso de ver. Não é à toa, pois, que quando Halley ganha uma quantia de dinheiro, ela enche a filha de presentes e mimos e, menos ainda, quando prevê que a situação delas está piorando, as duas dançam e se divertem na chuva ou, ainda, quando leva Moonee para se esbanjar no café da manhã de um hotel. Neste sentido, a fotografia de Alexis Zabe não abre mão dos tons mais quentes da paleta, e tons em neon. Salvo raríssimos momentos as cores são mais opacas. Assim sendo, sempre há calor, vida, cores fortes, não somente nos cenários, mas também nos figurinos coloridos dos personagens.

Bobby, por sua vez, simboliza uma figura paterna para as crianças, já que além de se ocupar com todas as demandas, reclamações dos moradores e obrigações que advêm de seu cargo, ele sempre se encontra de prontidão para ajudar, apoiar, dar bronca e inclusive protegê-las de potenciais pedófilos. Dafoe que é o único veterano do longa, mas colocado aqui em uma posição de coadjuvante, nunca destoa dos demais atores, conseguindo perfeitamente se encaixar na trama sem chamar atenção para si. É um trabalho que nos pequenos gestos podemos perceber a preocupação e a dedicação que seu personagem possui por aquele lugar, afinal, nunca o vemos fora do trabalho ou desfrutando de tempo livre.

Se mencionei anteriormente acerca da inocência das crianças, não significa que em Projeto Flórida elas são alheias às condições social e financeiras que se encontram. Porém, é um contraste interessante que se faz para desenvolver na narrativa aquele otimismo e felicidade mesmo em situações difíceis, pois enquanto os adultos são os mais rancorosos, melancólicos, resignados, resilientes, ou os que provocam violência, vemos alguns resquícios destas características nas próprias crianças, sem que elas contudo se deixem levar pela realidade, ou seja, sem perder os sonhos de vista, como por exemplo, quando Moonee imagina ouro do outro lado do arco-íris ou imagina os detalhes de seu quarto em uma casa grande e abandonada.

Projeto Flórida é, portanto, um choque entre realidade e fantasia. Um filme que te faz rir, chorar, se emocionar e já é um dos melhores do ano.

Por Gabriella Tomasi, 27 de fevereiro de 2018 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

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