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Em Drama, Festivais

Crítica: Prejuízo (Préjudice, Bélgica, 2015) | My French Film Festival

  • 7 de fevereiro de 2017
  • Por admin
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Crítica: Prejuízo (Préjudice, Bélgica, 2015) | My French Film Festival
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Dirigido por Antoine Cuypers. Roteirizado por Antoine Cuypers e Antoine Wauters. Elenco: Nathalie Baye, Arno Hintjens, Thomas Blanchard, Ariane Labed, Éric Caravaca, Cathy Min Jung, Julien Baumgartner, Arthur Bols.

Na categoria “Nós Somos Família” do festival de cinema francês online – My French Film Festival – na minha visão pessoal Prejuízo é o filme que mais representa fielmente, não somente pela concepção que nós temos de família, mas como ela é ao mesmo tempo complicada e imperfeita, não importa a sua condição socioeconômica ou o espaço geográfico em que ocupa. A união, mesmo que seja difícil de ser mantida, sempre foi e sempre será o objetivo maior dela. O amor incondicional existe e ensinamentos valiosos podem ser extraídos a partir desde longa-metragem belga.

A trama se passa em uma casa luxuosa e, portanto, que pertencem a pessoas com uma excelente qualidade de vida. É um dia bonito, a mãe (Baye) cozinha, o pai Alain (Hintjens) faz um churrasco com o genro Gaetan (Caravaca), a filha Caro (apelido de Caroline – Labed) e a cunhada (Jung) que espera por seu marido Laurent (Baumgartner), junto com seu filho Nathan (Bols), também ajudam. Mas ainda há algo que não encaixa com a presença do terceiro filho Cédric, de 30 anos, que ainda mora com os pais e é neste quesito que o filme explora tão bem.

Convém explicitar de antemão que o roteiro de Cuypers e Wauters não se preocupa em explicar a situação da família ou a condição de Cédric, ou explorar o passado ou a trajetória recorrida por ela. Trata-se de um dia comum como qualquer outro, no qual todos se reúnem para comemorar a notícia da gravidez recente de Caro e seu marido Gaetan. Dessa forma, todos esses elementos são instigados por conta da direção de Cuypers, o qual deixa a cargo do espectador tentar compreender e preencher as lacunas pelo o que é sugerido.

Perceba, por exemplo, como Cédric, desde os primeiros planos, tem uma linguagem tímida e retraída, e é sempre enquadrado de costas ou desfocado da lente da câmera. Os personagens ao seu redor hesitam muitas vezes em abordá-lo e em outras não expressam o que sentem a ele, por medo. O referido personagem é, portanto, uma bomba prestes a explodir, cutucando e provocando as pessoas sempre que possível, eis que ele deseja fazer uma viagem à Áustria sozinho. O conflito, então, dá início nessa oportunidade, porquanto a rejeição de seus planos por sua mãe, acaba enfurecendo-o, ao mesmo tempo em que sua mãe perde a paciência com o filho por diversas vezes por tocar no assunto pela milésima vez. Mas afinal, se Cédric pode “falar” e “andar”, por que não o poderia fazer? E nesse desvio de atenção que ofusca o principal motivo da reunião familiar, ou seja, a notícia do futuro neto, acaba irritando sua irmã Caro.

Thomas Blanchard interpreta Cédric em Prejuízo.

A partir de então, uma série de condutas de todos os personagens são desenvolvidas: o pai doente que prefere ficar passivo ao que acontece, devido ao seu esgotamento físico e metal; a mãe firma e punitiva em relação ao filho, mas que demonstra proteção e uma afeição enorme; a irmã que ama o irmão, mas ao mesmo tempo não o tolera, e assim por diante. Assim sendo, por termos tão poucas informações acerca dessas pessoas é que nunca sabemos quem é realmente ou não o “vilão” ou o “herói” desta história. Mas essa incerteza é justamente o foco da trama. É criando a atmosfera pelo simples traveling lento para trás ou para frente, evidenciando este processo doloroso que é manter a união e a paz desta família, que acaba inclusive inquietando o espectador.

Neste sentido, Cuypers brinca e joga de um lado para outro o nosso ponto de vista; nossas expectativas são constantemente desconstituídas e oscilam de acordo com os comportamentos dos personagens, não por uma falta de coesão, mas pela complexidade do caso. E é exatamente essa ausência de julgamento que o longa busca tocar no espectador. Ainda que tentemos fazer isso nos filmes, no nosso cotidiano, não podemos julgar àqueles que estamos assistindo, não podemos julgar as pessoas de maneira geral. Cada família tem suas particularidades, suas camadas, ela é multifacetada, labiríntica, e, dessa forma, não nos permitem estabelecer pré-conceitos acerca dela.

Prejuízo, por conseguinte, é um perfeito estudo e uma crítica a nossos preconceitos, e à nossa intolerância.

E é uma das maiores jóias desse festival.

Texto originalmente publicado pela autora como parte de sua cobertura ao festival de cinema online francês My French Films.

Por admin, 7 de fevereiro de 2017
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