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Em Drama

Crítica: Pela Janela (Brasil, 2018)

  • 18 de janeiro de 2018
  • Por Gabriella Tomasi
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Crítica: Pela Janela (Brasil, 2018)
Rating: 4.0. From 1 vote.
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Dirigido e Roteirizado por Caroline Leone. Elenco: Magali Biff, Cacá Amaral, Mayara Constantino.

Pela Janela, longa-metragem brasileiro é um dos retratos mais carinhosos e honestos sobre a identidade humana. Uma senhora chamada Rosa que passou anos trabalhando para uma fábrica é abruptamente demitida devido a uma fusão de empresas. Desolada, e sem rumo, ela quase entra em depressão quando seu irmão, Zé, a convida a viajar para a Argentina, onde deve ir em razão de seu trabalho, e a acaba convencendo mesmo contra a vontade da irmã. A partir daí, as experiências da protagonista no estrangeiro começam a ter um efeito transformador em sua vida.

Esse é um filme completamente sensorial, com pouquíssimos diálogos e um design de som totalmente natural e diegético, no qual devemos sentir cada imagem e enquadramento realizado pela diretora Carolina Leone, já veterana no ramo. Apesar de o ritmo ser monótono algumas vezes, esta é uma experiência que vale a pena. No primeiro ato, mostra-se uma Rosa completamente dedicada e feliz com o seu cotidiano, até que a triste notícia lhe dada por meio de seu patrão que nem aparece em tela, apenas sua voz no contra-campo, demonstra o quanto impessoal aquela reunião e decisão foram. O desespero é tanto, que a protagonista inclusive retorna depois perguntando se não precisam de ajuda, até que ela é apresentada ao seu substituto: uma pessoa qualificada e muito mais jovem que ela, momento em que posteriormente a realidade lhe toca de forma avassaladora a ponto de sequer se mover da cama, afinal seu emprego e sua vida pacata em um bairro humilde de São Paulo era o que definia sua vida.

O convite do irmão fora durante boa parte da jornada até o país vizinho contestado por Rosa, a qual não escondida seu desconforto e sua pouca vontade em embarcar na viagem. Quando chegam em Foz do Iguaçu é que ela realmente percebe a incrível beleza do mundo exterior e a graduada mudança de cultura e língua: é quando ela sai da “bolha” de seu pequeno mundo em São Paulo para testemunhar algo muito maior. A forma como Leone representa isso é simplesmente de tirar o fôlego: planos fechados e concentrados na atuação incrível da atriz personifica de maneira perfeita o estado de alegria e incredulidade ao presenciar de perto as Cataratas do Iguaçu, instante no qual ela passa a ficar muito mais aberta às experiências que vem a ter.

Pela Janela

Leone também cria rimas visuais interessantíssimas que dialogam e contrastam com o mundo vivido antes por Rosa e durante a viagem: uma blusa azul que ela nunca pensaria usar se torna um símbolo perfeito de sua transformação; os bordados que costumava a fazer sozinha passa a ser um instrumento para se aproximar das pessoas; os almoços longos solitários em seu trabalho posteriormente se tornam uma oportunidade para conhecer novas pessoas; os passeios pelos bairros e as lojas são muito mais apreciadas; os momentos com o irmão se tornam muito mais ternos do que ordinários ou cotidianos, como se aproximar dele por meio da música; e as jantas sozinhas passam a ser regadas de comida, bebida e novas amizades. Tudo isso tem um impacto forte no espectador que passa a vigiar de perto as reações de deslumbre por Rosa que são perceptíveis no seu jeito tímido, mas curioso por tudo aquilo.

Mas o que passa a ser ainda mais marcante é um símbolo de um quadro das cataratas, pois sabemos exatamente o que ela representa para a protagonista e o seu retrato não poderia ser mais pertinente ou mais sutil, pois sem soltar nenhuma palavra, o olhar fixo de Rosa para aquela imagem já nos diz tudo.

Pela Janela é um daqueles filmes raros do cinema brasileiro.

Filme assistido durante o 45º Festival de Gramado de 2018

Por Gabriella Tomasi, 18 de janeiro de 2018 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

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