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Crítica: Pantera Negra (Black Panther, EUA, 2018)

  • 19 de fevereiro de 2018
  • Por Gabriella Tomasi
  • 0 Comentários
Crítica: Pantera Negra (Black Panther, EUA, 2018)
Rating: 4.0. From 1 vote.
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Dirigido por Ryan Coogler. Roteirizado por Ryan Coogler, Joe Robert Cole. Baseado no personagem Black Panther de Stan Lee e Jack Kirby. Elenco: Chadwick Boseman, Michael B. Jordan, Lupita Nyong’o, Danai Gurira, Martin Freeman, Daniel Kaluuya, Letitia Wright, Winston Duke, Angela Bassett, Forest Whitaker, Andy Serkis, John Kani.

É um deleite observar como nas últimas décadas a indústria do cinema tem finalmente apostado em ideias diferentes para abordar realidades distintas, até então não enfrentadas pela sétimas arte. Principalmente quando se trata de blockbusters, é um grande mérito que a Marvel tenha dado chance a filmes solos como a cultura oriental de Doutor Estranho (2016), e na DC com a causa feminista de Mulher-Maravilha (2017). Neste sentido, chega Pantera Negra para agregar à equipe dos Vingadores, com um elenco praticamente negro, que visa não somente contar a história de um super herói, mas contextualizar toda a cultura antiga e moderna africana. Com certeza, o filme não seria concebido se o clamor pela representatividade não existisse.

Com um design de produção magnífico, o filme já nos entrega narrações com imagens ilustrativas belíssimas para sermos introduzidos ao novo universo de Wakanda que integra uma paleta bastante expressiva em sua fotografia. Enquanto os ambientes naturais chamam atenção por suas cores vivas das tonalidades do laranja e amarelo, os tecnológicos, por sua vez, incorporam o azul, branco e roxo para representar todo um povo evoluído, mas que ainda mantém suas tradições antigas bem próximas. Não é à toa, pois, que a principal fonte de recurso natural que sustenta tudo isso venha de uma flor roxa com tonalidades em azul.

Na trama, o pai de T’Challa (Boseman), T’Chaka (Kani), é rei de Wakanda, e morre em um ataque terrorista no Escritório das Nações Unidas e, portanto, seu herdeiro deve suceder ao trono. No entanto, uma luta de poder se instaura quando um parente retorna para clamar seu direito a rei. Em meio ao drama pessoal do protagonista T’Challa também possui o embate entre os principais líderes sobre a posição política que Wakanda deve tomar, ou seja, ou se isolar para proteger seu reino de invasões e guerras ou contribuir para o mundo com sua tecnologia de forma pacífica.

Pantera Negra (Créditos: IMDb)

É interessante, pois, que a luta pela proteção de uma nação reflita na política que se desenvolveu ao longo de nossa história humana. O medo sobre os demais países despertarem interesses sobre Wakanda como uma possível ameaça sobre a cultura do seu povo, assim como o desejo de se impor como território independente representa muito bem a conduta imperialista que pairou sobre a Europa e Estados Unidos em relação aos países menos desenvolvidos, como México, Cuba, e o continente Africano.

Da mesma forma, Pantera Negra incorpora em sua narrativa críticas bastante expressivas sobre o racismo como, por exemplo, o fato de que N’Jadaka (B. Jordan) crescer em um bairro pobre dos Estados Unidos e sem muitas perspectivas resolve lutar por um lugar ao poder – adotando posturas extremistas – e não coincidentemente reitera sua jornada marginalizada e  as opressões e obstáculos enfrentados pela comunidade negra, principalmente a maneira como ela fora e é tratada no país; comentários sutis como apelidar o agente Ross (Freeman) branco da CIA de colonialista; e Ulysses Klaue, interpretado pelo ator também branco de Andy Serkis como o ladrão de objetos valiosos da cultura africana também ressalta essa característica imperialista, de apropriação e conquista. Tudo isso permite que se desenvolvam personagens complexos, multifacetados, em que a luta do bem contra o mal dos quadrinhos possui contornos muito realistas.

Mesmo assim, é lamentável que a Marvel se recuse a abandonar por completo sua repetida fórmula de diálogos expositivos, uma confiança enorme em efeitos visuais que, por vezes, são excessivos e fracos, e  constantes piadas inoportunas para gerar empatia em personagens sérios. Por outro lado, vale ressaltar que esse aspecto narrativo foi trabalhado em Pantera Negra de maneira mais sutil e reduzido desde Doutor Estranho, o que já por si só um grande avanço. Contudo, não é o suficiente para dizer que o tom cômico e o dramático do filme aqui são bem equilibrados.

De todas as formas, Pantera Negra é um marco para os filmes de super-herói e de blockbusters, pois mesmo com seus defeitos, consegue entregar uma narrativa que é política e socialmente relevante bastante eficiente sem prejudicar seu entretenimento.

Observação: Não saiam da sessão! Há cenas pós-créditos.

Por Gabriella Tomasi, 19 de fevereiro de 2018 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

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