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Em Comédia

Crítica: Os Pobres Diabos (Brasil, 2017)

  • 7 de julho de 2017
  • Por admin
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Crítica: Os Pobres Diabos (Brasil, 2017)
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Dirigido e roteirizado por Rosemberg Cariry. Elenco: Chico Diaz, Sílvia Buarque, Everaldo Pontes, Gero Camilo, Zezita Matos, Sâmia Bittencourt, Nanego Lira, Georgina de Castro, Reginaldo Batista Ferro, Letícia Sousa Perna e Sávio Ygor Ramos.

Muito se tem criticado e discutido o papel da cultura no Brasil, a importância que ela possui e a importância que na prática ela é efetivamente dada – o que são questões completamente diferentes. Trabalhar com arte e entretenimento em geral no país revela-se uma jornada penosa para qualquer aspirante artista e é exatamente essa a temática central da triste realidade cultural brasileira em Os Pobres Diabos transmitida tão bem pela engenhosa trama dirigida e roteirizada por Rosemberg Cariry.

A história inicia quando o Gran Circo Teatro Americano chega ao litoral cearense, acreditando ser o local ideal para fazer seu tour teatral, no qual a atração principal gira em torno de uma peça sobre a crise no inferno. Lá, seus mais diversos integrantes se estabelecem, se organizam e ensaiam até a apresentação. O seu primeiro ato é um dos mais problemáticos deste longa, infelizmente. Com um ritmo mais arrastado, pouco fluído, nós somos apresentados à realidade dos membros circenses, assim como da comunidade local que vem de maneira expositória e repetitiva as vezes sobre a condição socioeconômica daquelas pessoas, fazendo com que a primeira metade do filme seja mais longo do que deveria. Contudo, conforme a narrativa progride, ele vai ganhando cada vez mais força e o resultado é de um rico e complexo trabalho crítico acerca de nossa sociedade que é difícil não considerá-lo uma obra extremamente essencial pelo atual contexto do país que estamos vivenciando.

 

A representação da Santa Ceia em Os Pobres Diabos (Créditos: Lume Filmes)

 

Isto porque Os Pobres Diabos vai construindo ao longo de sua narrativa uma série de simbolismos e metáforas em torno de seu objeto de estudo, principalmente quando a encenação cria um dinamismo e uma diálogo muito forte entre a vida dos personagens fora do palco e as figuras que eles interpretam nos shows em forma de entretenimento artístico. Já de início podemos perceber o quanto o fanatismo religioso é presente e forte na trama como um elemento que mascara a verdadeira face das pessoas e ainda reflete no cotidiano dos personagens, como por exemplo, a recriação da santa ceia enquanto todos dividem a humilde refeição que estão prestes a comer, ou então o apego aos dogmas cristãos para justificar atos humanos imorais ou preconceituosos, como hipocritamente maquiar uma traição recém descoberta. Além disso, é interessante analisar o próprio conteúdo da peça, quando Lúcifer aparece representando o capitalismo internacional e o que é desenvolvido a partir disso como uma crítica à elite da economia e seus privilégios que são inerentes à própria história nacional transparecidos, por exemplo, quando ao fazer o dever de casa a filha de Creuza (Buarque) insiste em afirmar que foram os índios que descobriram o Brasil e não os portugueses.

Outro ponto que chama muito atenção é a forma como os esforços diários para manter o circo funcionando de maneira sempre persistente por todos, mesmo com as dificuldades financeiras e os obstáculos que aparecem, por exemplo, a possibilidade do corte de energia caso a conta de luz não fosse paga e a fome e a miséria que os membros do circo constantemente passam, não sendo coincidência que o estado de ânimo e a condição dos personagens são simbolizados perfeitamente pelo calor e o isolamento do ambiente deserto onde eles permanecem. Enaltecendo, deste modo, a tarefa árdua que é manter a arte sempre viva e pura não somente em uma comunidade onde há precárias condições para a população ter qualquer tipo de entretenimento na cidade, mas também pelas precárias condições a que os próprios artistas são submetidos, transmitidas pela maneira como improvisam o tempo todo a divulgação dos shows, com cartazes pintados a mão, passeios com um carro que mal funciona e caminhadas pelos bairros da cidade e igualmente a organização dos cenários e figurinos que podemos perceber pelo sutiã de Creuza que aparece durante sua apresentação. Todos esses conflitos e empecilhos parecem sinais de que todos devem desistir, mas a resiliência é sempre movida por uma paixão em comum, tendo ao final um impacto muito positivo para o espectador.

Os Pobres Diabos é o perfeito retratado da sociedade brasileira que, ainda com seus defeitos, se torna uma obra bastante relevante e importante de ser vista.

E não importa o que aconteça, o show deve continuar.  

Por admin, 7 de julho de 2017
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