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Crítica: Operação Red Sparrow (Red Sparrow, EUA, 2018)

  • 28 de fevereiro de 2018
  • Por Gabriella Tomasi
  • 1 Comentários
Crítica: Operação Red Sparrow (Red Sparrow, EUA, 2018)
Rating: 1.0. From 1 vote.
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Dirigido por Francis Lawrence. Roteirizado por Eric Warren Singer, Justin Haythe. Elenco: Jennifer Lawrence, Joel Edgerton, Jeremy Irons, Matthias Schoenaerts, Ciarán Hinds, Joely Richardson, Mary-Louise Parker, Charlotte Rampling.

Não consigo entender por que roteiros de filmes como Operação Red Sparrow conseguem ser filmados com um orçamento grande, padrão Hollywood. Em meio a tantos movimentos emergentes sobre abuso sexual, violência doméstica e empoderamento feminino, não é possível conceber como os diretores, produtores e roteiristas masculinos desse filme sequer ousaram colocar uma mulher em sua equipe, falando sobre um assunto que pouco sabem ou vivenciaram. Há tanta desinformação em Operação Red Sparrow, que eu, como mulher, chego a me ofender.

Esclareço que aqui meu discurso e o que defendo acerca de direito à igualdade de gênero não se trata de um exagero (vulgo “mimimi”), porque sempre digo que não é porque algo no passado (ou até mesmo no presente) não era (é) dito ou enfrentado, que ele não acontecia (acontece) de fato, porque acontecia (acontece), e muito. A diferença é que a conscientização está crescendo e óbvio, não podemos fugir de por vezes nos deparar com opiniões extremistas dos dois lados ou informações equivocadas, pois é natural que elas existam em todas as esferas de nossas vidas, mas é importante separar e colocar os pingos nos “i”s.

E por que estou falando disso? Porque o filme de Francis Lawrence quer levantar a bandeira do feminismo, quer empoderar sua protagonista Dominika vivenciada pela Jennifer Lawrence, mas acaba tendo uma ideia bastante distorcida do que ela realmente é. Espera-se, geralmente, que o retrato da luta da mulher (ou de qualquer grupo específico) seja um de respeito e contada de uma maneira responsável que enalteça as qualidades dela e valorize os obstáculos enfrentados, contudo, a forma como isso é desenvolvido no longa constrangendo, inclusive, a própria atriz em inúmeras cenas de nudez e de estupro (Lawrence fez uma declaração pública já nesse sentido), acaba mandando uma mensagem para seu espectador que para combater tudo isso ela tem quer usar do seu próprio corpo, de fazer justamente aquilo que o homem espera e faria com ela. Até porque, em um momento do filme, Dominika beija na boca de seu tio (!), dando indícios de um possível caso de pedofilia que não fica confirmado. Ressalto que não, isso não é símbolo de empoderamento, e ao contrário, é uma abordagem que poderá incitar ainda mais o crime que se deseja combater.

Discorro aqui de forma mais pessoal e mais extensa acerca deste tema, porque não pude evitar a preocupação e o choque que sai do cinema após assistir a Operação Red Sparrow. O descuido é tão grande que assusta e me sensibilizou profundamente, pois aqui estamos em universo em que a tortura é amenizada e romantizada, o próprio conceito de sexo consentido é deturpado, e as mulheres são constantemente desestabilizadas na presença de homens, às vezes de maneira precipitada.

Operação Red Sparrow (Créditos: IMDb)

Esse, contudo, não é o único erro desse longa. Analisando outros aspectos, há uma grande dúvida durante a projeção acerca do período histórico e social que a história se passa, pois ao mesmo tempo em que vemos televisões de tela plasma, smartphones e notebooks nas locações, nos deparamos com transferência de dados confidenciais por meio de disquetes (?). Além disso, como justificar o conflito entre as inteligências da Rússia e EUA? Essa rivalidade entre ambos países já está bastante batida e exaustivamente explorada no cinema e Operação Red Sparrow não agrega nada à ela. Pelo contrário, apenas reforça um clichê ridículo de que russos são sempre os inimigos dos bonzinhos norte-americanos. Reparem que os primeiros são o lado no qual não existem superiores femininas, nenhuma – nem a própria mãe de Dominika – consegue se solidarizar com o que a filha passa, tendo que tolerar o que tem que tolerar em nome da pátria, do nacionalismo, enquanto os últimos, por sua vez, são desenvolvidos com uma ética e valores morais impecáveis da democracia “perfeita” e fora do comum estadunidense, contando, ainda, com uma mulher trabalhando na mesma posição de importância que outros homens.

O maniqueísmo, na realidade, é tanto moral quanto narrativo. Há muitas conveniências e elementos que criam um suspense falso à trama, como por exemplo, o fato de que o incidente com a perna de Dominika jamais retorna na história, ou o inexplicável cadastro em uma academia com o seu nome verdadeiro (quando sabe que não pode usá-lo), apenas para se revelar para Nate (Edgerton), ou um esconderijo “ultra secreto” de disquetes que ela tem que trocar e como desculpa para fazer isso simplesmente afirma que “vai validá-los em seu notebook de última geração”. Isso sem mencionar que de repente a missão para qual a protagonista fora inicialmente designada muda diversas vezes. 

Por conseguinte, o acúmulo de plot twists apenas confunde a cabeça do espectador. Jamais sabemos se há um interesse genuíno em Nate ou se Dominika tem um esquema próprio, ou sequer a função que cada personagem possui nisso tudo e, apesar da própria história ao final revelar tudo isso, a ambiguidade inerente à espionagem não convence, nada se demonstra autêntico ou concebível, tudo é esquemático em prol de um enredo pretensioso. Tenta-se explicar todas as pontas que se deixa pelo caminho, mas ao final não é compreensível. Lamentável, em todos os sentidos, portanto, que algo como esse longa fora pensado e desenvolvido.

Operação Red Sparrow é, em suma, um desserviço ao cinema e à imagem da mulher que eu espero nunca mais retornar a ver.

Texto originalmente publicado pela autora em coluna para o site Cabine Cultural

Por Gabriella Tomasi, 28 de fevereiro de 2018 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.
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Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

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