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Em Drama

Crítica: O Show de Truman – O Show da Vida (The Truman Show, EUA, 1998)

  • 14 de novembro de 2016
  • Por Gabriella Tomasi
  • 1 Comentários
Crítica: O Show de Truman – O Show da Vida (The Truman Show, EUA, 1998)
Rating: 4.0. From 1 vote.
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Nota: 4,0/5,0*   

Direção de Peter Weir e roteiro por Andrew Niccol. Elenco com: Jim Carrey, Laura Linney, Ed Harris, Noah Emmerich, Natascha McElhone.

Truman Burbank (Carrey) é um homem que foi vendido pela sua família, para nascer e crescer na frente das câmaras de um show de televisão criado por Christof (Harris). Assim, a sua vida é filmada 24 horas por dia, em uma cidade chamada Seahaven, inteiramente criada em um estúdio para ele. Povoada por atores e figurantes, Truman é o único que não sabe deste fato, acreditando ser a realidade dele.

Ocorre que, certo dia, relembrando um episódio de sua vida em que se apaixonou pela figurante Sylvia (McElhone), durante a adolescência, ele se lembra de que uma vez a atriz tentou alertá-lo, sem sucesso, acerca da sua real situação e de que como tudo aquilo é forjado para um programa de televisão.

Como o filme expõe que o show de Truman é uma ficção desde o início, ele se permite a cometer propositalmente incoerências narrativas, de abusar de clichês, de denunciar a artificialidade da atuação dos personagens, os descuidos do próprio “fora-do-campo diegético” pelos profissionais, entre outros. Assim sendo, se faz questão de enaltecer toda a dissimulação daquele ambiente criado especialmente para Truman. Mas quando o personagem começa a questionar seu entorno, ele começa a perceber todos esses furos.

Consequentemente, o que a princípio seria uma vida perfeita, nos damos conta cada vez mais da condição de aprisionamento do protagonista. O olhar vigilante a cada movimento seu, intensificada pelos ângulos e por meio da utilização de olho de peixe e lentes que literalmente imitam a íris do olho, não nos deixam esquecer o fato de que ele está em constante monitoramento. Se trata de uma perfeita leitura dos tempos modernos de 1984 de George Orwell, a obra literária que também encontra prestígio no cinema.

Porém, a trama traz uma reflexão muito mais profunda. É possível perceber que, com o advento dos realitys shows, as pessoas ficaram cada vez mais obcecadas pelo retrato do cotidiano nas mídias, ou então da vida privada de celebridades. Este desejo com certeza advém de uma necessidade de identificação com o outro. Dessa forma, ainda que os espectadores se identifiquem com Truman, e lhe desejem um final feliz (assim como o desejam para toda e qualquer história contada), os próprios atores ao seu redor que colaboram com o show não possuem qualquer empatia por ele.

Truman é o retrato do homem casado, financeiramente estável, vida no subúrbio, amigos e conhecidos sempre alegres. Assim, se trata de um “modo de vida” altamente vangloriado, como, por exemplo, a forma em que seu amigo Marlon (Emmerich),  se refere ao seu trabalho como corretor de seguros – “adoraria trabalhar em um escritório” – claramente fazendo uma idolatria ao mundo corporativo. A profissão para o personagem não foi escolhida ao acaso, eis que tal labor consiste em atingir metas, crescimento de lucros, acumular valores comissionais, implantando a necessidade de contratação de serviços nas demais pessoas. A tão almejada american way of life também se encontra nos produtos anunciados pelos próprios atores, em uma crítica ao consumo desenfreado, da busca sempre por produtos melhores e mais aperfeiçoados no mercado, e da propaganda sugestiva. Nesse sentido, a televisão não somente opera como um aparelho direcionado a um simples instrumento para o entretenimento, mas como um veículo de propagação de cultura, que estimula um certo estilo de vida, e igualmente, certos modos de pensamento.

O mais inquietante, no entanto, é o comportamento do público. Mesmo sabendo da origem do programa e, portanto, como o Show de Truman foi criado, todos aceitam passivamente, sem questionamentos ao próprio direito de escolha de Truman de viver a vida como ele quiser, ou seja, ninguém acredita aquilo ser anormal. Por conseguinte, se reifica completamente o humano – reduz ele a estado de coisa. No momento em que o protagonista tenta se libertar, este evento é visto como mais um espetáculo televisivo, e, mesmo que o programa seja tão adorado pelo seu público alvo, caso um dia ele termine, o desinteresse termina junto, levando à necessidade de procurar o próximo programa, o próximo consumo. Este descaso, assim como a aceitação de tudo que é transmitido, de absorção de todas as informações, sem qualquer provocação de reflexão é também uma crítica a uma sociedade alienada que não possui senso crítico ou discernimento o suficiente para identificar esta situação, desencadeando uma repetição inconsciente das pessoas do que é difundido pelos meios de comunicação.

Ed Harris encarna muito bem um personagem tão peculiar como Christof. Ele é um homem que explora a vida privada publicamente e sem pudor. No entanto, ele mesmo é uma pessoa que não divide sua vida particular com a mídia. Ainda, ele dedicou sua vida inteira a criar uma pessoa em torno do que seria uma vida perfeita, pois segundo ele, o mundo é cheio de mentiras, de pessoas mal intencionadas, um lugar doentio. O que ele não se dá conta, é que ele constrói toda essa noção de vida digna e perfeita em torno de uma dialética falha, vez que não prevê a possibilidade de livre arbítrio, ou seja, inteiramente construída em torno de um conceito que ele próprio demonstra repulsa.

Jim Carrey, por sua vez, demonstra que não somente domina a comédia, mas traz um trabalho igualmente competente no gênero drama. Peter Weir, entretanto, peca um pouco pela falta de complexidade do personagem, tratando o fator psicológico de maneira superficial, ao contrário de como é aprofundado em Rede de Intrigas, por exemplo.

 

Porém, ele ainda acerta no tom sarcástico e entrega um trabalho excelente que, mesmo que se refira às situações passadas ele continua sendo muito atual.

Por Gabriella Tomasi, 14 de novembro de 2016 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.
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Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

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