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Em Fantasia

Crítica: O Mistério do Relógio na Parede (The House with a Clock in its Walls, EUA, 2018)

  • 19 de setembro de 2018
  • Por Gabriella Tomasi
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Crítica: O Mistério do Relógio na Parede (The House with a Clock in its Walls, EUA, 2018)
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Dirigido por Eli Roth. Roteirizado por Eric Kripke. Baseado no livro homônimo por John Bellairs. Elenco: Jack Black, Cate Blanchett, Owen Vaccaro, Renée Elise Goldsberry, Sunny Suljic, Kyle MacLachlan, Colleen Camp, Lorenza Izzo, Vanessa Anne Williams.

O Mistério do Relógio na Parede possui uma grande conexão e influência em relação à franquia de Harry Potter desde o início de sua trama. Ela envolve, essencialmente, a trajetória do menino Lewis (Vaccaro), que acaba de se tornar órfão de seus pais e, por conseguinte, se muda para outra cidade para morar com o seu tio e novo tutor Jonathan (Black), o qual por sua vez sempre se encontra na companhia de uma antiga amiga, Florence Zimmerman (Blanchett).

A diferença entre este longa e o sucesso de J. K Rowlling é que, aqui, a família é super acolhedora e amável, até o ponto do tio negligenciar parte da responsabilidade parental que lhe incumbe, dando ao protagonista nada além de biscoitos, pipoca e ovomaltine. Neste sentido, o design de produção remete à típica casa assustadora por fora, mas que contém grandes magias e fantasias por dentro. Não é à toa, pois, que a fotografia incorpora essa sensação, por vezes projetando em tons cinzas o exterior do imóvel, o que contrasta com os tons quentes de seu interior. Este efeito transparece, inclusive, a perspectiva do próprio Lewis, cuja inocência se revela essencial para a narrativa, já que, como ele, o espectador entra em um mundo completamente desconhecido.

O Mistério do Relógio na Parede (Créditos: IMDb)

Roth também faz algumas escolhas interessantes e mostra habilidade quando sobrepõe imagens diegéticas com imagens documentais quando, por exemplo, Isaac lembra suas experiências na guerra. Porém, o melhor aspecto desse filme certamente é Florence, cujo trabalho feito por Blanchett é excepcional neste filme e faz toda a diferença. Vestida em tons que variam entre o roxo e o rosa, as cores incorporam o jeito e os maneirismos realizados pela atriz meticulosamente, demonstrando, assim, uma pessoa carinhosa, mas rígida e severa que traduz em um passado difícil e com cicatrizes ainda recentes. O mesmo podemos aplicar a Jonathan, não sendo coincidência que a demonstração de afeto entre ambos personagens seja feita através de xingamentos e apelidos enfadonhos.

Apesar de muito bem produzido e bem atuado, o filme não consegue manter uma narrativa coesa e coerente. Isto porque o ritmo acelerado e a montagem fragmentada trazem inúmeras subtramas sem o desenvolvimento ou o desfecho apropriado, como por exemplo, o passado dos personagens de Cate Blanchett e Jack Black; o próprio arco dramático de perder uma família em relação a Lewis, além de estabelecer seu lugar dentro da escola; o antagonismo de Isaac (MacLachlan) que revela todas as consequências psicológicas advindas com o final da Segunda Guerra Mundial; entre outros elementos mais fundamentais que não são aprofundados, como por exemplo, a solidão e a aceitação do outro.

Neste sentido, é verdade que há, no centro do enredo, toda uma discussão sobre o conceito de família e seus complexos laços, mas também leva a personagens pronunciarem frases aleatórias que não fazem o menor sentido como o fato de, em certo momento, Isaac e Selena (Goldsberry) quererem matar Lewis e, em outro, quererem adotá-lo.  Deste modo, essa superficialidade que acaba sendo latente pelos vários monólogos, explicações e constantes elipses que acabam enfraquecendo o que seria a própria jornada de heroísmo do protagonista, retirando, como resultado, grande parte de empatia pelo seu público. Em outras palavras, nada parece ter graça quando quer ser engraçado, nada parece aterrorizante quando quer causar medo, e nada parece dramático quando quer causar emoção.

Assim sendo, O Mistério do Relógio na Parede exibe todo o seu charme e beleza de uma produção eficiente. No entanto, não há nenhum conteúdo memorável a que podemos associá-lo.

Por Gabriella Tomasi, 19 de setembro de 2018 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

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