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Em Cinebiografia

Crítica: O Mestre dos Gênios (Genius, Reino Unido/EUA, 2016)

  • 23 de janeiro de 2017
  • Por admin
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Crítica: O Mestre dos Gênios (Genius, Reino Unido/EUA, 2016)
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Dirigido por Michael Grandage. Roteirizado por John Logan. Baseado no livro de A. Scott Berg Max Perkins: Editor of Genius. Elenco: Colin Firth, Jude Law, Nicole Kidman, Laura Linney, Guy Pearce, Dominic West.

A literatura norte-americana no início do século XX foi um período de grande atividade e foi o berço de inúmeros autores famosíssimos até os dias de hoje. Grandes nomes como Thomas Wolfe, Ernest Hemingway e F.Scott Fitzgerald fizeram sua marca. Em Mestre do Gênios acompanhamos a relação entre o primeiro escritor e o nome do “mestre”, o qual interliga todos os três “gênios” mencionados: o editor Maxwell Perkins.

Desde os primeiros minutos de projeção, percebemos que a editora em que Max trabalhou – a Charles Scribner’s Sons – já era uma empresa consolidada no mercado e muito procurada por jovens talentos que buscavam uma chance em ter suas obras publicadas. Na estante do seu escritório, podemos ver inúmeros nomes conhecidos, cujo trabalho contou com sua edição, sendo, portanto, o maior responsável por torná-los conhecidos, especialmente para os três escritores já mencionados. No entanto, este longa se concentra na peculiar relação de amizade entre Perkins, interpretado por Colin Firth e o sulista Wolfe, interpretado por Jude Law.

O filme estreante do veterano diretor de teatro Michael Grandage já nos passa uma grande maturidade, principalmente em seu design de produção, a qual recria maravilhosamente bem os Estados Unidos da década de 20. Inclusive, os tons terrosos e pastéis da paleta de cores revelam uma fotografia evocativa das dificuldades enfrentadas pela grande maioria de sua população, haja vista o período de depressão vivenciado, no qual o desemprego aumentava exponencialmente no país. Além disto, se presta também para enaltecer os obstáculos experimentados pelo jovem e talentoso Thomas Wolfe, um autor que foi rejeitado em muitas outras editoras antes de se arriscar em mais uma tentativa com Charles Scribner’s Sons.

Como todo bom artista alguma vez na vida talvez experimentasse, apresentar algo diferente e pioneiro perante uma sociedade é um trabalho árduo em busca de aceitação e, muitas vezes, depende apenas de uma pessoa. Uma pessoa que, no mínino, desperte alguma curiosidade e que tenha uma personalidade mais visionária ao apostar em trabalhos deste tipo, o que é cada vez mais raro.

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Jude Law em O Mestre dos Gênios

Perkins e Wolfe criam uma amizade profunda, mas muito singular. A princípio, são duas pessoas com personalidades completamente diferentes. O primeiro é um editor, empregado de uma empresa, mas muito dedicado e muito apaixonado pelo que faz, pelo simples fato de que tem a consciência de estar criando empregos, apostando em talentos e dar-lhes uma chance no mundo literário. Essa característica é visível já quando, ao ler a obra de Wolfe pela primeira vez, fica completamente submerso na sua leitura durante a viagem de trem até sua casa e, ao chegar, busca um abrigo calmo diante do ambiente frenético dentro de casa com sua esposa e 5 filhas, as quais tomam conta de todos aposentos (em um lindo plano-sequencia). Não encontrando nenhum, ele se aloja no closet do quarto para se concentrar. Essa enorme dedicação é igualmente muito simbólica no chapéu usado pelo personagem, eis que em nenhum momento, por mais familiar que seja o evento, se propõe a retirá-lo. Aliás, nem mesmo de pijama, antes de dormir, a câmera capta-o sem ele.

Mas essa personalidade muito contida e muito séria, contrasta drasticamente com a de Jude Law, na pele de Wolfe. Ao contrário de seu colega, ele fala alto, é inconveniente, é hiperativo, e tem um ego que, aos poucos, percebe a necessidade de atenuar. Vestido de maneira espalhafatosa e cabelo bagunçado, ele se impõe muitas vezes ao trabalho do polido Perkins, uma vez que este persiste em enxugar cada vez mais a verborragia de suas obras. Essa dinâmica, no entanto, funciona justamente pelos inúmeros momentos em que ambos mergulham tanto no trabalho de maneira a deixar de lado suas próprias vidas pessoais, pelo próprio amor pelos livros e também pela paixão que o trabalho de Wolfe evoca. Assim, esses momentos também são simbolizados pelo fato de que antes, Wolfe persiste sozinho em bater o pé no chão em um plano-detalhe e, após, vemos o mesmo movimento sendo compartilhado com Perkins em um bar de jazz.

Facilidade enorme em escrever cinco mil palavras por dia, obras com mais de 5.000 páginas, Wolfe é certamente notável pela fonte criativa que nunca esgota. Dessa forma, a fim de comparar nomes experientes, sentimos os bloqueios artísticos do personagem de Fitzgerald (Pearce), o qual não consegue retomar a inspiração e rotina desde sua obra famosa “O Grande Gatsby” e também alguns dos empecilhos do escritor Ernest Hemingway (West), em outros momentos, abordando de maneira cômica a sua personalidade. Em relação aos outros personagens, embora a vida pessoal de Perkins ser bastante completa (ainda que secundária) a mesma lógica e cuidado não foram explorados para a relação de Wolfe e sua amante Aline Bernstein (Kidman) . O complicado e intenso romance é retratado de maneira rasa, como se não pertencesse à obra ao deixar a personagem de Kidman (interpretada aqui com exageros de vez em quando) sem um desenvolvimento apropriado.

Mesmo assim, esta obra é extremamente eficiente ao, não somente denunciar a falta de humildade em Wolfe, por muitas vezes o isolando em meio aos planos gerais e abertos, e, dessa maneira, enaltecendo a aura sombria de sua personalidade apática (em relação às demais pessoas), ela também confere camadas e complexidade ao papel importante de um editor de um livro e as responsabilidades que advém desta função. Por mais brilhante que um escritor seja, é ele quem tem a experiência e, por conseguinte, a expertise em saber o que é ou não desnecessário em uma obra, transparecido muito bem, por exemplo, no embate com o Wolfe de extrair 80 páginas apenas para descrever um personagem secundário à trama ou sintetizar momentos do despertar de uma paixão. Ao mesmo tempo, ele aponta para uma enorme insegurança de seu trabalho, pelo fato de ter que tomar a cautela para não se sobrepor ou ofuscar a atividade criativa de seu autor a ponto de modificar completamente o estilo ou a história. Portanto, as críticas que sucedem a publicação do livro são tão definitivas para ele quanto para Wolfe, tendo em vista que marca o rumo e a reputação de seus autores.

Dessa forma, longe de querer vilanizar Wolfe ou tratar de forma heróica Perkins, a obra traz um equilíbrio entre personagens extremos: o primeiro sendo o novato entusiasmado com suas produções e o segundo mais formalista. Essa balança apenas demonstra como é importante estar sempre com os pés no chão.

Mestre dos Gênios imortaliza Max em um desfecho emocionante e simples em que, apenas com o gesto, abdica de todas as formalidades que tanto insiste em manter dentro de sua profissão.

É uma obra que vale a pena ser vista.

Por admin, 23 de janeiro de 2017
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Sobre mim
Gabriella Tomasi
Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. Tradutora e revisora freelance de textos.
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