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Em Drama

Crítica: O Lagosta (The Lobster, Grécia/Reino Unido/Holanda/Irlanda/França/EUA, 2017)

  • 28 de fevereiro de 2017
  • Por admin
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Crítica: O Lagosta (The Lobster, Grécia/Reino Unido/Holanda/Irlanda/França/EUA, 2017)
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Dirigido por Yorgos Lanthimos. Roteirizado por Efthimis Filippou, Yorgos Lanthimos. Elenco: Colin Farrell, Rachel Weisz, Jessica Barden, Olivia Colman, Ashley Jensen, Ariane Labed, Angeliki Papoulia, John C. Reilly, Léa Seydoux, Michael Smiley, Ben Whishaw.

Essencialmente, nós somos humanos que sempre buscamos alguém para compartilhar a vida. A busca pelo amor faz parte não somente do nosso cotidiano, mas também é um gênero do cinema específico e bastante sólido que atrai as pessoas e as cativa. E quem não se identifica ou se emociona com uma boa história de amor? Até quem lhes escreve agora. Em uma sociedade cada vez mais individualista, contudo, o cineasta grego Yorgos Lanthimos aproveita para trazer um maravilhoso estudo e uma crítica sobre as relações humanas.

Dentro de um mundo surreal e distópico, pessoas são ensinadas de como ser solteiro é perigoso: mulheres podem ser estupradas, homens podem morrer sem um cuidado de um parceiro. Dessa forma, são obrigadas a ter um companheiro (por sinal, ou você é hetero, ou homossexual e não pode ser bissexual), o que inclusive é monitorado pela polícia: se você se encontra sozinho em algum lugar, você é fiscalizado.

David (Farrell), recém abandonado pela esposa, é levado da cidade até um “hotel” em um lugar retirado que recebe outros solteiros e deve, em 45 dias, achar alguém para casar e voltar para a cidade. Há maneiras de estender a estadia, como, por exemplo, atirar dardos em solteiros que vivem em uma floresta perto dali, mas caso não encontre ninguém até o fim do período mencionado, ele será transformado fisicamente (e literalmente) em um animal de sua escolha.

O que parece bizarro em um primeiro momento é justamente que torna o filme instigante. Recusando a trazer explicações didáticas ao espectador, nossa curiosidade é despertada de acordo com o desenvolvimento e a trajetória de nosso protagonista, que aos poucos nos revela mais e mais as características deste mundo. Narrado em off por uma personagem que, posteriormente, descobrimos a sua identidade, tudo nos é contado conforme as cenas, e que, infelizmente, acaba repetindo até mesmo o que foi dito.  Um ambiente dominado pela paleta cinzenta e azulada, nos deparamos como as pessoas são reconhecidas pelas outras: pelos defeitos, ou, pelo nosso julgamento subjetivo do que elas sejam. Dessa maneira, ao invés de nomes, os quais nunca são revelados (com pouquíssimas exceções), David nos introduz a uma garota, cujo nariz sangra o tempo todo (Barden); uma mulher que gosta de biscoitos amanteigados (Jensen); uma mulher sem sentimentos (Papoulia), e seus amigos: um homem com a língua longa (Reilly) e um homem com a perna manca (Whishaw). E é por esses detalhes que as pessoas unem, ou seja: o medo de se tornarem animais os levam muitas vezes a mentir e a imitar os mesmos defeitos, já que este se revela o parâmetro usado para achar compatibilidade no outro.

O Lagosta

A ideia de um “amor perfeito”, portanto, é inexistente e forçado, já que esta sociedade pressiona seus indivíduos a encontrem logo alguém e repudiam os solteiros, utilizando, igualmente, a adoção de uma criança como justificativa para estarem juntos, oportunidade em que David chuta a criança apenas para se reafirmar perante a sua companheira. É por esse motivo que Lanthimos escolhe por empregar planos mais distantes, como em conjunto ou planos-médios, ou mesmo isolar os personagens em um ambiente aberto, a fim de ressaltar a distância com que as pessoas se tratam. Ademais, não é à toa que a atuação mecânica e sem vida de todos os atores é presente, já que nesse mundo todos são obrigados a esconderem suas emoções ou de serem sinceros um com o outro com medo das consequências de estar sozinho: reparem na confissão, coagido por uma arma, de um homem infeliz em um casamento arranjado.

Com uma trilha sonora magnífica com instrumentos de corda que intensifica o ambiente de literal terror e suspense e que sufoca os métodos e as pressões desumanas que aquele hotel utiliza para forçarem pessoas a ficarem juntas, descobrimos que um movimento de solteiros que se rebelam contra essas medidas e vivem na floresta não é tão “libertário” quanto pensamos em ser. Com um discurso inicial de aceitar quem quer seja por quanto tempo quiser, e um aparente sentimento acolhedor, descobrimos que ao contrário, são tão rígidos e tão maldosos quanto, perceptível na primeira regra que a líder (Seydoux) anuncia a David. A paleta da fotografia, assim, muda para tons de verde, preto e cinza, evocando um ambiente militar.

O longa, por conseguinte, desperta reflexões importantíssimas sobre a forma como nos relacionamos com as pessoas: à vezes julgamos alguém pelos seus defeitos; às vezes já permanecemos com alguém por conveniência, interesse ou pelas circunstancias, apenas para fugir de uma repreensão; às vezes fingimos ser o que não somos, buscando aceitação; às vezes escolhemos alguém buscando coisas em comum ou; acreditamos que ter um filho pode ser a solução para manter um relacionamento. Nada disso está longe da nossa realidade, ainda que seja retratada aqui em seu extremo. É exatamente por essa incrível originalidade e sinceridade é que esse roteiro assinado também por Filippou fora nomeado na categoria de roteiro original no Óscar 2017: é uma história que evoca as melhores e piores qualidades de nossa sociedade.

Ao final, fica uma interrogação: ou David faz um ato de amor, estilo Romeu e Julieta, em sua forma mais pura, ou o amor o deixou completamente cego.

O Lagosta, portanto, é uma obra maravilhosa recheada de humor negro que nos impacta pela tamanha sinceridade mascarada por trás deste universo distorcido e absurdo.

Por admin, 28 de fevereiro de 2017
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