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Em Cinebiografia

Crítica: O Formidável (Le Redoutable, França, 2017)

  • 26 de outubro de 2017
  • Por admin
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Crítica: O Formidável (Le Redoutable, França, 2017)
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Dirigido e roteirizado por Michel Hazanavicius. Elenco: Louis Garrel, Stacy Martin, Bérénice Bejo, Micha Lescot, Grégory Gadebois.

Política ou cinema?

Sem dúvidas, Jean-Luc Godard é um dos maiores nomes do cinema francês e uma figura impossível de ser desassociada da história da sétima arte. Para quem é cinéfilo (ou não), esse é um nome conhecido e famoso. Junto com Truffaut, Chabrol e demais profissionais, o cineasta foi um dos fundadores da renomada “Nouvelle Vague” ou “Nova Onda” da década de 60, um movimento cinematográfico composto por críticos de cinema que visava quebrar com o modelo “padrão” narrativo de filmes vigente na época.

Mas Godard também é conhecido pelo seu temperamento forte, ideais políticos radicais, o que levou a reconduzir sua carreira para o cinema político. Dessa forma, caso esse filme parasse nas mãos de outro diretor, o longa poderia ser facilmente mais um resultado clichê de “homens gênios incompreendidos”.  Por mais que seja ou não o caso de Godard, fato é que o vencedor do Oscar de Melhor Direção em 2012 por O Artista, Michel Hazanavicius, retrata o cineasta da maneira mais carinhosa, sincera, mas principalmente humana em uma época conturbada na sua vida.

A perspectiva dela é narrada por sua primeira esposa e aspirante a atriz Anne (Martin – cujo roteiro fora adaptado de uma autobiografia) e já nos primeiros minutos do longa somos apresentados a um tipo de Godard (Garrel) que estamos acostumados a ver tal como ela: uma pessoa que admiramos e idolatramos, confessando inclusive ser o motivo pelo qual se apaixonou por ele. Porém, aos poucos nossas impressões superficiais acerca do diretor são desconstruídas na medida em que aprofundamos nosso olhar para a sua intimidade e conhecemos alguém repleto de defeitos e, portanto, complexo. Hazanavicius escolheu, muito sabiamente, um dos períodos mais conturbados de sua carreira, quando já estava em uma posição de grande prestígio, porém, estava se envolvendo cada vez mais com a política. Após as gravações de seu filme A Chinesa (1967), a recepção majoritariamente negativa pela crítica o afetou psicológica e emocionalmente a ponto de negligenciar certos aspectos de sua vida, como seu próprio casamento. Por outro lado, o levou a se engajar profundamente nos movimentos estudantis e sindicais que conduziram ao Movimento de Maio em 1968, afetando o governo do então presidente da França, Charles de Gaulle.

“(…) uma discussão entre Anne e Gordard em um ambiente repleto de cores em vermelho e branco, simbolizando o momento em que a amada implora por compaixão e sossego.(…)” (Créditos: IMDb)

Pautando-se pelo seu apego a ideais revolucionários, em especial sua declarada ideologia comunista de Mao-Tsé Tung da Revolução Chinesa, é visível como esse aspecto transparece na direção de arte ao decorar seu apartamento com objetos e cores da bandeira de seu país: branco e azul, mesclando-as com as cores da bandeira chinesa: a amarela, tendo ambas em comum a cor vermelha, como se fossem dois lados da mesma moeda de Godard. Hazanavicius brinca com esses elementos constantemente para evocar sentimentos como, por exemplo, uma discussão entre Anne e Gordard em um ambiente repleto de cores em vermelho e branco, simbolizando o momento em que a amada implora por compaixão e sossego.

Além disso, os diálogos afiados do roteiro demonstram como as palavras são mais fortes do que podemos imaginar, principalmente quando, em uma conversa casual durante o café da manhã, o casal dialoga por “mensagens subliminares” que são “traduzidas” para o público nas legendas para um efeito cômico, ou o impacto indireto da palavra “terminamos” dita por Anne, assim como pequenos gestos como um sorriso no canto da boca da personagem ou um olhar distante. Aliás, um dos maiores acertos desse filme é desenvolver uma narrativa tragicômica para dar leveza a temáticas muito sérias que poderiam ser facilmente trabalhadas sob a ótica melodramática. A direção vai em caminho oposto, nos presenteando com entretenimento. Para tanto, a metalinguística presente e muito forte foi muito especial para criar momentos simbólicos como, por exemplo, quando Anne e Godard discutem o porquê da necessidade de nudez nos filmes, estando ao mesmo tempo nus na frente da câmera; ou então a sessão de cinema que exibe o filme A Paixão de Joana D’Arc (1928), a fim de justapor os diferentes sofrimentos dos personagens ou também; quando o personagem Godard afirma que ele não é Godard, mas uma versão de Godard, como se o próprio ator tivesse declarando que ele não é o real diretor. Não podemos esquecer também as filmagens em estilo documental e, na sequencia, a transição que se faz da película mais granulada e com razão de aspecto menor para a que é usada atualmente, quando um fã aborda Godard na rua interrompendo seu trabalho, como se houvesse uma quebra entre “ficção” e “realidade”. Outros toques especiais como o plano-sequencia do casal caminhando com amigos, enquanto os cenários já preparam o espectador para o Movimento de 68, são detalhes maravilhosos.

Muito bem pensado e executado, Hazanavicius extrai de Godard uma figura extremamente empática, o que por sinal muito disso se deve ao trabalho magnífico do ator Louis Garrel ao lado da parceira Stacy Martin. Porque não se busca endeusar de maneira artificial sua figura para que possamos nos aproximar dele, é, na realidade, traçar os conflitos internos de uma pessoa que tentar incorporar e equilibrar a política em seu cinema, de ser ouvido em suas reivindicações e de ser compreendido.

O Formidável é uma grata surpresa em 2017 e é um perfeito exemplo de um entretenimento de qualidade.

Texto originalmente publicado pela autora em coluna para o site Cabine Cultural.

 

Por admin, 26 de outubro de 2017
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