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Em Drama

Crítica: O Cidadão Ilustre (El Ciudadano Ilustre, Argentina, 2017)

  • 9 de maio de 2017
  • Por admin
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Crítica: O Cidadão Ilustre (El Ciudadano Ilustre, Argentina, 2017)
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Direção por Gastón Duprat e Mariano Cohn. Roteiro por Andrés Duprat. Elenco: Oscar Martínez, Dady Brieve, Andrea Frigerio, Belén Chavanne.

Toda a verdade é fruto de uma interpretação.

Essa é uma das frases mais marcantes que o protagonista Daniel Mantovani (Martínez) enuncia em O Cidadão Ilustre.

Se de fato fizermos a analogia dessa frase com os filmes ou qualquer outra forma de arte como a literatura ou a música, inclusive, todo trabalho tem relação direta às experiências – sejam boas ou rins – ao nosso redor e também às nossas origens. O artista imprime seu ponto de vista ou sua visão de mundo por meio de uma arte que lhe identifica e, por conseguinte, cada um de nós que nos deparamos com esta criação podemos apreciá-lo ou rejeitá-lo também de acordo com as nossas referências de vida. É dessa forma que a crítica cinematográfica também se apóia de certa forma, pois a cada texto escrito por mim, por exemplo, retiro um pedaço da minha visão de mundo, da minha interpretação em relação aos conceitos trabalhados em um filme e os publico na internet, motivo pelo qual nem todos que lêem podem concordar comigo e minha opinião sobre ele, gerando essa atividade cíclica. Portanto, nenhuma crítica ou nenhum trabalho artístico se trata de uma verdade absoluta, mas de interpretações que retiramos das nossas sensações com as pessoas, com o mundo em geral.

Não coincidentemente, os cineastas Gastón Duprat e Mariano Cohn brincam com esse conceito de forma inteligente e instigante. Na trama, Daniel é um escritor argentino renomado que comparece inicialmente à cerimônia sueca do Prêmio Nobel, no qual ele é agraciado por sua contribuição na literatura. Assim, percebemos que o protagonista é um personagem bem ambíguo e complexo desde o começo. Ao mesmo tempo em que aceita o reconhecimento e o prestígio, seu discurso de aceitação é incrivelmente subversivo em relação à tal formalidade, tendo em vista que afirma que aquele era o momento em que sua carreira acaba, pois agradar aos acadêmicos suecos significaria justamente não questionar este grupo ou sua etiqueta artística, mas se encaixar nos moldes dele e, portanto, não inovar a ponto de ultrapassar os gostos particulares da academia. Esse discurso afiado é que acompanha todos os momentos da jornada de Daniel e o seu retorno subsequente até sua pequena e pacata cidade natal do interior argentino – Salas – 800 quilômetros de Buenos Aires, após deixá-la há quarenta anos. A convite do prefeito da cidade, lhe é oferecido a condecoração de Cidadão Ilustre ao escritor.

 

O Cidadão Ilustre (Créditos: Cineart Filmes)

É uma jornada em que o artista retorna à cidade da qual seus “personagens nunca deixaram” e aprendemos, portanto, a origem e as raízes de todos os seus romances, suas inspirações e experiências ao encontrar rostos conhecidos e lugares por onde caminha o que desperta certa nostalgia no protagonista e, assim, sentimos a cada passo filmado. A chegada de Daniel ao povoado é celebrado no início, mas sua presença ocasiona certos incômodos e seu embate contra os costumes e tradições interioranas começam a lhe afetar, especialmente pelo o que seu status de fama e de celebridade representa ali. Dessa forma, mesmo que o protagonista tente manter a compostura, integridade e sua filosofia intactas, a população cada vez mais o rechaça o que é perceptível simplesmente pela redução de alunos a cada aula ministrada lá.

A claustrofobia e os desconfortos que Daniel sente também podem ser sentidos pelo espectador, ainda que a câmera se comporte de forma mais documental. É a frenesi de todos os seus compromissos, de toda a escolta policial ao seu redor, dos convites e solicitações de estranhos e de reencontro com “fantasmas”, como seu melhor amigo que agora está casado com sua ex-namorada. Suas experiências, por sua vez, cada vez mais revelam contradições da população e as suas idiossincrasias, como um estudo do ambiente em que uma vez viveu.

Mas por conter um viés documental como mencionamos é que voltamos ao questionamento inicial: todas essas experiências naquela cidade que ele deixou há tanto tempo, toda a rejeição e perseguição será mais uma de suas obras ficcionais ou realidade? Uma verdade ou um produto de sua imaginação? Teria essa viagem realmente acontecido? Assim como sua cidade natal sempre foi o pano de fundo de todos seus romances e livros e contos do gênero de mistério e crime, podemos questionar a veracidade de tudo o que fora impresso por Duprat e Cohn em quase duas horas de projeção. Assim como a crítica ou até mesmo esta crítica que ora escrevo, pode ser uma das interpretações de várias outras possíveis.

Por conseguinte, expor todo aquele mundo pode ser (ou não) apenas uma criação conceitual artística, uma concepção de mundo hipócrita por trás de rostos amigáveis e convenções sociais que ele deseja denunciar. Longe de querer ser transmitida como uma verdade única e/ou intransigente, aquela cidade, aquelas pessoas, fazem indubitavelmente uma parte bastante íntima de Daniel.

O Cidadão Ilustre é, pois, um trabalho genial.

Por admin, 9 de maio de 2017
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