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Em Comédia

Crítica: O Artista do Desastre (The Disaster Artist, EUA, 2018)

  • 24 de janeiro de 2018
  • Por Gabriella Tomasi
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Crítica: O Artista do Desastre (The Disaster Artist, EUA, 2018)
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Dirigido por James Franco. Roteirizado por Scott Neustadter, Michael H. Weber. Baseado no livro The Disaster Artist: My Life Inside The Room, the Greatest Bad Movie Ever Made por Greg Sestero e Tom Bissell. Elenco: James Franco, Dave Franco, Seth Rogen, Alison Brie, Ari Graynor, Josh Hutcherson, Jacki Weaver.

O Artista do Desastre é, essencialmente, um filme sobre o pior filme de todos os tempos.

The Room, produzido, roteirizado, protagonizado e dirigido por Tommy Wiseau em 2003, um homem enigmático, já que durante muito tempo ninguém nunca soube dizer de onde ele é, ou quantos anos ele tem, ou até mesmo a procedência da fortuna de que é dono. Este filme é de fato uma aula de cinema sobre como não fazer filmes e é considerado um dos piores filmes do século 21, eis que possui erros mais fundamentais em todos seus aspectos técnicos: a montagem bagunça toda a ordem dos eventos; o roteiro não faz sentido algum; a direção e decupagem resulta em um efeito picado e sem organicidade alguma (isso sem contar as cenas fora do quadro); a direção de arte e figurino são pobres e artificiais; as atuações são medíocres e; os seis milhões gasto na produção resultaram em um longa-metragem estilo soft porn terrível. Mas isso não o impediu de ser um cult do cinema.

Em O Artista do Desastre, conta-se a história sobre esse filme, as pessoas por trás dele e o que levou a ser o filme que é hoje. Não é possível não admirar a jornada de seus protagonistas que partem para Los Angeles almejando serem os maiores astros do cinema: Greg (Dave Franco) é um jovem sonhador até quase o ponto de ser ingênuo, já Tommy (James Franco) com sua personalidade equivalente a um menino de sete anos de idade não mede esforços para alcançar o que quer. Ambos, sem preparo algum (técnico ou psicológico), decidem tomar o seu destino pelas próprias mãos depois de tantas rejeições no mercado do entretenimento e fazer um filme por eles mesmo.  De certa forma, representa um pouco daquele espírito americano em que duas pessoas sem perspectivas em um lugar novo conseguem alcançar certo sucesso – o que difere é que os frutos foram colhidos na própria desgraça, nos próprios defeitos. Neste aspecto, a reflexão é até bastante poderosa sobre a cultura hollywoodiana.

O Artista do Desastre (Créditos: Warner Bros.)

Esse poder vem da delicadeza da atuação de seu elenco principal. A dupla de irmãos Franco possui uma química ótima e cada um traz uma atuação exemplar. O resto do elenco também não se pode menosprezar, pois somente através das reações deles em relação às condutas e atitudes inusitadas de um excêntrico Tommy Wiseau, como dar voltas na quadra do teatro em que o filme vai estrear para que mais pessoas apareçam; ou de repente comprar todo o equipamento do set sem ao menos saber para quê serve; os surtos das frustrações durante as filmagens e; o apego emocional exagerado à Greg fazem desse filme uma comédia envolvente. Para tanto, Franco utiliza uma fotografia que simula um documentário, acompanhando os passos de Tommy e Greg antes, durante e depois da execução de um filme que se torna uma perfeita oportunidade para reverenciar a indústria cinematográfica: todos os desafios, pesos e obstáculos por trás das câmeras são retratados, além de ressaltar a importância da amizade, companheirismo e sintonia para concretizar um objetivo comum. Toda essa realização pessoal é feita através do mundo cinematográfico. O cinema, portanto, se torna um cenário perfeito para os amantes da sétima arte.

O roteiro de Scott Neustadter e Michael H. Weber desenvolve uma comédia na medida certa, absurda, e que dialoga tanto para os fãs como, por exemplo, quando Greg e Tommy jogam uma bola de futebol americano no parque ou quando uma atriz indaga a Tommy em meio à filmagem: “por que eu vou falar que tenho câncer de mama, se esse assunto não volta?”. Mas quem ainda não assistiu ao longa de Wiseau tampouco ficará sem entender, porquanto além de divertido – já que o próprio filme original evoca risadas não intencionais, no bom sentido – muitas das cenas são regravadas e comparadas com as originais ao final, possibilitando o espectador a compreender a narrativa. Gosto particularmente de como deram atenção à uma das falas mais emblemáticas do filme justamente para manter seu público informado (“I did not hit her. It’s not true. I did not hit her. I did not. Oh, hi Mark!”).

O Artista do Desastre é uma das melhores comédias atualmente (algo incrivelmente difícil de encontrar) e nos instiga ao mesmo tempo a ver e rever o melhor filme ruim de todos os tempos.

Por Gabriella Tomasi, 24 de janeiro de 2018 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

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