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Em Suspense

Crítica: Neve Negra (Nieve Negra, Argentina/Espanha, 2017)

  • 5 de junho de 2017
  • Por admin
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Crítica: Neve Negra (Nieve Negra, Argentina/Espanha, 2017)
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Dirigido por Martín Hodara. Roteirizado por Martín Hodara, Leonel D’Agostino. Elenco: Ricardo Darín, Leonardo Sbaraglia, Laia Costa, Dolores Fonzi, Biel Montoro, Mikel Iglesias, Liah O’Prey, Andrés Herrera, Iván Luengo, Javier Kussrow.

Neve Negra é um filme de suspense argentino que narra a chegada de um casal proveniente da Espanha. Marcos (Sbaraglia), acompanhado de sua jovem esposa Laura (Costa), retorna à sua cidade natal nas terras gélidas da Patagônia em razão do falecimento de seu pai. Hesitante de início, Marcos ainda assim decide cumprir as últimas vontades de seu pai deixadas em seu testamento, no qual ele desejava ser enterrado ao lado do filho caçula, Juan, onde morreu em um acidente no local perto de suas terras. Assim, ele visita seu irmão Salvador (Darín) que ainda reside lá e aproveita a oportunidade para convencê-lo a vender essas terras, já que o dinheiro contribuiria também para cobrir as despesas com a outra irmã Sabrina (Fonzi) que está internada em uma clínica psiquiátrica. 

Desde o começo o roteiro de Hodara e D’Agostino sugere um mistério em torno da morte de Juan, o qual vai sendo revelado a partir de um jogo de pista/recompensa durante a narrativa, e por conseguinte vai desmitificando nossas impressões acerca dos três personagens em tela. Neste sentido, Marcos é inicialmente visto como um mocinho, um homem casado, um futuro pai, mas a presença naquele ambiente provoca lembranças de modo que ainda há fantasmas que o perturbam. Na realidade, não é à toa que as suas próprias experiências e sentimentos emergem não em forma de flashback, como a morte de Juan, mas são reconstituídas por um efeito de montagem maravilhoso, como se estivesse ocorrendo ao mesmo tempo, justamente para ressaltar que o passado interfere diretamente no tempo presente do filme. Uma pista sobre as suas nuances podem ser detectadas como um lindo contra-plongé que engrandece a sua silhueta imediatamente após Marcos, quando adolescente, lembrar de seu irmão sendo espancado pelo pai, a qual em conjunto com um jogo de sombras transparece uma personalidade não tão pura como imaginávamos. Salvador, por sua vez, é claramente projetado como o antagonista não apenas pelo seu jeito misterioso, rude e pouco afetuoso, causando um desconforto inicial por parte de Laura, mas também por se manter posicionado sempre distante da câmera, vigilante, ameaçador pelas sombras que o rodeiam. Contudo, conforme a narrativa progride, nossos pré-conceitos são colocados em xeque ao subverter essas impressões para que possamos entender que ele é extremamente vulnerável devido à sua vida difícil que levou, inclusive, com abusos.

 

Neve Negra (Créditos: IMDb)

 

Laura, por fim, é a personagem que infelizmente fora menos trabalhada durante o segundo ato, (talvez intencionalmente para que o desfecho se torne o mais ambíguo possível) mas esse é um risco que o roteiro provavelmente pode correr de se tornar incompreensível ou improvável para o espectador, já que nosso senso comum esperará uma atitude contrária daquela que ela assume. Todavia, se analisarmos bem, passamos a nos convencer de que sua personagem passou por uma transformação naquele ambiente. Se a princípio temos a impressão de uma pessoa frágil e meiga, nos damos conta gradualmente que ela também revela um lado diferente ao não ter medo de pegar em armas, por exemplo, até que o disparo inesperado de uma delas faz transparecer outro lado seu escondido, por meio de sua identidade que sai da escuridão em direção ao ambiente iluminado, criando maravilhosamente bem esse efeito.

A direção de Hodara é bastante eficaz em criar esse ambiente de suspense com o intuito de contrariar nossas expectativas em relação ao rumo que a narrativa caminhará. Interessante também a forma como ele conduz e organiza a mise-en-scène com os personagens, ora opostos um ao outro pela horizontal ora pela profundidade de campo; ou em posição geométrica como a cena da janta. Contudo, é visível que poucos elementos foram aproveitados para a construção da narrativa, que chega a ser inflada muitas vezes, fazendo com que seu roteiro simples torne os curtos oitenta e sete minutos de projeção mais longos do que deveriam. Ainda, o desfecho da trama acaba correndo o risco de tampouco ser tão impactante quanto deveria ser. Em outras palavras, em razão de que as atitudes de Laura ao final soam muito improváveis, elas obstaculizam também o espectador a entender o significado delas para compreender o final.

Mesmo assim Neve Negra sai com um saldo positivo, por tratar tão habilmente das relações familiares, os seus rancores, ressentimentos e atitudes egoístas que fazem suas estruturas corroerem.

Texto originalmente publicado pela autora para o site Cabine Cultural

Por admin, 5 de junho de 2017
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