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Em Drama

Crítica: Negócio das Arábias (A Hologram For The King, EUA, 2016)

  • 5 de janeiro de 2017
  • Por Gabriella Tomasi
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Crítica: Negócio das Arábias (A Hologram For The King, EUA, 2016)
Rating: 4.0. From 1 vote.
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Dirigido e roteirizado por Tom Tykwer. Elenco: Tom Hanks, Alexander Black, Sarita Choudhury, Sidse Babett Knudsen, Tracey Fairaway, Jane Perry, Lewis Rainer e Tom Skerritt.

Negócio das Arábias conta a história de Alan Clay (Hanks), um comerciante de uma grande empresa que viaja até a Arábia Saudita para fechar um acordo de negócios com o seu Rei, no qual consiste em implantar um sistema de comunicação por hologramas em uma cidade artificial que está sendo construída no meio do deserto. Dessa forma, acompanhamos a trajetória do nosso protagonista em seus esforços para que isto aconteça, já que encontra dificuldades no caminho: o Rei nunca está presente e sua equipe não tem condições de trabalho favoráveis: sem comida, sem ventilação apropriada e sem internet para desenvolver a amostra a ser apresentada ao monarca.

Mas o que parece uma história ordinária e até simplista, há de se compreender suas nuanças que o tornam uma obra surpreendentemente complexa, pois estão nelas a verdadeira beleza deste longa.

Isto porque o verdadeiro objetivo do roteiro de Tykwer é tratar de estudar Alan, por meio das mais diversas situações enfrentadas. A montagem, neste caso, foi primordial e faz um trabalho excelente em alternar desde o começo através de flashbacks a história do protagonista, os quais revelam a importância de conquistar o negócio, tendo em vista que o dinheiro serviria para pagar os estudos de sua única filha e, por conseguinte, provar para sua ex-mulher que ele tem condições de proporcionar isto à ela. Ao mesmo tempo, Alan sofre as pressões de seu chefe e de seu trabalho com as constantes ligações, e também na medida em que mostra sua culpa por uma demissão em massa no passado em outra empresa. Os cortes rápidos e ritmo acelerado de sua rotina que consiste em: cumprimentar o recepcionista, cumprimentar pessoas no elevador, tomar banho, escovar os dentes,  fazer a barba e etc, demonstram o quanto tudo aquilo começa a sufocá-lo ao poucos. Isto é mais patente ainda quando ele obtém acesso à bebida alcoólica (já que no país é proibido o seu consumo), suspirando de alívio apenas ao tomar um gole de cerveja, criando uma válvula de escape que apenas agrava todas suas frustrações.

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Tom Hanks em Negócio das Arábias

Da mesma maneira, a direção engenhosa de Tykwer que prefere falar muito com os seus movimentos de câmera, posiciona o ator no canto dos quadros para ressaltar essas sensações e também o constante emprego de planos abertos e aéreos engrandecem o isolamento do protagonista naquele país estrangeiro de areias infinitas. Mas tampouco é coincidência que toda esta negatividade é transmitida na linguagem corporal de Hanks: retraído, tímido, inseguro, e canalizada em um calombo que aparece em suas costas, simbolizando o fardo que carrega (literalmente) em suas costas e não consegue largar. Não bastasse isto, em um excelente tom cômico, o protagonista sempre acaba caindo no chão de todas as cadeiras que senta, como se todo o suporte ou apoio que ele tenta buscar resultassem em tentativas fracassadas.

Porém, o filme vai muito além e aproveita a oportunidade para explorar a Arábia Saudita e, assim, denunciar alguns aspectos do país, a partir dos conflitos culturais que Alan vivencia e das pessoas com quem interage: o divertidíssimo motorista Youssef (Black) e seu interesse amoroso, a médica Zahra Hakem (Choudhury) que nos proporciona momentos lindos em tela. Neste contexto, temos os divórcios, os casos extraconjugais, o direito criminal, o sexismo, a língua, a relação familiar, a honra, entre outros. Aliás, é incrível quando se faz a comparação de que, da mesma forma como você não brinca com os norte-americanos se você diz que possui uma bomba no aeroporto, é igualmente ofensivo se você afirma a um árabe que trabalha para a CIA.

É muito interessante também como as questões diante sua presença em um edifício ainda inacabado podem suscitar:  o próprio sentido do capitalismo, como algo grandioso mas completamente desumano, quando, por exemplo, Alan encontra filipinos sendo escravizados em seus trabalhos na construção ou, quando ele faz uma análise de si mesmo ao se sacrificar tanto em nome de um sistema que não somente interfere na própria vida e destino das famílias de outros seres humanos, mas cujas imposições deterioram sua saúde mental e física.

A mensagem mais importante que esta obra maravilhosa traz, na realidade, é que mesmo em meio às inseguranças e às incertezas, tornando-nos completamente perdidos ou isolados na vida, se nos deixarmos levar ao rumo que ela nos indica, ainda podemos nos encontrar novamente e achar tranqüilidade e estabilidade.

Deste modo, Negócio das Arábias é uma obra para ser valorizada pela sua meticulosidade em proporcionar incríveis reflexões sobre a forma como vivemos nossas vidas por meio de uma narrativa imagética.

Por Gabriella Tomasi, 5 de janeiro de 2017
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Gabriella Tomasi
Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema e colunista para os sites Cabine Cultural e NoSet.
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