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Em Drama

Crítica: Moonlight: Sob a Luz do Luar (Moonlight, EUA, 2017)

  • 22 de fevereiro de 2017
  • Por admin
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Crítica: Moonlight: Sob a Luz do Luar (Moonlight, EUA, 2017)
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Dirigido e roteirizado por Barry Jenkins. Elenco: Trevante Rhodes, André Holland, Janelle Monáe, Ashton Sanders, Jharrel Jerome, Naomie Harris, Mahershala Ali.

Moonlight é basicamente um retrato intimista fascinante sobre como nossas experiências pessoais, as influências das pessoas em nossa volta e como o ambiente no qual estamos inseridos podem moldar nosso futuro e nossa personalidade. Dividido em três capítulos mergulhamos em três fases distintas do personagem principal, Chiron: a infância, quando era chamado de Little, a adolescência, quando impõe ser chamado pelo seu nome, e a fase adulta, quando é apelidado de Black.

Os planos iniciais desse longa servem para que possamos nos acostumar com o jeito do personagem: retraído, calado e desconfiado de qualquer um em sua volta.  Em uma perspectiva completamente realista, ele não é aqui tratado como mártir ou vítima da sociedade, mas seu comportamento se revela como uma maneira que Chiron encontrou de se proteger da vida, eis que desde pequeno, mesmo sem compreender exatamente os conceitos ou o que eles significaram e se eles são normais ou não, o protagonista possui uma noção de que já é diferente dos outros. Portanto, ao longo dos anos, vemos Chrion absorver as experiências enquanto busca por sua própria identidade, de uma maneira tão simples e tão aberta, sem julgamentos e sem maniqueísmos.

Nesse sentido, vemos como a convivência durante a infância com o traficante Juan (Ali) impactou sua vida como uma referência em sua vida adulta – o que leva a inclusive imitá-lo – na medida em que presenciamos o tamanho do carinho e cuidado com que ele trata Chiron, especialmente ao reconhecer abertamente ser responsável pelos vícios de sua mãe Paula (Harris). Sua namorada Teresa (Monáe), da mesma forma, passa a exercer a figura maternal, aonde ele normalmente sabe que pode encontrar refúgio nos momentos difíceis.

Mais do que um simples relato de sua vida, o segundo longa-metragem de Barry Jenkins introduz poesia pela atmosfera ao ser cuidadoso a demonstrar essa evolução pelas cores dos ambientes e pelas suas vestimentas. Note, por exemplo, como Chiron no começo se veste essencialmente de cores brancas, até passar para as cores brancas,amarelas e azul e, ao final, o verde escuro militar como um definitivo enrijecimento exterior do personagem, após ser sufocado por tanto tempo pelas dores físicas e internas, ao passo que a fotografia se utiliza das mesmas cores para complementar tudo isso. Reparem, por exemplo, como os planos são iluminados pelas cores rosas e mais quentes quando está presente de sua mãe, representando o amor maternal, o qual ele se sente privado deste pelos problemas em seu relacionamento com ela, e também pela sua sexualidade reprimida. Como alívio, contudo, os mesmos tons aparecem até mesmo na cor da parede no primeiro encontro com Chiron e Paula e Juan simbolizando a formação de mais um amor familiar e aceitação de sua pessoa tal como ela é. Da mesma forma quando está no salão do colégio, momento em que ele se libera de ser ele mesmo, ou até mesmo quando está com seu único amigo Kevin.

Chiron (à esquerda) transmite sentimento de amor pela camiseta vermelha, em relação ao seu amigo Kevin (à direita) (Fotos por IMDb)

Porém, a cor que mais se destaca e que o acompanha em todas as fases de sua vida é o tom melancólico do azul, principalmente em neon, simbolizando toda aquela tristeza e senso de isolamento que carrega em seu interior, em forma de rimas visuais maravilhosas e expressivas. Deste modo, presenciamos como ele é encarado muitas vezes sozinho e dominado por essa cor, quando toma banho na banheira, nos conflitos com a mãe, nas próprias roupas, entre outros elementos que podemos observar na mise-en-scène.

Mas o mais belo desta obra é como essa mesma cor exerce sobre o símbolo do mar, outro elemento que para o protagonista é um refúgio de dores, assim como “sob a luz azul do luar” faz jus ao subtítulo em português ao trazer um dos ensinamentos mais profundos sobre preconceito. Assim, desde seu primeiro nado com Juan, a câmera que fica parcialmente submersa já demonstra como a primeira experiência com a água em geral, tanto no mar, quanto posteriormente no banho ou no mergulho da cabeça na pia, se revela para ele e como, em um momento, ela se transforma em uma das experiências mais importantes de sua vida. A simples forma como Chiron em um momento olha para o mar que está adiante dele e como o ruído das ondas o chama para esse lugar, é de tirar o fôlego.

Com um olhar sensível, portanto, Jenkins soube muito bem usar a câmera em seu favor para evocar sentimentos, quando passa a empregar primeiríssimos planos ou close-ups nos rostos dos personagens, de maneira fixa e centralizada, a fim de demonstrar ou confronto ou até mesmo enfrentamento de uma situação com as pessoas com quem dialoga ou interage pelo simples plano/contra-plano. Chiron igualmente é colocado diversas momentos ora no centro; ora diminuído no canto do quadro ora pelo contra-plongée do seu personagem oposto. Sua direção também muitas vezes opta por filmar e acompanhar os passos de Chiron de frente para o seu rosto em travelling para trás, de modo a representar como é importante seguir em frente.

É incrível como inúmeros temas são plenamente possíveis de serem tratados com tanta profundidade, tanta honestidade e tanta ternura por meio de uma narrativa e uma trama essencialmente simples, mas ao mesmo tempo complexa: aqui vemos como a sexualidade, a posição social, o bullying, o racismo, as drogas, a marginalização, a etnia, a identidade íntima e a pobreza sendo desenvolvidos pelas mãos engenhosas de Barry Jenkins.

Moonlight: Sob A Luz Do Luar é um filme obrigatório. Ele é sobre amor e aceitação.

É uma obra atemporal sobre nossas vidas.

Por admin, 22 de fevereiro de 2017
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