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Em Drama

Crítica: Me Chame Pelo Seu Nome (Call Me By Your Name, França/Itália/EUA/Brasil, 2018)

  • 17 de janeiro de 2018
  • Por Gabriella Tomasi
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Crítica: Me Chame Pelo Seu Nome (Call Me By Your Name, França/Itália/EUA/Brasil, 2018)
Rating: 5.0. From 1 vote.
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Dirigido por Luca Guadagnino. Roteirizado por James Ivory. Baseado no romance homônimo de André Aciman. Elenco: Armie Hammer, Timothée Chalamet, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel, Victoire Du Bois.

Na indústria cinematográfica já vimos tantos longa-metragens representando o amor de verão, ou então o amor que tenta sobreviver o verão. Me Chame Pelo Seu Nome retrata a mesma premissa na década de 80, só que conta uma história pouco contada no cinema, em uma época em que ser homossexual era vergonhoso para uma família e as relações surgiam às escondidas. Neste contexto, conhecemos a história de um jovem de dezessete anos de idade que mora na Itália com seus pais, Elio (Oliver), e que gradualmente se apaixona pelo inquilino norte-americano e acadêmico de 24 anos Oliver (Hammer), o qual estava visitando o país durante seis semanas.

Este é um filme que representa a perfeita definição de “coming of age”. Essencialmente, é uma história sobre um menino que está se descobrindo, tentando achar sua identidade, encontrando sua sexualidade pela primeira vez, em meio às transformações emocionais, físicas e mentais por quais passa na fase adolescente. É uma aproximação gradual que Elio sente por Oliver, uma estranheza no início e que aos poucos se torna algo muito mais intenso. O trabalho de Timothée Chalamet é excepcional, seu personagem se envolve com meninas de sua idade, mas percebe que resistir ser algo ou possuir um determinado comportamento que se esperam dele é completamente inútil e desonesto com as pessoas em sua volta, além de si mesmo. É o que testemunhamos não somente com a relação entre pai e filho (perceba como em um determinado momento Elio tenta se gabar para o pai que vai fazer sexo com uma menina), mas também pela forma como o relacionamento com Marzia (Garrel) se desenvolve.

Me Chame Pelo Seu Nome

 

O roteiro adaptado de James Ivory em conjunto com uma habilidosa direção de Luca Guadagnino resulta em uma história envolvente longe de qualquer estereótipo, qualquer julgamento, sem tomar qualquer partido. Ninguém aqui visa levantar uma bandeira ou outra, ninguém quer se envolver em aspectos políticos. Ao contrário, a intenção é humana. Percebam como Luca retrata a cena sexual homoafetiva da mesma forma como a da hétera, ou seja, é um instante privado dos personagens, íntimo entre duas pessoas (ou pêssego) que ele se recusa a registrar literalmente, independente do gênero, apenas por respeito a este momento tão significativo na vida de uma pessoa. Uma atitude bastante inteligente do cineasta em transparecer que este filme não quer erotizar nenhuma relação, mas trata-se simplesmente de duas pessoas que se apaixonam e vivem um amor como qualquer um já viveu um dia. Mas por ser uma década em que se recriminava fortemente a relação homoafetiva, a luta pela liberdade está nos gestos mais sutis e pequenos dentro do filme como, por exemplo, quando Oliver diz: “se não estivéssemos em público, eu te beijaria agora”; ou os olhares e os toques escondidos; ou então o êxtase que ambos sentem quando estão completamente sozinhos – é apenas reparar como eles dançam, riem, bebem e se divertem em comparação ao comportamento um pouco mais retraído e mais tímido diante de outras pessoas. Inclusive, a declaração de amor é feita pelas entrelinhas, pelo subentendido e jamais é dita em voz alta, mas apenas sentida. Isso representa o quanto a opressão e os pré conceitos eram fortes e temidos – e são até hoje.

A fotografia é igualmente impactante, pois não só incorpora a granulação do filme usado na época, mas incorpora os tons pastéis de um típico verão europeu e a abordagem naturalista justamente reforça o amor pela vida, e de estar vivo e estar em contato com seu verdadeiro “eu”, em contato com a sua alma, com a sua humanidade e com tudo o que a natureza oferece – desde a fruta que cai de uma árvore até a sexualidade de nossos corpos. Não é à toa, portanto, que imagens contemplativas do interior da Itália se tornam o cenário principal desta jornada, com direito inclusive a locais íntimos e secretos, onde os personagens desabafam seus sentimentos. Reparem, por exemplo, que o desespero de Elio é contado a Oliver em um quarto abandonado de sua casa, ou como o primeiro contato com seu amor também é executado em um local recluso e distante da civilização.

Guadagnino retrata o ser humano de todas as épocas, de todos os anos e de todas as gerações. Somos pessoas que buscam amor, buscam conexão, auto aceitação, e que se descobrem ao longo da vida, amadurecem. É o que faz de Me Chame Pelo Seu Nome um filme tão atemporal e clássico: porque ele retrata todas as nossas alegrias que o calor do verão nos oferece e a melancolia do inverno representando as frustrações que a realidade da nossa sociedade inevitavelmente traz.

Me Chame Pelo Seu Nome é uma obra prima do cinema.

Por Gabriella Tomasi, 17 de janeiro de 2018 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

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