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Em Terror

Crítica: Mate-me Por Favor (Brasil, 2016)

  • 14 de novembro de 2016
  • Por admin
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Crítica: Mate-me Por Favor (Brasil, 2016)
Rating: 4.0. From 1 vote.
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Nota: 4,0/5,0*   

Direção e roteiro por Anita Rocha da Silveira. Elenco com: Valentina Herszage, Dora Freind, Mariana Oliveira, Júlia Roliz, Bernardo Marinho.

Um fato curioso sobre o cinema brasileiro é que ele é marcado principalmente pelo naturalismo. Pouco vemos abordagens mais artísticas e fantasiosas dos cineastas no país. O trabalho da diretora em sua estréia em longa-metragens vai justamente na contra-mão de tudo o que estamos acostumados para dedicar-se a algo inédito. Durante esta trama, ela decide utilizar gradualmente de simbolismos na narrativa, ou seja, um jeito diferente de contar a história que não somente funcionou, mas traz igualmente algo completamente diferente para o espectador brasileiro.

O filme dá início com uma imagem de uma jovem. Rosto que transmite tristeza, ela se encontra embriagada em uma festa. Na sequencia, ela se desloca pelas ruas vazias do Rio de Janeiro até chegar em um vasto terreno, onde é atacada e morta. Estamos diante de um serial killer perigosíssimo à solta.  Esta bela introdução junto com uma ótima trilha sonora nos intriga, visto que estas cenas remetem imediatamente à técnica bastante esgotada nos filmes de terror dos anos 80 criando um sentimento quase nostálgico.

Mais que uma mera homenagem ao gênero, estes clichês do terror e do suspense apenas entram para aproveitar para explorar e engajar questões bem mais complexas, especialmente em relação à adolescência. De uma forma bastante realista e ao mesmo tempo que simbólico como já mencionado no início, a abordagem, neste caso, é a psicologia das mentes mais novas. Aí surge a figura da nossa protagonista Bia (Herszage), estudante do ensino médio, que se encontra em uma fase de exploração da sua sexualidade, e do próprio corpo; é uma fase de passagem entre a adolescência e o começo de um amadurecimento que é vivida com certo sofrimento.

Com todos esses eventos, Bia igualmente se torna obsessiva em relação às vitimas e ao próprio assassino, refletindo, por exemplo, em comportamentos mais agressivos e impensados. Para este ambiente do medo, da morte,  da confusão, aposta-se em uma câmara bastante expressiva justamente para retratar um sentimento sufocante. A fotografia e direção de arte se empenharam em mostrar um Rio de Janeiro bem diferente do que estamos habituados: ao invés de um lugar caótico, ensolarado, muito calor e muitas pessoas por todos os lados, nos deparamos com um lugar praticamente vazio, espaços amplos e representação em cores frias.  No mesmo sentido, vemos muito o emprego de cores em vermelho, para refletir o sexo e a violência, assim como em tons de roxo, muito visível nas roupas, nos móveis e principalmente na festa de uma de suas colegas de escola: Amanda. Afinal, em um filme sanguinário a morte os rodeia e se aproxima cada vez mais.

Mas o que chama atenção mesmo é o olhar para o tema do sexo durante a adolescência. As amigas de Bia, assim como ela, falam abertamente sobre suas experiências, da violência e do estupro, e o notável é que, ao mesmo tempo, elas têm momentos de criança também: elas correm, brincam, pulam, se matam de rir – momentos puramente inocentes que nos remetem á infância. Aliais, por querer reforçar este lado da juventude é que não presenciamos a figura adulta durante todo o filme. Os pais são ausentes e a única autoridade da escola que aparece é pelo porta-voz.

O papel do estilo musical funk é também um elemento que faz parte dessa discussão, pois enquanto demonstra a sua enorme popularidade entre os jovens, que escutam e dançam ao ritmo às letras pouco apropriadas para a idade, a adolescente pastora da comunidade, por sua vez, também se aproveita deste artifício para proferir sermões e espalhar a religiosidade. Sua figura bastante chamativa cala a voz da realidade dos jovens para denunciar preconceitos muito presentes na sociedade. E como a luxuria e a promiscuidade são condutas supostamente condenáveis, todos os personagens começam a exibir feridas e lesões no corpo, como uma reação física ao “pecado”.

É nítido como Anita Rocha da Silveira consegue transmitir o olhar critico a tabus de uma maneira inovadora e maravilhosa. Este é um longa que se não tivesse a sua talentosíssima direção para atuar de maneira precisa e conduzir de maneira eficaz o olhar do espectador, ele não seria um trabalho louvável como o é.  Uma das maiores surpresas deste ano, Mate-me Por Favor simplesmente surpreendeu.

Por admin, 14 de novembro de 2016
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