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Crítica: Martírio (Brasil, 2017)

  • 14 de abril de 2017
  • Por admin
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Crítica: Martírio (Brasil, 2017)
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Direção e roteiro por Vincent Carelli, Ernesto de Carvalho e Tita. Elenco/Entrevistados: Celso Aoki, Myriam Medina Aoki, Oriel Benites, Tonico Benites e comunidades Guarani Kaiowá do Mato Grosso do Sul.

Este documentário realizado por Vincent Carelli e codirigido por Ernesto de Carvalho e Tita, é o resultado de um trabalho de mais de vinte anos que acompanha de perto as frustrações da comunidade Guarani Kaiowá, índios que habitam o centro-oeste do Brasil. Compilando imagens históricas de há mais de cem anos, Carelli, de forma bastante didática, expõe a situação deste povo, o sofrimento, as frustrações e os que mantêm alegres mesmo em tempos difíceis.

Como sabemos dos relatos e das aulas de história nas escolas, não é novidade para nós que o índio habitava nossas terras antes de portugueses e espanhóis chegarem. A partir de Martírio, contudo, vemos que esse objetivo de conquista e dominação em favor da expansão do poder imperialista não mudou o meio de se atingir um fim que agora apenas muda de nome: a expansão econômica e o aumento de lucros pelos produtores rurais. Dessa maneira, os índios que dão início à uma trajetória de constante mortes, chacinas e expulsões de suas terras durante sua história, conseguem datar especificadamente a primeira lembrança onde tudo aconteceu: a Guerra do Paraguai de 1864 a 1870, a qual redefiniu o desenho das fronteiras de Argentina, Paraguai e Brasil até vir a ser determinado para o que conhecemos hoje. Aglomerados principalmente no centro-oeste brasileiro, mais especificadamente no Mato Grosso do Sul, após uma redução bastante considerável de sua população ao longo das décadas, a briga entre fazendeiros e índios realmente alavancou quando Getulio Vargas almejou expandir as terras do oeste brasileiro e investir em infra-estrutura, momento este que contou com a mão-de-obra indiana em troca de terras, cuja promessa nunca veio a se concretizar. Posteriormente, com a ditadura brasileira, vários dos instrumentos de tortura eram utilizados e testados neles. Com a memória viva, Carelli entrevista as próprias vítimas deste período, um lugar em que uma delas declarou que denominavam as prisões de “matadouro de índios”.

Martírio (Créditos: Vitrine Filmes)

Portanto, é possível ver que os diretores apostam em ressaltar a situação de um povo que constantemente se viu privado de suas terras e muito embora tentam e consigam se defender de ataques constantes e vivam ainda sob fogo cruzado, muitas vezes não aguentam as pressões, motivo pelo qual muitos índios se suicidam todos os anos. A chegada da Constituição Federal de 1988 e, por conseguinte, a instauração do Estado Democrático de Direito, foi a oportunidade na qual índios denunciavam o sofrimento e o descaso desde então, e, assim, clamavam por igualdade e reconhecimento de direitos no Congresso Nacional. Porém, Carelli agrupa e junta documentos e imagens transmitidas pela TV Câmera e outras emissoras públicas de televisão mostrando a forma como o governo atual se posicionou diante dessas questões, principalmente a polêmica demarcação de terras para os índios. Com uma distorção da interpretação da redação que inclui os direitos indígenas na Carta Magna, vemos argumentos que baseiam os discursos de ódio que são propagados e milícias que são formadas com o apoio de muitos deputados e membros da Casa, como Katia Abreu, a qual sempre assumiu a frente para os movimentos da agropecuária no Brasil. Impossível, portanto, não nos sensibilizarmos com tal situação. Uma população constantemente taxada simplesmente de “aculturada”, testemunhamos a importância de manter vivos e acolhidos como um verdadeiro “patrimônio histórico” que são os índios – cheio de cultura, riqueza e história. Qualquer um com uma sensibilidade apurada se verá tocado e revoltado pela forma como foram tratados, principalmente ao ver os resultados que as informações completamente falsas acerca de sua população emitidas pelos congressistas (inclusive pelo próprio executivo do Mato Grosso do Sul) geram atitudes de agressão, genocídio e violência sem fim apenas em razão de lucro e enriquecimento e lucro das fazendas. Como resultado, difundem a equivocadíssima impressão que muitas vezes temos dos índios.

Carelli consegue de maneira eficaz e com maestria evocar estes sentimentos, não tomando partido da situação (embora não esconda seu envolvimento e sua opinião), mas ao menos dando voz aos dois lados da moeda para que nós, espectadores, possamos desconstituir e desmitificar várias informações, como já mencionado. Com uma narrativa longa para projetos de formato documental, e com duração de 162 minutos que, infelizmente, as vezes se estende muito em determinados temas, mas que são necessários para este estudo antropológico maravilhosamente bem feito.

E a obrigatoriedade e urgência deste filme é tanta pelo seu caráter histórico e humano, que deverá ser exibido em todas as aulas de história de todas as escolas e faculdades do Brasil.

Por admin, 14 de abril de 2017
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Sobre mim
Gabriella Tomasi
Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. Tradutora e revisora freelance de textos.
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