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Em Suspense

Crítica: Mãe! (Mother!, EUA, 2017)

  • 21 de setembro de 2017
  • Por admin
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Crítica: Mãe! (Mother!, EUA, 2017)
Rating: 5.0. From 1 vote.
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Dirigido e roteirizado por Darren Aronofsky. Elenco: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Michelle Pfeiffer, Ed Harris, Kristen Wiig, Domhnall Gleeson, Brian Gleeson.

Darren Aronofsky é um diretor singular que consegue emergir os sentimentos mais intensos do seu espectador com a sua câmera, trabalhando com uma psicologia profunda do ser humano que é difícil assistir a um filme do cineasta e não sair pensativo dele. Assinando obras como Cisne Negro (2010) e Réquiem para um Sonho (2000), o seu mais novo longa – Mãe! – vai te deixar com sensação de desconforto, vai deixar você inquieto, incomodado e chocado, felizmente no melhor sentido. Porque o que o espectador possui atualmente em relação às obras cinematográficas é conforto: tudo é explicado, didático, mastigado e, portanto, fácil de ser entendido. Se por um lado a indústria de massa permite certos deslizes em prol do entretenimento, por outro lado o sentido do cinema, como sétima arte, começa a se esvair. Cinema é experiência, sensação, provocação por meio da imagem em movimento (e não da fala!), e o que se tem que louvar no resultado de Aronofsky é realmente resgatar todas essas qualidades.

Mãe! é, por conseguinte, um filme de sentidos. Há que se entregar completamente em sua história, e por isso, quem está acostumado com o cinema mais expositivo irá se frustrar, já que a intenção da obra é justamente fazer você pensar, refletir e interpretar o que vê. O diretor abusa dos close-ups e primeiríssimos planos para que nós entremos diretamente ao fundo da realidade de sua protagonista, interpretada por Jennifer Lawrence. Aliás, assim como ela, nenhum dos demais personagens possui nomes, ou uma identidade específica, mas eles são analisados em seu íntimo, em sua essência. 

A trama inicia quando a protagonista então acorda na cama de seu quarto e busca pelo seu marido, um poeta bem sucedido, interpretado por Javier Bardem. O casal vive em uma casa reclusa, calma e arborizada, sem sinal de civilização por perto. Até que um dia, ambos recebem convidados estranhos que interrompem a paz e a harmonia do lugar, e embora o marido seja mais receptivo, sua esposa já interpreta tal ato uma violação de sua privacidade. A partir daí, cada um fará a interpretação que lhe convém, pois o longa em si é muito subjetivo, mas como esta crítica se presta justamente para uma análise, assim o farei conforme o meu ponto de vista pessoal.

Ao longo da narrativa existem várias pistas que posteriormente se encaixam, como o conteúdo de um poema, fotos encontradas, um coração que se corrói por dentro ou um visitante doente que milagrosamente se sente melhor da noite pro dia. A câmera que não desgruda um segundo de Jennifer Lawrence serve não somente para imprimir a sua perspectiva dos acontecimentos, mas também para que o espectador possa sentir o que ela sente, ver o que ela vê, o que é muito eficaz: ficamos bravos, tristes, confusos, claustrofóbicos, agoniados, invadidos e perdidos como ela, por meio dos planos tremidos, desfocados e muitas vezes fora de controle, a depender do caos da situação. Percebemos então como o mundo em sua volta é hostil, perigoso e assustador: a atriz transmite uma insegurança que flerta com a ingenuidade, mas sem perder a força quando se demanda de sua personagem. Todas as pessoas ao seu redor que adentram a sua casa, por sua vez, são abusivas, maliciosas e destroem tudo o que vêem no lar. Mesmo afirmando várias vezes que não se pode roubar ou quebrar os pertences de sua casa ou até mesmo fazer a maior bagunça, o egoísmo e o lado hipócrita dos demais falam mais alto. O que torna inclusive diálogos pontuais muito poderosos e repletos de significado, como, por exemplo: “essa não é a sua casa”; “eu sou a mãe dele”; “isso não é seu”, “eles são estranhos”, “você vai me abandonar?”, entre outros.

Mãe! (Créditos: Paramount Pictures)

Por sinal, é seguro dizer que todo o filme é uma metáfora, não podendo ser nada interpretado de forma literal: Jennifer Lawrence se sente perturbada e sem descanso no seu próprio lar, mesmo doando de si, sendo bondosa, generosa e paciente até certo ponto com os visitantes que chegam em sua propriedade. Da mesma forma, é como a natureza é e funciona. Reparem que os surtos da personagem refletem no ambiente em sua volta: tudo treme ou quebra ou se transforma: Lawrence é a Natureza agindo e reagindo conforme a ação do homem, ou seja, no caso, as pessoas que entram em sua casa. Seu parceiro, por sua vez, demonstra-se muito mais paciente, receptivo e perdoador, implorando para que a amada faça o mesmo. Mas o homem que vem do exterior da casa é perverso, causa guerras, tumultos, morte, violência, estupro, e sua devoção à religião e aos comportamentos tradicionais são exagerados. Notem os cultos realizados e os gestos formais e tradicionais que todos fazem na presença de Bardem, e isso é porque seu personagem representa Deus.

Não necessariamente um Deus católico perfeito e sacro , já que ele se identifica meramente como um criador, mas as pessoas, ou seja, o mundo lhe dá essa identidade cristã (motivando o fato de que a trama inteira faz referência à passagens da Bíblia), essa adoração sem limites que muitas vezes conduzem às pessoas a praticarem atos absurdos e desumanos em nome de sua própria fé, como justificativa. Não é à toa que a (Mãe) Natureza sofre os golpes mais sofridos e as torturas mais repulsivas: seus frutos (ou filhos) lhe são retirados de forma violenta para sustento dos humanos, até que a pressão se torna tão grande que ela acaba revidando sua dor (uma analogia aqui aos furacões, tempestades e terremotos devido à degradação do meio ambiente pelos homens). Assim, ela se vinga daqueles que invadem seu próprio lar sem pedir licença, enquanto Deus insiste que ela deve perdoar. Neste contexto, é interessante inclusive perceber como todos que aparecem em sua casa agem como se fossem donos do local, como se pudessem fazer o que bem entender e a Natureza, na realidade, é que é a estranha do lugar. (E não é assim mesmo que tratamos nosso ambiente natural?). Além disso, aproveitando a imagem feminina, Aronofsky não desperdiça tempo em denunciar a desigualdade, o assédio sexual e a discriminação do gênero somente pelas críticas que se fazem na presença da protagonista em certo momento, como, por exemplo, como ela está vestida (na sua própria casa!), a sua aparência, ou então a forma como ela é agredida pelos outros (física e psicologicamente), e também pelo marido que acaba a negligenciando inúmeras vezes.

Mas longe de se tratar de um filme religioso que prega valores morais impositivos como A Cabana (2017) o fez, aqui a natureza é representada por sentimentos bons, ou seja, uma bondade inata e universal que serve como um contraste para ressaltar os atos mais abomináveis que o homem pratica (e também seus fiéis): ele mata, rouba, destrói, abusa, corrompe sem se importar com o próximo, sem enxergar onde pisa e isso permite que nos simpatizemos com o sofrimento da protagonista para refletir a forma como a sociedade vive atualmente e o que ela se tornou. Nós somos, portanto, os verdadeiros responsáveis pelo caos, falta de compaixão e tolerância. Mãe! é um pesadelo, mas é aquele pesadelo que nós mesmos criamos.

Visceral, sufocante e arrebatador, Mãe! é uma obra-prima atemporal e clássica sobre a degradação de nossa própria existência.

É a forma mais pura de cinema.

Por admin, 21 de setembro de 2017
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