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Em Ação

Crítica: Logan (EUA, 2017)

  • 24 de fevereiro de 2017
  • Por Gabriella Tomasi
  • 4 Comentários
Crítica: Logan (EUA, 2017)
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Dirigido por James Mangold. Roteirizado por Michael Green, Scott Frank, James Mangold. Elenco: Hugh Jackman, Dafne Keen, Patrick Stewart, Richard E. Grant, Boyd Holbrook, Stephen Merchant, Elizabeth Rodriguez.

Quando somos crianças ou até mesmo em nossa adolescência, carregamos até a nossa fase adulta a ideia de que os filmes de super-heróis são aquelas super produções com muita ação e muitos efeitos especiais, que tratam de mocinhos com muitos poderes sobrenaturais que devem impedir muitos vilões de destruir ou dominar o mundo. Diferentemente, Logan, a última aparição de Hugh Jackman nos cinemas como o mutante Wolwerine de X-Men, traz a nova possibilidade de uma linda abordagem intimista de estudo deste personagem, que durante décadas o acompanhamos, com o intuito de dar um desfecho à sua história.

Neste sentido, encontramos um Wolwerine no ano de 2029, que às vezes mal consegue se levantar quando cai, frequentemente ofegante, envelhecido e com a sua saúde comprometida (reparem especialmente nos ferimentos e nas garras já um pouco deformadas). Tentando ao máximo proteger e cuidar de Charles Xavier (Stewart), cuja condição física se revela pior ainda que a de seu companheiro, na medida em que percebemos a magnitude de sua vulnerabilidade quando o professor mal consegue conter suas habilidades psíquicas sob controle, ambos encontraram refúgio em uma propriedade perto da fronteira mexicana, onde convivem com outro mutante, Caliban (Merchant). Os tempos são outros, esse aspecto é visível. Em uma sociedade na qual os mutantes se deram como praticamente extintos, a figura calejada de ambos personagens denotam não somente os anos que viveram (porque o longa tem bastante consciência de toda a história anterior dos X-Men), mas também por tudo o que passaram, todo o sofrimento, e tantas pessoas queridas perdidas (Logan diz em certo momento: “Eles não estão mais aqui”). Com isso, é notável e natural que carreguem um desgaste emocional e físico enorme que para eles se revestem como um fardo em suas costas, o qual é inclusive refletido nas incontáveis cicatrizes pelo corpo e no andar mancado de Logan.

Fato é que sabemos como o protagonista sempre buscou evitar se meter em conflitos ou se envolver em relacionamentos sejam eles de amizade sejam de amor, preferindo o seu isolamento para se ter paz. Neste caso, é o que motiva o protagonista a recusar a atender “auxílios” dos personagens que entram em cena como Gabriela (Rodriguez) e Donald (Holbrook). Mas ele também possui plena consciência o quão inevitável o seu envolvimento se torna, o que acontece com a presença da pequena Laura interpretada pela talentosíssima Dafne Keen, e por quem simpatiza. Uma menina que choca pelos instintos e olhar agressivos que contrastam com sua pouca idade, mas nos encanta com o senso de descobrimento de sua feminilidade e infância. Neste aspecto o roteiro não apenas amplia o arco dramático do personagem-título que já é familiar aos fãs, assim como dramatiza a narrativa de forma eficaz. Um dos poucos momentos em que isso falha se traduz em um vídeo desnecessário e expositivo de um problema que, inclusive, não é nem enfrentado, se revelando em uma escolha infeliz que insiste em ser destacada pelo fato de Logan ainda comprar um carregador para continuar vendo seu conteúdo. Aí se roubam alguns valiosos minutos do espectador.

Dafne Keen e Hugh Jackman em Logan (Fotos por IMDb)

Excetuando este tropeço narrativo, ainda que aqui não se trate de uma missão universal, a fim de salvar bilhões no mundo inteiro de um mal como, apenas para citar alguns de tantos exemplos, em X-Men: Apocalipse ou até X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido, não significa que em Logan não existam cenas de ação como tanto apreciamos ver o herói fazendo uso criativo de suas garras. Pelo contrário, ainda que o ambiente seja mais íntimo, há muito mais violência e uma busca intensa por sobrevivência que funciona extremamente bem. Transparecida pelos planos acelerados com cortes bastante precisos, e, ainda, muito uso da câmera subjetiva pelo diretor Mangold, tornando palpáveis o senso de perigo e urgente das lutas. A mise-en-scène é acompanhada também pela maravilhosa fotografia, a qual, por sua vez, emprega em sua maioria os tons pastel amarelo e laranja das terras mexicanas, além da poeira. Em outros momentos alterna para tons frios e escuros com contrastes fortes e poucos feixes de luz, muitas vezes em cor vermelha ou laranja para complementar a violência das cenas ou de suas expressões faciais. Para completar, as lindas composições e música da trilha sonora de Marco Beltrami que casam perfeitamente com as cenas, em especial ao adicionar sons de gaita (lembrando as harmonias de Era Uma Vez no Oeste) para dar vida ao gênero de filmes faroestes que é simplesmente magnífico e dão novos ares aos filmes de ação.

Por sinal, a utilização do referido instrumento é extremamente pertinente, já que em Logan podemos notar uma incrível referência ao clássico Os Brutos Também Amam de 1953, o qual trata-se de um pistoleiro que vê sua tranqüilidade no campo interrompida por vilões que ameaçam pessoas com quem se importa. Qualquer semelhança não se trata nem um pouco de mera coincidência, já que sabemos muito bem que Logan, apesar de “bruto” por fora, possui muitos sentimentos no seu interior, o que o protagonista não consegue esconder no seu olhar nostálgico e esgotado de seu olho avermelhado.

Logan, portanto, é uma obra sobre o âmago do personagem-título, uma investigação sobre como tanta experiência vivida pode ser ao mesmo tempo uma maldição, pois ser um super-herói é doar muito mais de si do que se imagina. É tornar aquela figura invencível e intocável que tínhamos em nossa mente, em um ser humano com virtudes, medos e fragilidades.

É o Wolwerine que os fãs tanto queriam ver aqui com profundidade e ternura, sem fórmulas clichês ou situações previsíveis, como costumeiramente era tratado. É uma maravilhosa homenagem que, se por um lado pode acabar uma história, por outro lado pode ser o começo de um futuro para novos X-Men. E por que não apostar na ideia?

Por Gabriella Tomasi, 24 de fevereiro de 2017 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.
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Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

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