Voltar para Página principal
Em Cinebiografia

Crítica: Lion: Uma Jornada para Casa (Lion, EUA/Reino Unido/Austrália, 2017)

  • 20 de fevereiro de 2017
  • Por admin
  • 5 Comentários
Crítica: Lion: Uma Jornada para Casa (Lion, EUA/Reino Unido/Austrália, 2017)
Rating: 3.0. From 1 vote.
Please wait...

Dirigido por Garth Davis. Roteiro por Luke Davies. Baseado no livro A Long Way Home por Saroo Brierley. Elenco: Dev Patel, Rooney Mara, David Wenhamm, Nicole Kidman, Sunny Pawar, Divian Ladwa, Abhishek Bharate.

Lion gira em torno da história real relatada por Saroo Brierley em seu livro intitulado A Long Way Home e depois adaptado ao roteiro de Luke Davies, o que torna a inclusão do subtítulo na língua portuguesa bastante pertinente. O empresário australiano, de origem indiana, tornou-se conhecido mundialmente por ter se perdido de seu irmão em uma estação de trem em Calcutá quando tinha apenas 5 anos de idade, sendo posteriormente adotado por uma família australiana e, aos 25 anos de idade ter reencontrado sua mãe biológica, por meio de pesquisas feitas no Google Earth.

Portanto, a fim de contar a jornada de nosso protagonista aqui interpretado por Dev Patel e o pequeno talentosíssimo Sunny Pawar, o roteiro se divide basicamente em dois momentos: o período convivido com sua família até a adoção e o outro, já adulto, quando inicia as buscas do paradeiro da família biológica.

O longa começa muito bem e é mais eficiente nesta primeira parte. A fotografia é o ponto forte do filme, a qual foi engenhosamente utilizada ao adicionar cores de tons amarelo que servem, mesmo na fase adulta do protagonista como lindas rimas visuais, para que possamos compreender e ter consciência do mundo no qual Saroo está inserido: a total miséria que sofre, mas ainda assim vivida com certa alegria. Quando chegamos ao momento em que Saroo aguarda seu irmão na estação, as sombras e a escuridão tomam conta do plano e, inclusive, do rosto do pequeno como se estivesse sendo engolido pelo abandono. Posteriormente, as cores frias o seguem até o momento em que chega de trem na cidade de Calcutá. As fumaças, o ambiente caótico, os ruídos de motores de carros, de pessoas falando, o trem que sempre segue ao fundo e, um dos momentos mais incríveis que concretizam a sensação de dificuldade a retornar à casa é quando Saroo olha para as centenas de linhas de trens entrelaçadas, dando a sensação do labirinto que para ele aquilo representa à sua pouca idade.

Lion: Uma Jornada para Casa (Fotos por IMDb)

Mas ainda que seja imaturo para certas coisas, Saroo demonstra uma inteligência incomum ao sobreviver tanto tempo sozinho, sem comida ou rumo. A cena em que ele encontra outras crianças abandonadas no metrô, apenas para logo em seguida presenciá-las serem, assim como ele, atacados por adultos, é mais uma das situações que o protagonista consegue escapar e, em outras, prever antecipadamente o perigo que corre para agir. Por sinal, a situação é também pertinente, a fim de demonstrar um grande problema da Índia que é ao final exposta nos letreiros finais do longa: o crescimento do abandono de crianças no país. A narrativa permite igualmente que nós possamos identificar a magnitude disso em cenas, não somente a que mencionei, mas também quando vemos a possibilidade do tráfico ou do confinamento delas em lares que possuem estruturas parecidas a “cadeias”, sem qualquer amparo digno à elas.

Após a adoção de Saroo, a elipse dá um salto de 20 anos aproximadamente e o personagem é substituído pelo ator Dev Patel, já iniciando sua vida acadêmica e independente na universidade. Embora conferirem o mesmo cuidado com a fotografia e na direção de Davis, o roteiro não consegue desenvolver a fase adulta do protagonista. Os elementos em torno do personagem Saroo ficam dispersas, superficiais, clichês e sem sentido. Como por exemplo, o seu envolvimento amoroso com Lucy (Mara) que além de ser completamente descartável, apenas serve para inflar a dramaticidade da narrativa. Outro que mais importante é deixado de lado é a definição do relacionamento com seu irmão adotivo Mantosh (Ladwa), o qual sequer é desenvolvido. É notável como ambos se comportam como praticamente estranhos um do lado do outro, o que deixa ainda momentos de ternura por Saroo se tornarem quase artificiais. Os conflitos internos, ainda, são como se fossem gratuitamente colocados em tela em favor de um melodrama. O único momento em que tal abordagem se justifica é aquele com sua mãe adotiva Sue (Kidman) e as alucinações sofridas pelo personagem. Além disso, com uma decupagem episódica e ao mesmo tempo o emprego de cortes rápidos, o ritmo da narrativa se torna cada mais acelerado em meio ao segundo ato quando o protagonista inicia a tal investigação: compra de marca-textos, desenhando mapas, fazendo cálculos, e o vai-vem com sua namorada, que prejudicam a naturalidade e da intensidade das buscas feitas por Saroo.

Contudo, felizmente, o filme consegue se recuperar na medida em que alterna planos com as memórias e os locais percorridos por Saroo no Google Earth ou até mesmo depois presencialmente. É como se sua memória sensorial perdida fosse despertada e aqui a direção de Davis foi essencial para capturar cada movimento, o plano-detalhe das mãos entre as casas, os lindos planos executados dos campos e dos trilhos do trem.

Lion é uma obra que ainda cumpre seu papel em ser emocionante, mas seus equívocos em sua narrativa impedem que a jornada fosse mais profunda do que deveria ser.

Por admin, 20 de fevereiro de 2017
  • 5
5 Comments
  • RADHARANI
    21 de fevereiro de 2017

    Gabriella ainda me sinto altamente comovida pela beleza, dureza, pureza do filme. Eu morei 8 meses na India com certeza, o filme chega de outra forma em mim. pois me permito apreciá-lo com o coração e uma certa propriedade de conhecer um pouquinho da realidade tratada no filme que pra mim, é isso o mais importante nesse filme. As crianças abandonadas da India . Viajar nos faz entender a vida de forma diferente e com certeza sentí-la com mais profundidade.

    • admin
      21 de fevereiro de 2017

      Olá Radharani, obrigada pelo comentário.
      Com certezas nossas experiências pessoais influenciam a forma de enxergar um filme. A história, os problemas, tudo é realmente muito comovente em Lion. Minha restrição em relação a ele, como já exposto, é na parte da composição técnica, que, como crítica, devo avaliar.
      Abraços.

  • Diná Campos
    23 de fevereiro de 2017

    Ontem assisti o filme. Já tenho uma outra perspectiva do filme, pois sou uma mãe que fui adotada por uma criança. O filme é muito emocionante, e cada criança traz consigo sua história de abandono, diferente do da minha filha… muito forte esse prosseguir da vida para uma criança de 5 anos e depois a busca e reencontro com sua mãe biológica. Recomendo a todos, um filme suave, fotografia impecável, e ator principal “um Gato”…palmas a todos envolvidos

  • Juliana Conceição de Oliveira
    16 de junho de 2017

    Engraçado. Lendo a crítica do filme,concordo com algumas coisas, especialmente com a opção dos diretores /produtores, de não explorarem a relação dos irmãos adotados.
    Mas interpreto que não é o foco do filme. Não é a história de Lion.
    Enfim, li a crítica depois de ver o filme. E continuo com a minha: filme maravilhoso!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verificação de Segurança *

Encontre-nos no instagram

@iconedocinema