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Crítica: Laerte-se (Brasil, 2017)

  • 23 de maio de 2017
  • Por admin
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Crítica: Laerte-se (Brasil, 2017)
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Direção por Lygia Barbosa da Silva, Eliane Brum. Roteiro por Raphael Scire, Lygia Barbosa da Silva, Eliane Brum (com a colaboração de Nani Garcia). Elenco: Laerte Coutinho

Laerte-se é o mais novo e pioneiro documentário brasileiro disponível na plataforma Netflix que acompanha os passos da mais famosa cartunista e chargista do país, Laerte Coutinho, responsável pela criação de tirinhas e charges como Overman, Suriá – A Garota do Circo, e Hugo para Principiantes. Em 2009, quando tinha 58 anos de idade, Laerte assume a sua identidade transgênica, e apoiando-se nisso, as diretoras Eliane Brum e Lygia Barbosa da Silva exploram o lado intrínseco dessa jornada e o que ela representou para a artista, a fim de quebrar preconceitos em relação ao movimento LGBT, em geral.

Essa abordagem é claramente visível nos minutos iniciais onde se mostra uma conversa por e-mail que ocorreu entre a cineasta Eliane e Laerte para combinar novamente um encontro e terminar o documentário. Laerte já demonstra certo desconforto em se expor, hesitando inicialmente em aceitar a continuidade das filmagens, provavelmente por receio ou medo de eventual hostilidade em relação ao tema e à sua pessoa com a distribuição do filme, porém Eliane a convence de que é extremamente importante usar a sua voz e sua figura pública como uma maneira de auxiliar a quebrar os preconceitos ainda existentes, pois postergar significaria “engrandecer os monstros”.

Laerte-se (Créditos: IMDb)

 

Por isso é tão essencial a discussão. A insegurança de Laerte apenas representa talvez como uma grande parte dessa comunidade ainda se sente. Dessa forma, a proximidade e o viés intimo com que trabalham as cineastas na execução do longa torna perceptível o carinho com que tratam o tema e principalmente em relação à Laerte, para que ela se sinta mais confortável possível, sempre acompanhando a artista em sua casa, em seu bairro, em atividade diárias, interagindo com seus netos, filhos, gatos, observando de perto seu trabalho em fotografia, pintura e desenho, a fim de garantir essa sensação de aconchego, e que estamos em um lugar seguro onde podemos debater livremente sobre os mais variados assuntos. Arquivos pessoais de fotos e vídeos se mesclam com imagens animadas de suas tirinhas incorporam a narrativa que são utilizados para refletirem tanto o estado emocional escondido em Laerte, quanto suas opiniões sobre política e sociedade que enriquecem o discurso da protagonista em relação à sociedade, à transexualidade, suas “consequencias”, ou em outras palavras, a repercussão em geral do público e a receptividade de seus familiares, colocando em xeque a pífia tentativa de busca pela explicação biológica com a questão íntima dos anseios. Curioso igualmente é observar pelo testemunho de Laerte e suas provocações às próprias burocracias e “regras” impostas pela própria comunidade da qual faz parte, o que vai muitas vezes na contra-mão da sua vontade, por exemplo, a “exigência” de Laerte possuir seios.

É extremamente importante que obras como essa sejam apresentadas e que histórias como essa sejam ouvidas para dissipar o preconceito e os pré conceitos em torno do assunto. Muito menos do que determinar ou procurar explicar cientificamente, o fundamento é abraçar as pessoas e ouvir seu interior. É dar-lhes o espaço para entrar em contato com a feminilidade (ou masculinidade) sem que o gênero definido biologicamente seja o parâmetro para nossa identidade. Essa é uma das lições mais importantes que, embora Laerte as transmita com certa timidez, é o suficientemente impactante para desconstituir as visões tradicionalistas.

Laerte-se é um ótimo começo para debater sobre um dos assuntos que ainda calam muitas pessoas, para dar exemplo e voz a um movimento que demanda nada mais e nada menos que o respeito entre seres humanos.

Por admin, 23 de maio de 2017
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