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Em Drama

Crítica: Lady Macbeth (Reino Unido, 2017)

  • 15 de agosto de 2017
  • Por admin
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Crítica: Lady Macbeth (Reino Unido, 2017)
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Dirigido por William Oldroyd. Roteirizado por Alice Birch. Baseado no livro Lady Macbeth of the Mtsensk District por Nikolai Leskov. Elenco: Florence Pugh, Cosmo Jarvis, Paul Hilton, Naomi Ackie, Christopher Fairbank

Nesta película de época, temos a brilhante e envolvente adaptação literária executada por Birch, na qual acompanhamos a realidade da aristocracia vivenciada pelos olhos e pela mente de Katherine (Pugh), que foi comprada junto com um pedaço de terra para se casar com o rico – e muito mais velho – Boris (Fairbank), tão somente por motivos de interesse. No entanto, a jovem de 17 anos acaba sendo atraída por um dos empregados da mansão, chamado Sebastian (Jarvis), cuja obsessão levará a uma série de atos para tentar ficar junto de seu amado.

Com um excelente design de produção, no qual se recria perfeitamente o cenário dos cômodos e o figurino dos personagens do século 19, percebemos o quanto ser mulher naquele período significava, principalmente pelas exigências que a alta casta societária exigia de seu comportamento enquanto casada. Assim, desde o início denotamos o extremo desconforto e a claustrofobia que aquele ambiente gera em Katherine: é o tédio de não fazer nada; o cansaço apenas para esperar o marido voltar de um jantar; os abusos e a falta de amor por parte de seu novo marido, entre outros. O diretor Oldroyd possui uma condução de câmera totalmente minimalista, mas com enquadramentos extremamente precisos e sempre geométricos, a fim de refletir um mundo completamente sem liberdades para uma mulher e ao mesmo tempo regrado e controlador, especialmente pela presença do sogro da protagonista, o qual passa a exercer um papel de patrão durante a ausência de seu filho. Afinal, ela passa a ser vista como parte da propriedade dos personagens masculinos em sua volta.

Deste modo, o cineasta permite que seus personagens ditem  seus sentimentos por meio da mise-en-sène. Não é à que Katherine se aproveita dessa “liberdade temporária” em consequencia de uma viagem realizada pelo marido, no qual ele passa bastante tempo longe de casa. Então, é nos pequenos gestos iniciais em que vemos a protagonista gradualmente se sentir a vontade, como abrir a janela escondido para sentir o ar puro ou em outros momentos mais significativos nos longos passeios pelos vastos campos filmados em planos gerais, com o cabelo solto e roupas mais confortáveis (livres do agonizante espartilho), e, inclusive, em uma fotografia bem mais terrosa do que as cores frias da mansão, com o intuito de reforçar essa emancipação buscada por ela. Neste contexto, o romance extraconjugal com o mestiço Sebastian surge, um homem tão simples que provavelmente a atração de Katherine seja presumidamente advinda de certa maneira por uma identificação com suas origens, mas não sabemos essa informação ao certo. Contudo, a tal almejada liberdade vem com um custo muito alto, uma vez que a traição pouco mascarada não passa despercebida pelos demais empregados da casa, em particular a escrava Anna (Ackie), a qual é a mais afetada pelos atos da protagonista. Assim, notamos gradualmente uma personalidade cada vez mais sombria desta.

Lady Macbeth em trajes roxo e cinza em meio a uma fotografia em tons de marrom para ressaltar o caráter sombrio da personagem (Créditos: California Filmes)

Anna, por sua vez, é uma personagem muito impactante e interessante. Como escrava, naturalmente naquela época era constantemente abusada e humilhada, e inclusive em certo ponto da trama é ironicamente perseguida por Katherine, outra mulher, a qual vê na empregada uma possível ameaça diante de tudo que testemunha na casa, e ainda é forçada a esconder toda a frustração e angústia pelas situações que passa. Dessa maneira, as opressões passam a ter um efeito cada vez mais delirante, não somente em Anna, a qual posteriormente perde a voz quando denota o rumo que sua vida toma pelas ações de sua “dona”, mas também por Sebastian, o qual cada vez mais percebe estar caminhando em direção ao fundo do poço. O desfecho de ambos personagens, por sinal, concretiza tudo isso de forma maravilhosa, e fortalece o poder dos mais ricos sobre os mais pobres.

No entanto, o fato de Katherine realizar os atos mais cruéis e grotescos advém em razão de uma vontade de escapar das opressões daquela época, de se sentir feliz na própria pele e ter mais controle sobre sua vida, de modo que o espectador apesar de repugnar as atitudes da protagonista, entende perfeitamente os motivos por trás delas. E o fato de que a sua condição vitimizada é aqui subvertida de uma maneira brilhante e inteligentemente espelhada em O Estranho Que Nós Amamos por Sofia Coppola, principalmente no que tange em uma referência da versão original, na qual vemos uma cena onde cogumelos são colhidos na floresta como uma pista plantada durante a narrativa.

Por fim, Lady Macbeth é um daqueles filmes que causa um desconforto, e ao mesmo tempo, do qual é difícil tirar os olhos.

Emocionante e de tirar o fôlego.

Texto originalmente publicado pela autora em coluna para o site Cabine Cultural

Por admin, 15 de agosto de 2017
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Sobre mim
Gabriella Tomasi
Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. Tradutora e revisora freelance de textos.
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