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Em Drama

Crítica: Jackie (EUA, 2017)

  • 7 de fevereiro de 2017
  • Por admin
  • 1 Comentários
Crítica: Jackie (EUA, 2017)
Rating: 4.5. From 1 vote.
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Dirigido por Pablo Larraín. Roteirizado por Noah Oppenheim. Elenco: Natalie Portman, Peter Sarsgaard, Greta Gerwig, Billy Crudup, John Hurt.

O ex-presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy exerceu seu mandato durante os anos de 1961 a 1963, ou seja, um pouco menos de 3 anos, antes de seu assassinato por dois disparos em meio à uma visita política com sua esposa, para a sua campanha de reeleições. Justamente por ter sido um evento público e, portanto, televisado ao vivo na época, a morte de John Kennedy ganhou alta repercussão e foi um choque para a sociedade norte-americana. Ao longo dos anos, muito tempo se falou e comentou sobre sua trajetória e seu falecimento repentino, mas até o presente momento, o impacto desses eventos nunca fora exposto (como agora) através da intimidade de Jacqueline (Jackie) Kennedy.

Como todos devem saber ou saberão a partir da reconstrução dos eventos no filme, Jackie (Portman) estava presente no carro que percorria a visita comitiva e, portanto, presenciou de perto (literalmente) o brutal assassinato de seu marido. Dessa forma, o longa faz um inédito e instigante estudo sobre a personagem-título e como os eventos subseqüentes impactaram sua vida, especialmente pelo fato de Kennedy ter sido uma figura política.

Dessa forma, a decupagem do roteiro de Oppenheim recria três eventos diferentes da vida de Jackie: a entrevista que a protagonista concedeu ao repórter da revista LIFE, Theodore H. White (Crudup), uma semana após a fatalidade; os eventos que sucederam à morte de seu marido até o seu funeral e, igualmente, uma conversa da já viúva com um padre interpretado por John Hurt, que funcionou como uma espécie de terapia ao levantar questionamentos, reflexões e, ao mesmo tempo, exteriorizando aqueles sentimentos que em situações semelhantes surgiram uma vez ou outra em nossas vidas tornando, portanto, momentos extremamente relacionáveis.

A montagem, ao juntar todas essas peças do roteiro, foi bastante habilidosa em organizar os referidos eventos em forma de flashbacks dentro de flashbacks em uma narrativa não-linear que funcionou muito bem, tendo como base as memórias (e pelo subjetivo) despertadas na protagonista a partir da própria entrevista já mencionada.

O interessante desta obra, é que o 35º presidente norte-americano foi certamente mais conhecido por sua morte do que por seus feitos durante seu mandato, os quais inclusive são questionáveis até a presente data, principalmente em relação às suas decisões com o governo de Castro em Cuba. Esse é um fato que a trama tem plena consciência, de modo que aborda a necessidade de Jackie em construir um legado, um mito da história política do país, ressaltando, por conseguinte, inúmeras vezes por ela e seu cunhado Bobby (Sarsgaard) o quanto eles simplesmente não tiveram tempo para fazer a diferença no governo. Esse ângulo se torna mais evidente ao comparar presidentes que foram mortos em seu mandato e como Abraham Lincoln foi o único que restou na memória da população, visto que foi o responsável por abolir a escravidão.

Jackie (Fotos por IMDb)

Porém, o mais impactante é justamente a personagem que é investigada aqui, inicialmente retratada tal como vista pela sociedade: uma primeira-dama que se ocupa do lar. Embora ela realmente tenha uma ligação emocional com o lugar, devido ao seu caráter histórico, é nítido o seu desconforto ao fazer um “tour” televisivo da Casa Branca ou em outros momentos, como sua hesitação ao descer do avião para uma aparição pública. Essa exposição muitas vezes forçada ao mundo é retratada de maneira excepcional em rimas, executada pela direção do chileno Larraín, quando vemos a protagonista diante de uma enorme janela na Casa Branca, ou o reflexo de toda a população na janela do carro. Percebemos, assim, ao longo da narrativa, que ela é muito mais do que a forma como ela é vista perante os olhos dos outros. Ela é um símbolo de empoderamento em meio a um ambiente masculino, presente nos casos em que ela tenta prevalecer suas vontades em respeito a seu marido, mas sem sucesso, ou ter que presenciar a posse do vice horas depois da tragédia. Da mesma forma, é um símbolo de força, ao ter que lidar com inúmeras burocracias e pressões, como, por exemplo, apressar sua mudança da Casa Branca, ao mesmo tempo em que tem que enfrentar a dor da perda, o evento traumatizante e transmitir a terrível notícia aos seus filhos pequenos.

Deste modo, Larraín não desgruda um segundo de Jackie, enquadrando o rosto da atriz em (um pouco excessivo) close-ups e travellings ao seu redor, a fim de criar uma atmosfera agonizante e claustrofóbica da personagem e, em um contraste maravilhoso, opta por outras vezes isolá-la em meio ao plano, utilizando, para tanto, uma profundidade de campo reduzida ou então planos abertos, para projetar a solidão de Jackie de costas ou de frente em ambientes espaçosos como no cemitério, no avião ou na própria Casa Branca, a fim de enaltecer a sua fragilidade. Sua direção, por conseguinte, cria momentos icônicos como o caminho percorrido pela protagonista em seu famoso terno rosa ensangüentado; o sangue correndo pelas costas durante o banho; os inúmeros túmulos organizados geometricamente; e o contra-plongée do rosto de Portman coberta pelo véu esvoaçante.

Com uma fotografia igualmente maravilhosa e competente, o contraste também é presente quando o cinematógrafo francês Stéphane Fontaine (Elle, Capitão Fantásico) emprega em alguns momentos o grão mais grosso e tons pastéis da textura da película 16mm e recria, desta maneira, o tom documental com sobreposição de planos filmados e das imagens reais televisivas na época, assim como emprega em outras vezes o tom estético e artístico ao intercalar as cores quentes das festas e ambiente aconchegante da Casa Branca com a paleta cinzenta e fria do funeral de Kennedy.

E para completar esta obra rica e inteligente, nós temos a trilha sonora com violoncelos pesados e outros instrumentos de corda que auxiliam a representar as dores internas da protagonista. O som se torna ainda mais importante à narrativa, com as dublagens reais de Kennedy e entrevistadores, mas principalmente, pela sua versão de Camelot, todos incorporados à diegese do longa, simbolizando tudo o que seu casamento e o período da presidência de John Kennedy lhe representou intimamente.

Jackie, portanto, traz uma homenagem sincera e um olhar humano à esta personagem, cuja imagem, historicamente, sempre foi julgada de alguma maneira pela população e merece cada indicação para concorrer ao Óscar da Academia.

Por admin, 7 de fevereiro de 2017
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