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Em Terror

Crítica: It – A Coisa (It, EUA, 2017)

  • 6 de setembro de 2017
  • Por admin
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Crítica: It – A Coisa (It, EUA, 2017)
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Direção por Andrés Muschietti. Roteiro por Andrés Muschietti, Gary Dauberman, Cary Fukunaga, Chase Palmer, David Kajganich. Baseado em  It por Stephen King. Elenco: Bill Skarsgård, Jaeden Lieberher, Jeremy Ray Taylor, Sophia Lillis, Finn Wolfhard, Jack Dylan Grazer, Chosen Jacobs, Wyatt Oleff, Owen Teague.

Uma das obras mais famosas de Stephen King que certamente foi a marca registrada do escritor é o famoso palhaço assassino Pennywise. Em 1990, quando a primeira versão cinematográfica apareceu estrelando Tim Curry, o ator nos impressionou como uma atuação impecável que transitava muito sutil e naturalmente suas feições entre o inofensivo e a malícia do vilão. Vinte e sete anos depois de sua estréia mundial no cinema é até natural que um remake ou um reboot fosse executado aproveitando a onda de refilmagens que atualmente estamos presenciando, como A Bela e a Fera (2017), A Múmia (2017), Ghost In The Shell (2017), e Kong: A Ilha da Caveira (2017).     

IT: A Coisa dirigido e também com participação no roteiro pelo argentino Andrés Muschietti, já familiar ao gênero terror, parece que bem compreendeu o sentido e a mensagem do livro de King e, neste aspecto, a versão atual acaba superando e muito o seu antecessor, como, por exemplo a forma em que a narrativa fora estruturada: se em 1990 a história ia e voltava no tempo em flashbacks, contando as lembranças de pessoas adultas que, quando crianças foram aterrorizadas por um assassino em roupa de palhaço, mas devido a um pacto de sangue tiveram que se reunir novamente com o retorno do vilão; a atual, em contrapartida, se foca apenas na infância desses personagens, em estilo “coming of age”, possibilitando uma nova sequencia para explorar a fase adulta e madura deles.

Porque a obra literária de King é muito mais do que mortes por um palhaço. Ao contrário, este é um filme sobre medos, angustias e tristezas em um mundo cercado de violência e opressão. Neste sentido, Muschietti entendeu que para tanto seria necessário explorar a realidade brutal da juventude e cada um de seus protagonistas, o que de fato o faz: o gago Bill Denbrough (Lieberher), o gordo Ben Hascom (Taylor), a menina Bev Marsh (Lillis), o falastrão Richie Tozier (Wolfhard), o negro Mike Hanlon (Jacobs), o hipocondríaco Eddie Kaspbrack (Grazer) e o judeu Stan Uris (Oleff). O grupo auto-intitulado “O Grupo dos Perdedores” enfrenta, por conseguinte, problemas muito delicados como o bullying, a pedofilia, a violência doméstica, o racismo, sexismo, o preconceito religioso e estético. Assim sendo, Pennywise (Skarsgård) não é simplesmente um palhaço, ele é muito mais que isso: ele é a reencarnação dos medos de cada um, e se alimenta deste sentimento para se manter presente na vida dos jovens, devendo eles, portanto, lidar com seus próprios problemas. Ainda que alguns não se resolvam em sua plenitude, como a insegurança de Ben e a mãe super protetora de Eddie, é maravilhoso observar a maneira como cada um amadurece a partir de suas próprias experiências.

IT: A Coisa (Créditos: Warner Bros.)

Os “truques de palhaço” de Pennywise, por sua vez, ganham aqui uma nova dimensão e traduzem tanto em criatividade quanto originalidade, fazendo com que o “humor” inerente ao artista de circo comum seja divertido e ao mesmo tempo assustador: a televisão acesa mostrando um programa infantil sem pretensão nenhuma se transforma em um instrumento hipnótico; o jogo com três portas que dois personagens, para escapar do inimigo, devem escolher entre “assustador”, “pouco assustador” e “muito e muito assustador”; as risadas lembram a característica psicótica de O Coringa e; as diferentes formas que Pennywise assume para concretizar os medos mais íntimos de todas as crianças executa bem a metáfora em relação à maldade no mundo que o antagonista representa. Portanto, o palhaço na realidade se torna uma entidade sobrenatural que possui um prazer enorme na dor e insegurança de suas vítimas, conferindo um real sentido para denominá-lo de “a coisa”.

O fato de que os roteiristas captaram e trabalharam essa essência é maravilhoso, tendo em vista que ao longo de décadas Stephen King fora pouco reverenciado em péssimas e vergonhosas adaptações como, A Colheita Maldita (1984) e O Cemitério Maldito (1989). Da mesma forma, é possível apreciar os pequenos momentos que fazem homenagem ao estilo do escritor mediante recursos metalinguísticos como, por exemplo, a menstruação de Bev que indica as transformações físicas típicas da idade, além de o banho de sangue no banheiro, os quais fazem referência à Carrie – A Estranha (1976) e dialogam, por conseguinte, perfeitamente com a noção de pecado, sexualidade e violência vivenciados pela jovem. No entanto, há um grande exagero e ultrassexualização desnecessária em torno de sua única personagem feminina, a qual embora realmente seja afetada pelo machismo e pelos abusos do pai, acaba sendo prejudicada por uma extrema falta de coerência e verossimilhança quando Bev joga seus charmes para um senhor dono de farmácia que baba na menina (!!!); ou a iluminação branca que exalta o seu corpo quando retira seu vestido para pular na água; ou o beijo do amado que tira a “bela adormecida” de sua maldição. Bev é feminina, mas é tão moleca quanto os seus colegas, sendo de mau gosto a forma como fora desenvolvida.

Com um design de produção impecável que ambienta sua época muito bem na pacata cidade de Derry em Maine, muitos elementos transitam entre o fantasioso e o real quando eventos extraordinários invadem o cotidiano das crianças, e isso é muito bem transparecido como, por exemplo, um balão que passa despercebido por adultos; o histórico de desaparecimento de pessoas na cidade; o “show de horrores” de Pennywise para Bev e; a nova versão do palhaço que toma dimensões de uma entidade maligna e é tão assustadora quanto a versão de 1990. No entanto, a fotografia em uma paleta cinzenta complementa as cores sem vida do figurino do palhaço (salvo pelos intensos tons em vermelho que se destacam), ao invés das cores vivas e alegres de seu vilão antecessor e o design colorido funciona muito melhor como uma maneira de subverter a própria imagem. Mesmo assim, Bill Skarsgård na pele de Pennywise parece se divertir com o humor e as crueldades que seu personagem pratica, fazendo um trabalho tão competente e convincente quanto Tim Curry.

Diante de incríveis acertos e alguns tropeços, It: A Coisa merece um saldo positivo, pois evoca tudo o que deveria para uma adaptação honesta e fiel à obra de Stephen King.

Sim, Pennywise irá voltar, este é apenas o primeiro capítulo. E nós mal podemos esperar.

Por admin, 6 de setembro de 2017
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