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Crítica: Irrepreensível (Irréprochable, França, 2016) | My French Film Festival

  • 26 de janeiro de 2017
  • Por admin
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Crítica: Irrepreensível (Irréprochable, França, 2016) | My French Film Festival
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Dirigido e roteirizado por Sébastien Marnier. Elenco: Marina Foïs, Jérémie Elkaïm, Joséphine Japy, Jean-Luc Vincent.

A história desse longa-metragem gira em torno da vida de Constance (Foïs), uma mulher de 40 anos que mora em um bairro elegante de Paris. Vestida em roupas de luxo, notamos que, nos primeiros minutos de projeção, ela é forçada a sair de seu apartamento e retornar à sua cidade natal, visto que também se encontra desempregada. Conforme a narrativa progride, percebemos que a personalidade da protagonista revela-se cada mais vez mais complexa e multifacetada do que presumimos.

Com a pensão do governo que recebia acabando, a corretora de imóveis tenta ser readmitida na agência onde uma vez trabalhou. No entanto, a recepção não é tão acolhedora assim: seu ex-chefe Alain (Vincent) ainda não superou a decisão repentina da protagonista em largar tudo e tentar a vida em Paris, enquanto seu ex-namorado e ex-colega de trabalho Philippe (Elkaïm) tampouco esqueceu do abandono. Mesmo com as tentativas deste último em ajudá-la a recuperar seu emprego, Alain acaba contratando a bela e jovem Audrey (Japy) em seu lugar, sob o argumento de que ela estaria disposta a trabalhar em comissão e, portanto, seria mais vantajoso financeiramente à empresa, já que não precisaria pagar o salário fixo – o que Constance pretendia.

Porém, o fato de que o título deste thriller psicológico se chama “irrepreensível” já nos indica que essa situação está longe de representar uma derrota para protagonista que, ao invés de procurar qualquer outro emprego para se sustentar, está determinada a recuperar a confiança e a estima de todos, o que significa, portanto, que para voltar a trabalhar, ela terá que forçar a demissão de Audrey.

Neste contexto, é muito fascinante testemunharmos o quão longe Constance está disposta a conseguir o que quer, não importa o custo. Assim, na medida em que a conhecemos de maneira aprofundada, notamos o quanto ela é motivada, hiperativa, energética quando emprega o rigor militar de seus exercícios físicos diários ou; o quanto ela mantém a vaidade e a sexualidade vivas pelos seus encontros sexuais e roupas de marca, o que contrasta com as roupas largas e velhas ao estar no conforto da casa da mãe; ou o quanto ela é volátil e manipuladora na medida em que conta diferentes versões da mesma história para diferentes pessoas ou; por fim, a mesma determinação antes mencionada que advém de um ego de uma pessoa que está acostumada a viver das aparências, que não aceita um “não” ou não se conforma quando alguém simplesmente não atende sua ligação; quando se torna agressiva e explosiva nos momentos de insatisfação.

Marina Foïs (direita) e Joséphine Japy (esquerda) em Irrepreensível

Deste modo, quando ela se aproxima de Audrey, já sabemos que ela tem segundas intenções, mas o roteiro brilhante faz com que você não saiba ao certo quais são elas, pela própria dubiedade de Constance. Ao mesmo tempo em que demonstra certa frieza em seus casos amorosos, ela é possessiva em relação a eles; ao mesmo tempo em que ela revela-se ser frágil emocionalmente, sempre dependendo da figura masculina para saciar os seus desejos e preencher a sua solidão, ela também se mantém forte em suas convicções e independente em outros aspectos de sua vida, ao, por exemplo, nunca pedir ajuda financeira de ninguém, mesmo morrendo de fome. Seu caráter ambíguo, portanto, somente reforça a sociopatia desenhada, o que torna suas atitudes não somente duvidosas, mas potencialmente violentas. Como se fosse uma bomba que pode ou não vir a explodir em um algum momento. Por conseguinte, é neste raciocínio que o suspense funciona maravilhosamente bem.

Um aspecto muito importante da psicologia que a trama explora, é o fato de que a personagem de Audrey representa uma relação de amor e ódio com a protagonista. Amor, pois Constance se espelha naquela figura angelical e ingênua na época de seus 20 anos, motivo pelo qual ela insiste também em dar conselhos para que Audrey aproveite sua vida, viaje, siga seu namorado e parta para a Rússia (além do claro intuito em ocupar sua vaga de trabalho). Ódio, tendo em vista que ela também enxerga sua presença como alguém que está se apropriando da vida que antes a protagonista uma vez teve, e que em seus olhos, é dela por direito. É como se literalmente estivesse tomando o lugar que lhe pertence, tanto na vida amorosa ao Audrey se aproximar de Philippe, quanto seu emprego.

Para tanto, é perceptível a forma de punição que Constance emprega ao exigir que Audrey siga os seus treinamentos físicos, ou quando, em um intuito ameaçador, Constance usa o chuveiro da casa da garota para tomar banho ou sua cama para deitar. Da mesma maneira, pequenas atitudes que seriam consideradas inofensivas se tornam significativas, como, por exemplo, marcar uma visita para procurar um apartamento, se aproximar de Audrey, a fim de apreciar a vista do parque, ou oferecer-lhe uma bebida. O ambiente de suspense, portanto, é destacado em todas essas cenas, cuja fotografia emprega suas luzes neon e trilha sonora psicodélicas, ou com contrates da iluminação, e até por meio dos tons mais claros e naturalistas dos ambientes. Esta instabilidade, portanto, reflete exatamente a alma de Constance, a qual transita entre seus delírios mentais e sexuais ao deitar nua em um piso de azulejo, até a intensa rotina das atividades físicas e as lembranças do seu ex.

Em outra perspectiva, uma crítica pertinente que o filme também explora é justamente o papel da mulher na sociedade capitalista e como ela é desvalorizada. Como exemplo, temos o caso já mencionado, no qual Audrey, pela pouca experiência e necessidade aceita um salário irrisório e, concomitantemente, Constance que, em sua idade avançada, enfrenta dificuldades financeiras no mercado em que atua ao ser rejeitada em favor da “mão-de-obra” inexperiente e mais barata. As figuras masculinas, por sua vez, muitas vezes reificam as mulheres, o que fica mais evidente pela natureza do relacionamento entre Constance e um de seus amantes e o relacionamento de Audrey com seu namorado da Rússia.

Por fim, apesar de algumas reviravoltas e desfechos previsíveis, Irrepreensível é instigante do começo ao fim. Ele prende sua atenção pela intensa personagem tão bem sustentada pela talentosa Marina Foïs.

Texto originalmente publicado pela autora como parte de sua cobertura ao festival de cinema online francês My French Films.

Por admin, 26 de janeiro de 2017
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Sobre mim
Gabriella Tomasi
Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. Tradutora e revisora freelance de textos.
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