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Em Cinebiografia, Comédia

Crítica: Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman, EUA, 2018)

  • 21 de novembro de 2018
  • Por Gabriella Tomasi
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Crítica: Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman, EUA, 2018)
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Dirigido por Spike Lee. Roteirizado por Charlie Wachtel.  Baseado no livro Black Klansman por Ron Stallworth. Elenco: John David Washington, Adam Driver, Laura Harrier, Topher Grace, Jasper Pääkkönen, Ryan Eggold, Paul Walter Hauser, Ashlie Atkinson, Corey Hawkins, Alec Baldwin

Spike Lee, o diretor mais conhecido por suas maravilhosas obras e que se tornaram um marco no cinema como Faça a Coisa Certa (1989), Malcolm X (1992) e Oldboy (2012), agora se junta com o produtor Jordan Peele, o diretor de Corra! (2017), que venceu o Óscar de Melhor Roteiro Original, para contar mais uma história importante e relevante para os dias atuais.

Baseado em fatos reais, na trama ambientada na década de 70, o recém recrutado policial Ron Stallworth (Washington) se torna o primeiro detetive afrodescendente da cidade de Colorado Springs, nos Estados Unidos. Determinado a fazer diferença, ele pretende se infiltrar e expor o grupo extremista da Ku Klux Klan com a ajuda de seus companheiros, para detê-los de prejudicarem as tantas manifestações civis a favor dos direitos dos negros.

O longa de Lee faz um excelente trabalho equilibrando o absurdo e a realidade. Isto é, por mais que nos primeiros minutos o espectador seja bombardeado com teorias bizarras narradas por Alec Baldwin, podemos ver como cada uma delas se concretiza de uma maneira séria, por mais enfadonhas que sejam. Dessa forma, o diretor jamais deixa de apontar para a sua audiência o quanto aquela ficção é baseada em uma situação bastante presente na vida de muitos em pleno século XXI, já que, ao mesmo tempo, temos a presença e menção de personagens reais como o líder David Duke (Grace) e os revolucionários Angela Davis e Kwame Ture (Hawkins). Tampouco é à toa, pois, que Infiltrado na Klan se encerra com imagens documentadas dos conflitos sociais e racistas causados por uma sociedade que em muito reflete também o comportamento do resto do mundo. 

Da mesma maneira, os ataques não são poupados em relação ao status de clássico que o filme O Nascimento de uma Nação (1915) por D. W. Griffith alcançou, mesmo sendo um dos primeiros longas racistas da história da sétima arte e por ter literalmente conseguido trazer a Ku Klux Klan de volta à ativa. Não coincidentemente vemos logo após um ritual do grupo para novos membros referências constantes à Bíblia e às mais famosas citações norte-americanas como: “Deus abençoe a América branca” ou “América em primeiro lugar” ao longo da narrativa, assim como encontramos todos posteriormente rindo e aplaudindo os feitos “heróicos” dos mocinhos brancos contra os terríveis, preguiçosos e criminosos negros das imagens originais de Griffith. 

Personagens com a arma apontada para a quarta parede em Infiltrado na Klan (imagem à direita) são uma referência aos filmes de Quentin Tarantino, como em Jackie Brown (imagem à esquerda)

Mas o que torna a engenhosidade de sua narrativa mais evidente é o fato de que sua história não se trata de negros sofrendo injustiças diretamente, como normalmente muitos filmes dramáticos o fazem, mas o fato de colocar Stallworth, um negro, se passar por um branco que diz as coisas mais ofensivas sobre os próprios negros. Por um lado, essa abordagem traz uma divertida comédia, e por outro, temos o trabalho de seu colega Zimmerman (Driver), que vai em seu lugar aos encontros presenciais da KKK, vivendo o lado intenso e obscuro do perigo real de estar dentro de um grupo extremista como aquele, especialmente por seu personagem ser um devoto judeu. 

Neste contexto, o constante contraste entre engraçado e dramático, surreal e real, o sagrado e o profano também ressalta os contornos incrivelmente irônicos da temática que desenvolve, como por exemplo, o fato de que a esposa de um dos membros da KKK ser extremamente racista, mas sofre os preconceitos de gênero ela mesma; ou quando Patrice (Harrier), o interesse amoroso do protagonista, também possui um lado pessimista e preconceituoso em relação aos brancos; ou então quando Stallworth em um determinado momento é assediado por seus colegas policiais. 

Outras referências metalingüísticas fazem de Infiltrado na Klan um instigante trabalho tecnicamente, não somente pelas referências ao longa de D. W. Griffith, o que inclui a montagem paralela executada em diversas partes (recurso que tornou a marca de consagração do filme), mas também em relação ao uso da arma apontada para a quarta parede, típico dos protagonistas negros dos filmes de Quentin Tarantino, como Jackie Brown (1997) e Pulp Fiction (1994), a granulação da película da fotografia, além de um trabalho maravilhoso de maquiagem e figurino que incorporam muito bem a época setentista. 

Assustadoramente real e incrivelmente divertido, Infiltrado na Klan, é, por fim, um dos melhores e mais importantes filmes do ano 2018.

Texto originalmente publicado pela autora em coluna para o site Cabine Cultural

Por Gabriella Tomasi, 21 de novembro de 2018 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

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