Voltar para Página principal
Em Terror

Crítica: Grave (Raw, França/Bélgica, 2017)

  • 29 de agosto de 2017
  • Por admin
  • 0 Comentários
Crítica: Grave (Raw, França/Bélgica, 2017)
Rating: 5.0. From 1 vote.
Please wait...

Dirigido e roteirizado por Julia Ducournau. Elenco: Garance Marillier, Ella Rumpf, Rabah Nait Oufella,  Laurent Lucas, Joana Preiss, Bouli Lanners.

Grave veio diretamente do Festival de Cannes em 2016 para as telas da televisão em 2017. Mais uma produção da Netflix, o longa dirigido e roteirizado por Julia Ducournau traz um tema bastante delicado e polêmico de ser tratado, ou seja, o canibalismo. Porém, além de demonstrar uma extrema sensibilidade e competência em contar essa história fascinante, também mostra como a plataforma mencionada é capaz sim de produzir verdadeiras jóias que, como Okja, compõem a lista de filmes inusitados e muito bem executados.

A história gira em torno da jovem Justine (Marillier), uma vegetariana que vem de uma família já acostumada e criada em meio à essa preferência alimentar. Ao entrar para a faculdade de medicina veterinária na mesma em que seus pais freqüentaram e onde sua irmã mais velha também estuda, ela é obrigada a comer um pedaço de fígado de coelho cru mesmo contra sua vontade como parte de um tradicional e antigo trote de calouros. Contudo, após a brincadeira, a protagonista se vê completamente viciada em carne de qualquer tipo e sob qualquer forma, inclusive a humana, despertando, assim, um desejo incontrolável e insaciável por essa gastronomia particular.

Se em Santa Clarita Diet o canibalismo era retratado em seu formato cômico, mas ao mesmo tempo visceral, Grave faz jus ao título em seu original quando adota uma abordagem muito mais direta e impactante da verdade “nua e crua” acerca desse mesmo universo, que é de difícil digestão pelo espectador mais frágil. Esse efeito com certeza tem um mérito muito grande por parte da atriz principal, cujo trabalho é simplesmente de tirar o fôlego: sempre tímida e introvertida, ela passa a se descobrir novamente ao começar a comer carne. É nos pequenos detalhes que ela consegue nos transmitir as nuances de sua personagem: um olhar inocente e curioso no canto; uma expressão arrebatadora de desejo; um suspiro de alívio; os efeitos de sua sexualidade despertada; as agonias e desesperos dessa sua nova realidade. Sendo assim, a atração por carne, em especial a humana, é trabalhada muito mais como uma necessidade e como uma legítima defesa em um mundo violento (repare como as irmãs se defendem mordendo uma a outra), do que uma opção alimentar que se consegue controlar, emergindo sentimentos muito instintivos e primitivos exaltados por Marillier de forma excepcional, mas sem nunca perder o caráter humano de Justine, a qual vê essa condição como um fardo nas costas. Por conseguinte, ela se torna uma pessoa multifacetada e cada vez mais instigante.

A mistura do azul melancólico e do alegre amarelo criam um verde destrutivo (Créditos: IMDb)

A partir daí é que vem o tom dramático desse terror: o dilema entre esconder sua situação das pessoas ao seu redor e a liberação de algo que fora reprimido durante muito tempo. É como uma criança ao comer doce pela primeira vez e não resiste aos encantos do seu sabor.

Aliada à atuação impecável também está um trabalho primordial da cineasta que constrói sua narrativa pelo recurso pista/recompensa, no qual pequenos detalhes aqui e acolá representam dados importantíssimos para a história como, por exemplo, o fato da mãe de Justine surtar de repente com a possibilidade de a filha ter ingerido carne acidentalmente no início da trama; a expressão de felicidade da mãe em uma foto do trote de calouros de sua época; a constante proteção da caçula, inclusive pela irmã mais velha; uma incrível naturalidade desta em relação à carne; um pai sempre vestido com camisas bem abotoadas, entre outros elementos, cujas lacunas vão se preenchendo aos poucos até termos uma imagem completa de tudo aquilo apresentado. Os enquadramentos também são bastante sugestivos, eis que sempre coloca sua protagonista encolhida pelo plongée que a observa de cima para baixo, até que suas nuances e suas atitudes cada vez mais perturbadoras a colocam em um ângulo de baixo para cima (contra-plongée) ou então em uma posição mais central no plano.

Ducournau também soube aproveitar bem as cores de sua fotografia na iluminação para complementar as do cenário e/ou vestimentas dos personagens. A cor vermelha da carne crua não somente se revela pertinente para a narrativa, mas também se presta para dialogar com simbologias. Por exemplo, o vermelho intenso representa toda a luxúria e prazer sexual inclusive em relação à carne, contrastando muitas vezes com o figurino branco da ingenuidade subvertida, assim como as cores azul e amarela se transformam em um verde destrutivo.

Grave é, por fim, um dos filmes mais bem feitos que estrearam em 2017 e certamente surtirá efeitos no espectador muito tempo depois dos créditos finais.

Por admin, 29 de agosto de 2017
Crítica: 1922 (EUA, 2017)
Dica Netflix: A Babá (2017)
Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verificação de Segurança *

Sobre mim
Gabriella Tomasi
Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. Tradutora e revisora freelance de textos.
Advertisement
Siga-nos
Newsletter
Receba nossas Novidades
Encontre-nos no instagram

@iconedocinema