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Em Cinebiografia

Crítica: Fome de Poder (The Founder, EUA, 2017)

  • 10 de março de 2017
  • Por admin
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Crítica: Fome de Poder (The Founder, EUA, 2017)
Avaliação: 4.0. De 1 voto.
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Dirigido por John Lee Hancock. Roteirizado por Robert D. Siegel. Elenco: Michael Keaton, Nick Offerman, John Carroll Lynch, Linda Cardellini, Patrick Wilson, B. J. Novak, Laura Dern.

McDonald’s. Todo mundo conhece esse nome. Pioneiro da rede fast-food, inspirador dos rivais Burguer King e Taco Bell, a história gira em torno de como o pequeno empreendimento de uma família do interior norte-americano se tornou na maior franquia de restaurante do mundo.

Nos primeiros minutos de filme, Roy Kroc (Keaton), um empresário, fala com a quarta parede. Confiante e determinado, ele tenta vender um produto – máquinas de milkshake – com carisma e polidez até receber a recusa de diversos potenciais clientes em diferentes cidades dos Estados Unidos que ele visita. Extremamente frustrado, ele demonstra cansaço até pelo mau atendimento dos estabelecimentos onde come, inserido maravilhosamente em uma espécie de foreshadowing, ou seja, indicando o que está por vir.

Em um contexto de tantas recusas, mas persistência, Kroc se depara com um pedido inusitado de seis máquinas feito por um pequeno restaurante chamado McDonald’s em San Bernardino na Califórnia, de então de propriedade de dois irmãos: Dick (Offerman) e Maurice (Lynch) Mc Donald. Percebendo a imensa potencialidade e a inovação daquele negócio, que cronometradamente prepara lanches de qualidade em 30 segundos, o protagonista torna-se seguro e decidido a ajudar o empreendimento familiar a montar um império rentável e franqueável para os irmãos. Ou era o que se pensava, como historicamente se sabe.

É interessantíssima a construção dos personagens pelo roteiro de Siegel. Em um primeiro momento vemos um Kroc como vítima de um capitalismo, sem perspectiva de crescimento da empresa que efetivamente criou, e, na seqüencia, a vontade genuína de ajudar pessoas que possuem uma visão e uma ideia revolucionária. Esses elementos auxiliam a firmar a empatia pelo personagem. Mas apesar de inteligente e visionário, ele gradualmente se torna o vilão da história, eis que cada vez mais somos submersos em uma personalidade obsessiva, ambiciosa, inescrupulosa que sequer se contenta com a vida confortável de classe média alta ou dá valor à esposa com quem vive.  Ademais, são marcantes os diálogos que são desenvolvidos como, por exemplo, Kroc diz: “Eu vi McDonald’s e eu tive que tê-la para mim”, que é exatamente o que resume tanta motivação e tanta arrogância. Ou então a frase “McDonald’s é família” repetida constantemente pelo protagonista, querendo significar, em outras palavras, uma origem que define a luta familiar que ele transforma rapidamente em uma estratégia de marketing e propaganda para investidores. Portanto, nós o odiamos pela sua desconsideração de tudo e todos ao seu redor, mas também o admiramos até certo ponto por tanta adoração e cuidado pelo projeto quando ninguém se importava. E essa ambigüidade de sentimentos é bastante aproveitada durante toda a narrativa.

Os irmãos McDonald em Fome de Poder. (Créditos: IMDb)

Ao mesmo tempo, percebemos os efeitos das decisões de Kroc para os irmãos McDonald, cuja linguagem corporal demonstra como os personagens já pressentem seu negócio e inclusive o próprio nome ser possivelmente tomado de suas mãos aos poucos. Mais uma vez com o trabalho inteligente e competente da montagem, testemunhamos cada passo que Kroc dá, cada decisão tomada sem o consentimento deles alternadas com a reação de ambos a cada telefonema e cada carta enviada lhes informando da situação. Embora os seus esforços, sentimos junto com eles a pressão e a sensação agonizante de estar de “mãos atadas” frente à uma situação que eles mesmos se colocaram, mas que acreditaram estar fazendo o melhor.

Inegável, pois, que todos são apaixonados e dedicados por uma ideia em comum. Essa paixão é igualmente enaltecida constante e exageradamente por meio de comparações do negócio à uma igreja ou a prédios públicos, como também por uma fotografia pendurada na parede da arquitetura física do restaurante que é desfocado do plano, mas permanece sutilmente posicionado sempre acima da cabeça de todos eles, refletindo essa motivação. No mesmo sentido, nota-se como a fotografia, a direção de arte e figurino trabalharam em conjunto para integrar a cada plano e a cada cenário as cores amarela, azul e vermelha da famosa marca. Percebam como essas cores estão presentes ou na iluminação amarela ou na paleta mais fria, nas vestimentas de camisas amarelas e gravatas vermelhas e como os objetos em sua volta sempre seguem os mesmos tons complementando os demais elementos da mise-en-scène. A direção de Hancock, por sua vez, é extremamente eficiente ao posicionar os irmãos McDonald de costas ou no quanto do quadro para evocar sua inferioridade e, em contrapartida, utiliza-se um leve contra-plongée, assim como um posicionamento mais centralizado de Kroc. Afinal ele é o superior e o centro das atenções.

Mas esta não é uma obra que tem por objetivo uma auto-crítica, nem uma reflexão relevante das consequencias das decisões de um ou outro personagem ou até mesmo da promoção de um consumo exacerbado de um produto alimentício danoso à saúde. Nenhuma dessas questões sequer é enfrentada como o fez, por exemplo, o filme Super Size Me. E o que pode incomodar é que a linguagem é majoritariamente executada tanto pelo viés histórico e objetivo que poderia ter sido facilmente transformado em um documentário biográfico da vida de Ray Kroc. Contudo, é possível sim extrairmos inúmeras lições: por meio dos erros e acertos de todos os personagens envolvidos; até que ponto a qualidade dos alimentos prevaleceu sobre a expansão empresarial; e principalmente as condutas antiéticas, dúbias e evasivas de Kroc. A interpretação de sua história e os aprendizados que ela comporta, portanto, não são desenvolvidas tão explicitamente como normalmente o cinema o faz (e neste caso é plenamente válido defender que o deveriam ter feito), mas é um filme que cumpre com o que se propôs a fazer e também abre espaço para que cada um possa processar e refletir sobre o que se viu em tela.

Fome de Poder é agridoce e, mesmo longe de ser uma otimista obra sobre concretizar sonhos, tem um impacto enorme a ponto de questionar nossas próprias ambições e as consequencias de condutas gananciosas, em relação a quem afetamos.

Por admin, 10 de março de 2017
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