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Em Animação

Crítica: Festa da Salsicha (Sausage Party, EUA, 2016)

  • 14 de novembro de 2016
  • Por admin
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Crítica: Festa da Salsicha (Sausage Party, EUA, 2016)
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Nota: 4,0/5,0*   

Dirigido por Conrad Vernon e Greg Tiernan. Roteiro de Kyle Hunter, Ariel Shaffir, Seth Rogen, Evan Goldberg, e Jonah Hill. Elenco com: Seth Rogen, Kristen Wiig, Jonah Hill, Bill Hader, Michael Cera, James Franco, Danny McBride, Craig Robinson, Paul Rudd, Nick Kroll, David Krumholtz, Edward Norton e Salma Hayek.

Quando o filme dá início, observamos um supermercado de uma cidade. Animados com mais um dia, todos os alimentos do lugar começam um musical: cantando e dançando a um ritmo alegre. Lá, somos introduzidos a vários tipos de produtos humanizados e todos estereotipados: as bebidas gostam de festar; a sessão alemã é nazista; a sessão chinesa; os produtos mexicanos têm o sotaque espanhol; um pão sírio é um árabe marcado pela frieza, um chiclete mascado converte-se em Stephen Hawking, além de frutas, verduras, bebidas e enlatados. Esperançosos, eles anseiam o dia de sair ao encontro do lugar divido, quando escolhidos pelos humanos.

Contudo, tudo muda quando um produto devolvido alerta-os da morte que os espera. Não acreditando nesta versão relatada, a qual é completamente contrária à fé de todos os alimentos, ele passa a ser rotulado como louco.

Assim, a história é conduzida a tal ponto que a trama principal se desdobra em três e todas têm o desfecho no mesmo momento: Frank, uma salsicha, sensibilizado com seu colega, busca explicações racionais do mito religioso criado; um produto de higiene feminino fica obcecado por uma vingança incessante, em razão de ter sido rejeitado por sua deficiência oriunda de um incidente, e; finalmente, a de Berry, uma salsicha diferente das outras, que tenta superar suas próprias inseguranças e acaba sendo um elemento essencial para o final do filme.

O mais interessante é que, desde o começo, o roteiro é recheado com uma linguagem altamente vulgar, conotações sexuais, referências às partes reprodutivas feminina e masculina, suicídio, mortes explícitas, os quais transparecem que este não é mais um filme de animação para crianças. Seth Rogen o faz propositalmente, subvertendo um gênero voltado quase inteiramente para o público infantil. O resultado é de momentos cômicos muito eficientes, mas que podem acabar por vezes cansativos, por insistir e repetir tanto o tema das piadas.

Mas não é simplesmente pelo puro prazer de trazer algo chocante. Ele traz um verdadeiro olhar crítico e uma reflexão muito profunda da mentalidade e da cultura atual.

A própria ambientação do supermercado já diz muito: um lugar colorido, com cores vivas, e a escolha de um produto, por um humano – o qual é na visão deles é a personificação de um deus – significa ir para o céu, literalmente. Ao contrário, se se trata de um produto vencido ou deficiente, ele vai para o lixo, o que é visto como a representação da morte, simbolizada pelo breu do fundo da lixeira, mesmo vista em ângulo plongée,  opondo-se à luz intensa e branca da porta de saída.

Assim sendo, é preciso se comportar, é preciso ser obediente e, principalmente, lutar contra qualquer tipo de tentação, se não, os deuses certamente castigarão. E isto refletirá não somente na religião, mas também na abordagem de outros temas como o do homossexualismo, e como tal “comportamento” seria proibido e mal visto pelos deuses, por exemplo, a relação entre os personagens femininos do taco e do pão de cachorro quente, ou então, entre o pão sírio (árabe) e um bagel (judeu). Ainda, temos a questão do sexo antes do casamento; o dispor do próprio corpo, as drogas, o que se espera ou não da mulher e até a própria existência dos personagens. Todos esses pontos são abordados como se fossem dogmas estabelecidos convencionalmente e que aprisionam eles, levando a uma busca por liberdade.  Curiosamente, toda essa libertação tem seu clímax no dia 4 de julho, dia da independência dos Estados Unidos.

Ainda, alguns recursos narrativos muito legais enriqueceram a experiência: os planos inclinados mostram o choque e a confusão na mente dos alimentos ao se darem conta que serão picados, fritados e cozidos; a utilização das em cores vermelho e o verde esmeralda ressaltam o ambiente sanguinário e de morte. A alta escuridão e a sujeira das ruas, em um contraponto ao ambiente limpo e organizado do supermercado. Além disso, a alternância de planos entre estas cenas foi brilhantemente executada durante a montagem: ao adentrar no jardim de uma casa somos transportados para um setor do supermercado ou então quando a imagem do traseiro de um pão é justaposta por uma propaganda de dois pêssegos.

Outro destaque é a utilização das três dimensões para a realidade na qual estamos inseridos. Porém, quando os personagens lembram-se de situações passadas, o flashback narrativo é executado em duas dimensões. O efeito é quase nostálgico.

Percebemos, enfim, que o enredo é tão agressivo e ousado que coloca em risco ofender e desagradar muita gente, especialmente pela suposição de inocência criada, quando vemos alimentos bonitinhos e felizes.

Porém, é exatamente devido a esta contradição criada, que torna este filme tão inteligente.

Por admin, 14 de novembro de 2016
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Sobre mim
Gabriella Tomasi
Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. Tradutora e revisora freelance de textos.
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