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Em Drama

Crítica: Ferrugem (Brasil, 2018)

  • 30 de agosto de 2018
  • Por Gabriella Tomasi
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Crítica: Ferrugem (Brasil, 2018)
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Dirigido por Aly Muritiba. Roteirizado por: Aly Muritiba, Jessica Candal. Elenco: Giovanni de Lorenzi, Tifanny Dopke, Enrique Diaz, Clarissa Kiste, Igor Augustho, Duda Azevedo, Pedro Inoue.

Aly Muritiba, o diretor brasileiro que ficou mais conhecido pelo seu longa-metragem Para Minha Amada Morta (2015), retorna às telas do cinema com a estréia de seu mais novo filme Ferrugem, o qual recentemente fora laureado com os prêmios Kikito nas categorias de melhor filme, melhor desenho de som e melhor roteiro no Festival de Gramado de 2018. Na trama, a adolescente Tati (Dopke) se vê alvo de bullying entre os colegas da escola após um vídeo íntimo seu com seu ex-namorado se tornar público, por meio do aplicativo do WhatsApp.

Atualmente, há uma grande taxa de suicídio nesta faixa etária retratada, principalmente com a divulgação dos grupos como o Baleia Azul, que se aproveitam da vulnerabilidade das pressões que os jovens sofrem na idade para serem aceitos no ambiente em que convivem. Esse inferno virtual que experimenta a protagonista, portanto, se torna o pano de fundo para o roteiro se aprofundar nas causas e consequencias dessa conduta, cada vez mais comum e presente na vida das novas gerações.

Dividida em duas partes, a primeira se dedica em focar na perspectiva da vítima, quando ela descobre que está sendo motivo de chacota em razão das imagens compartilhadas. Já Muritiba, por sua vez, nunca deixa de aproveitar os espaços para trabalhar a mise-en-scène e ressaltar esses mesmos sentimentos, como por exemplo, a redução da profundidade de campo que foca em Tati na solidão dos corredores do colégio, apenas para segundos depois se ver rodeada de centenas de colegas desfocados que aumentam a sensação de claustrofobia da personagem; ou então as grades de um ginásio e janelas com detalhes que se assemelham à prisão emocional em que ela se encontra. Da mesma forma, a direção de fotografia faz essa transição de tons em neon coloridos, exaltando o vermelho, roxo e azul para simbolizar esse mundo inocente da adolescência até que, gradativamente, a paleta assume tons mais sombrios e realistas.

Na segunda parte da narrativa, quando o enredo se concentra em um dos suspeitos de terem vazado o vídeo, Renet (de Lorenzi), o que não coincidentemente era o interesse amoroso inicial de Tati, vemos como esses atos levam à consequencias irreversíveis e, neste aspecto, Ferrugem nunca é indulgente com seus personagens. Ao contrário, a metáfora da própria matéria “ferrugem”, ou seja, algo bastante sólido que se corrói e se deteriora aos poucos, ganha mais força, intensidade e mais vida com a progressão da história. Dopke faz um excelente trabalho, neste sentido, para transparecer a vergonha e a humilhação que sente.

Um aspecto muito interessante das nuances desse roteiro é o fato de que a narrativa se constrói de forma a não possuir “mocinhos” ou “vilões” unidimencionais. Pelo contrário, este filme-denúncia parece se concentrar em colocar em pauta um problema muito mais profundo e mais sério, o que podemos associar inclusive com os estudos da psicanálise de Freud em relação à infância, assim como o papel da mulher na nossa sociedade tão patriarcal.

Ferrugem (Créditos: IMDb)

Neste contexto, é evidente que a conduta dos personagens principais de Tati e Renet foram pautados pela própria infância, pelo convívio de sua família. Tati, apesar de vir de um ambiente de classe média alta e possuir comodismos, tem uma relação praticamente inexistente com seus pais. A falta de comunicação, o medo de repreensão (“se minha mãe souber, ela vai me matar”) e o desamparo frente à situação de bullying, uma vez que ela não tinha meios de contornar essa situação ou ao menos pessoas adultas que pudessem dar o apoio psicológico necessário, fez com que ela tomasse certas decisões. Dessa forma, Tati incorpora o sentimento adolescente da humilhação e da mentalidade que a aprovação de seu círculo de amizades lhe importa demais, principalmente nos minutos iniciais do filme quando ela vira motivo de piada por ter sido traída pelo ex-namorado.

Renet é, no entanto, o personagem mais interessante da trama, e cujo estudo psicológico fica mais evidente. Isto porque, na segunda parte, fica evidente que as relações familiares moldam o tipo de pensamento que ele possuía de Tati. O fato de que ele ignora constantemente as tentativas de aproximação da sua mãe, a culpa que ele atribui à ela pela desestrutura de sua família, a completa falta de comunicação inclusive do pai em relação a esses problemas, somente se transpõem para o seu interesse amoroso (em certo  momento, Renet pergunta ao pai: “por que você nunca responde as minhas perguntas?”).

Em outras palavras, o rancor por sua mãe e as frustrações infantis de Renet são inconscientemente transferidos à Tati, que também a culpa e ignora suas mensagens devido à essa imagem firmada em sua mente. Essas repressões e opressões, principalmente de ordem sexual, já que ele tinha um interesse forte na protagonista, foram durante muito tempo objeto de estudo de Freud em relação ao inconsciente da nossas memórias antigas e nossas atitudes no presente, até mesmo como um instrumento para interpretar sonhos, o que nada mais é pertinente neste caso.

Por outro lado, o ódio vivenciado por este personagem masculino, em particular, também revela outro problema que mencionei anteriormente, o do machismo latente. Durante toda a narrativa podemos perceber esse julgamento masculino geral e as opressões de gênero constantemente.

Neste sentido, podemos elencar: a tentativa de fuga do pai de Renet para a praia com o filho, sob o pretexto de protegê-lo; a própria discussão no carro entre os pais de Renet, relevando indícios de um suposto relacionamento abusivo em que a mãe do adolescente é ainda incriminada de abandono familiar. Não é coincidência, pois, que a única que defende e entende a mãe de Renet é a filha mais nova, e também não é coincidência que em um momento de desamparo de Raquel (Kiste) ela acaba encontrando e se reconciliando com o filho perdido. Em relação à protagonista, podemos citar o abandono da amiga de Tati em um dos momentos mais críticos para satisfazer as vontades um menino (“ele é um idiota e você vai atrás dele mesmo assim?”, pergunta Tati); a tentativa grosseira do ex-namorado da Tati em beijá-la; ou então a discussão inicial dos colegas que culpam a mulher pela traição do namorado, constrangendo a protagonista; todos são exemplos que ressaltam esse caráter misógino e conservador enraizado na sociedade. 

O que prejudica às vezes a narrativa é que o impacto desses aspectos psicológicos não seja tão intensamente trabalhado com os atores de modo a sensibilizar em maior grau o seu espectador, devido à gravidade do tema a que se propõe a discutir. Mesmo assim, Ferrugem é uma obra maravilhosa, relevante, provocativa e desconfortante no melhor sentido possível. É um dos filmes mais lindos de 2018.

Por Gabriella Tomasi, 30 de agosto de 2018 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

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