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Em Cinebiografia

Crítica: Eu, Tonya (I, Tonya, EUA, 2018)

  • 9 de fevereiro de 2018
  • Por Gabriella Tomasi
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Crítica: Eu, Tonya (I, Tonya, EUA, 2018)
Rating: 4.0. From 1 vote.
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Direção por Craig Gillespie. Roteiro por Steven Rogers. Elenco: Margot Robbie, Sebastian Stan, Allison Janney, Paul Walter Hauser, Julianne Nicholson & Caitlin Carver.

Tonya Harding foi uma patinadora profissional de gelo e durante muito tempo foi o principal nome de sua área, tendo em vista que foi uma das únicas na história do esporte que conseguiu realizar um movimento em gelo chamado “axel triplo” considerado impossível de ser executado dentre os atletas. Ao mesmo tempo, é uma figura controvertida e ainda odiada dos Estados Unidos, haja vista as suspeitas de que teria mandado quebrar a perna de uma de suas maiores concorrentes para garantir um lugar nas Olimpíadas de 1994 na Noruega – o que custou sua carreira.

Eu, Tonya obviamente é um recorte da ascensão e declínio profissional da protagonista a partir de relatos em vídeos. O interessante desse longa é que estes mesmos relatos foram recriados em tela sob uma razão de aspecto mais reduzida, recurso que justamente simboliza o passado dos personagens, além de contar com todos os atores envelhecidos, cada um contando a sua versão do que aconteceu. Claro, o filme não é meramente expositivo, pois há uma recriação dos eventos contados por eles em imagens e, neste aspecto, a edição cumpriu um papel maravilhoso em justapor o relato de um muitas vezes contrariando em seguida com a imagem do que ocorre , criando uma organicidade na narrativa ao desenvolver uma espécie de humor negro que funciona e nos mantém entretido. Da mesma forma, o roteiro de Rogers cria um ambiente sem personagens rotulados de mocinhos ou bandidos, e todos conseguem ser tão multifacetados e complexos. Nada é preto no branco, tudo possui uma dinamicidade eficiente que é incrivelmente raro um filme biográfico possuir.

Eu, Tonya

Além disso, o roteiro cria um forte argumento crítico sobre a fama, a elitização e a busca do sonho americano a todo custo. Trata-se de uma luta nua e crua, um desgaste constante, uma determinação infinita que permeia todos os obstáculos enfrentados por ela. O que acontece reflete também muito o universo feminino atual – no seu âmbito particular e profissional – e as pressões e exigências a que todas eventualmente se submetem na vida, sem que a sua trajetória em específico se torne auto indulgente. Isso não vem acompanhado de redenção para a protagonista, ou a sua santificação, porque ao final, o filme permite que cada um dos espectadores tire suas próprias conclusões acerca dos crimes e das punições que lhe impuseram.

Aliás, essa foi uma abordagem também adotada pela direção de Gillespie. O cineasta recria em cada plano os acontecimentos reais, com grande detalhe desde os bastidores até os espetáculos, mas com um toque artístico incrível. Cenas memoráveis podemos mencionar o triunfo de Tonya (Robbie) ao conseguir realizar o “axel triplo” representando pelo leve contra-plongée e pela iluminação forte a vitória conquistada e a sensação de superioridade da personagem; o plano centralizado da protagonista se olhando no espelho, simbolizando o que deve encarar à sua frente; a movimentação de câmera que acompanha os movimentos dos pés e movimentos das danças sem nunca desviar atenção da profissional. 

Por fim, não posso deixar de elogiar a fotografia que incorporou tão bem as tonalidades de acordo com o humor dos personagens, como os verdes que cercam os momentos difíceis de Tonya ou a própria película granulada que nos aproxima mais do tom documental que o filme deseja transmitir.

Eu, Tonya não é um filme perfeito, já que a própria fotografia se revelou por vezes defeituosa, ausente de acabamento e capricho, inclusive com efeitos visuais pouco eficientes. No entanto,  o longa não deixa de ser um espetáculo cinematográfico.

Por Gabriella Tomasi, 9 de fevereiro de 2018 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

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